Uma Breve Historia do Mundo - Geoffrey Blainey
191 pág.

Uma Breve Historia do Mundo - Geoffrey Blainey


DisciplinaHistória65.384 materiais2.661.672 seguidores
Pré-visualização50 páginas
os nativos italianos tomaram a dianteira. Linus, provavelmente um nati-
vo da Toscana, tornou-se o bispo de Roma, ou papa, não muito tempo depois da perse-
guição de Nero aos cristãos. 
Em Roma e nas cidades mais afastadas e de difícil acesso do Império Romano, mul-
tidões - com a presença de alguns judeus, às vezes - atacavam com violência os cristãos. 
A lista de mártires crescia cada vez mais. Como era raro que os cristãos fossem a maioria 
da população em qualquer cidade ou vila maior do império, eles dependiam da tolerância 
que lhes era concedida pelos outros. Teriam sido mais tolerados se tivessem sido mais a-
firmativos. Às vezes, não prestavam homenagem suficiente àqueles imperadores roma-
nos que, cada vez mais, viam-se como semelhantes aos deuses. 
O cristianismo tornou-se como um sapato nas mãos de cem sapateiros, assumindo 
muitas formas diferentes até o ano 300. De província para província, a Igreja em expan-
são diferia em suas crenças e rituais. Um mercador e sua esposa que se transferissem de 
uma congregação na Ásia Menor para uma na Itália provavelmente teriam um choque 
quando vissem pela primeira vez seu novo pastor executar os rituais ou explicar sua teo-
logia. 
 
 
59 
 
O domingo, o sal e as escrituras 
 
A atual forma do cristianismo, as observâncias e os dias santos apareceram aos 
poucos. A princípio, o domingo não era necessariamente o dia do Senhor. Os judeus ha-
viam reverenciado o sábado como seu dia e de início, os cristãos tendiam a reverenciar 
esse dia como o coração da semana. São Paulo começou a conferir ao domingo o dia de 
reverência, uma vez que era o dia da ressurreição de Cristo. Quando o imperador Cons-
tantino tornou-se cristão e fez com que o Império Romano entrasse em conformidade com 
sua nova fé, sua lei de 321 declarou o domingo como sendo o dia de adoração na cidade, 
porém, não no interior. Lá, as vacas e cabras tinham de ser ordenhadas, a colheita feita e 
a terra arada, independentemente do dia da semana. 
A Páscoa logo se tornou a época especial do calendário dos cristãos, mas sua data 
exata não foi escolhida facilmente. Ao longo da costa da Ásia Menor, o coração inicial da 
Cristandade, a princípio o dia de Páscoa não era no domingo. Durante anos, os teólogos 
cristãos discutiram sobre o dia ideal em que a Páscoa deveria cair. Seu desacordo foi 
mais estridente em 387; naquele ano, na Gália, o Domingo de Páscoa foi celebrado em 
18 de março. Na Itália, aconteceu exatamente um mês depois e, em Alexandria, foi ainda 
mais tarde, sendo celebrado em 25 de abril. No século 7º, uma região da Inglaterra cele-
brava o Domingo de Ramos no mesmo dia em que outra parte celebrava a Páscoa. A u-
nidade da cristandade era freqüentemente muito precária. 
Muitos dos dias especiais do ano cristão vieram bem mais tarde. Durante três sécu-
los, as primeiras igrejas ao redor das margens do Mediterrâneo não celebraram o nasci-
mento de Cristo. Com o tempo, os cristãos, com bastante sensatez, aproveitaram a opor-
tunidade dos festivais populares, que há muito tempo tinham sido reservados para marcar 
o dia mais curto do ano no Hemisfério Norte. Assim, em Roma, o dia 17 de dezembro, um 
dia de festividades pagãs conhecido como Saturnália, acabou sendo tomado à força pelos 
cristãos e mudado para 25 de dezembro, quando foi proclamado como o dia do nascimen-
to de Cristo. Mesmo quando Roma decidiu de uma vez por todas celebrar o atual dia de 
Natal, os cristãos em Jerusalém aderiram, ao contrário, ao dia 6 de janeiro. 
Como o dia do nascimento de Cristo, o dia especial reservado a Maria, a mãe de 
Cristo, demorou a achar um lugar no calendário cristão. Em 431 o Conselho de Éfeso deu 
a Maria um papel de honra, e o seu dia, 25 de março, cada vez mais se tornou conhecido 
como o Dia da Anunciação. A medida que crescia o culto a Maria, um culto de menos vul-
to se desenvolveu em torno da mãe dela, Ana, e um dia chamado de "a concepção de 
Sant'Ana" acabou sendo reverenciado na cidade italiana de Nápoles. Por centenas de 
anos, Maria recebeu mais veneração nas igrejas do Oriente do que nas do Ocidente. 
O cristianismo lentamente adaptou alguns de seus rituais vindos da vida cotidiana 
dos romanos. Por exemplo, quando um bebê romano chegava ao seu oitavo dia, alguns 
grãos de sal eram colocados em seus pequeninos lábios, na crença de que o sal afastaria 
os demônios que, do contrário, poderiam prejudicar a criança. Quando a Igreja Cristã, em 
seu início, batizava seus novos seguidores, ela benzia um bocado de sal e, imitando o 
costume romano, dava-o aos batizados. Isso era para manter o ensinamento de Jesus 
que, sabendo como os pobres desperdiçavam no uso do sal, escolheu o sal como símbo-
lo para o que era precioso e raro. Quando subiu às montanhas, Jesus dissera a seus dis-
cípulos: "Vós sois o sal da terra." 
Em muitos dos lugares em que grandes quantidades de cristãos se reuniam, eles se 
envolviam em debates animados entre si. Discutiam porque vinham de várias partes do 
Império Romano, discutiam porque Cristo às vezes falava em parábolas e não deixava 
muito claro seu significado para aqueles que ouviam sua mensagem em segunda mão, 
discutiam porque confiavam naqueles que, depois da morte de Cristo, escreveram seus 
ensinamentos e ofereceram visões conflitantes do mesmo sermão ou milagre. E, às ve-
zes, os cristãos discutiam entre si, porque cada um lia nas palavras de Cristo o que eles 
60 
 
próprios queriam ler. Ainda assim, um sinal de unidade era inegável; os viajantes geral-
mente se sentiam em casa, pelo menos em espírito, quando entravam numa igreja cristã 
longe de sua terra natal. 
Por pelo menos quatro séculos, o cristianismo foi como um metal quente despejado 
de fornos em moldes de formatos variados. Às vezes, um forno quase explodia ou o fogo 
era apagado. Freqüentemente, os fornos eram remodelados e, muitas vezes, eram ampli-
ados. Os moldes eram mudados repetidas vezes, de forma que, se os primeiros seguido-
res de Cristo tivessem voltado a viver, não teriam reconhecido muitas das crenças e ritu-
ais da Igreja que eles tinham ajudado a fundar. Teriam ficado mistificados por outro fato: o 
fim do mundo, tão iminente a seus olhos e um estímulo tão insistente em suas crenças 
profundas, ainda aguardava no futuro. 
Enquanto isso, a cidade de Roma estava deixando de ser o coração do vasto impé-
rio. Os exércitos e sua procissão de generais famosos começaram a substituir as velhas 
instituições de Roma como centros do poder. Além disso, a capital situava-se na extremi-
dade ocidental de um império cuja verdadeira riqueza e equilíbrio populacional se encon-
trava na extremidade oposta do Mar Mediterrâneo. Conseqüentemente, no ano 285, o im-
pério foi dividido, por facilidade administrativa, em dois: o Império do Ocidente, governado 
a partir de Milão, e o Império do Oriente, ou principal, governado a partir da cidade de Ni-
comédia, localizada no Mar de Mármara, a cerca de cem quilômetros a leste da atual ci-
dade de Istambul, florescendo, em pouco tempo, com majestosos edifícios. 
Na história, muitos acontecimentos fundamentais são moldados por forças, movi-
mentos e fatores escondidos, mas, ocasionalmente, uma pessoa quase sozinha muda a 
direção do mundo. Um menino que vivia na cidade de Nicomédia, em seus anos de maior 
orgulho, quando batalhões de pedreiros praticamente se atropelavam, veio a ser um des-
ses moldadores de grandes acontecimentos. Constantino era filho de um oficial de exérci-
to que subiu de cargo rapidamente e tornou-se o imperador da metade ocidental do impé-
rio. Quando o imperador Constantino foi morto em batalha em York, na Inglaterra, em 
306, o filho, com pouco mais de 20 anos, foi aclamado pelo exército como sucessor de 
seu pai. Constantino provou ser um grande general. Para surpresa de muitos, ele era ex-
tremamente solidário com o cristianismo. Na França, 6 anos depois, ele se converteu.