Uma Breve Historia do Mundo - Geoffrey Blainey
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e adeptos da agricultura, cultivando uma variedade de plan-
tas e criando perus e patos-do-mato. Deve-se admitir que eles não dispunham de algu-
mas invenções de importância adotadas ou inventadas pelos europeus, pois não eram 
familiarizados com o bronze, o ferro, parafusos e pregos. Não dispunham da roda e não 
possuíam polias mecânicas, pólvora e navios de alto-mar. 
O sacrifício de vidas humanas praticamente dominava o calendário da cidade-ilha. O 
ato do sacrifício era mais parecido com uma carnificina sistemática do que com um festi-
val religioso. No século anterior, quando o ritual de sacrifícios havia se tornado mais fre-
qüente, milhares de vítimas escolhidas, a maioria das quais eram homens, podiam ser 
mortas no mesmo mês. Como a vida após a morte era vista como mais importante e infini-
tamente mais longa que esta vida, um menino e uma menina que fossem levados ao tem-
plo para ser mortos em cerimônia, pelo menos, tinham o consolo de que sua recompensa 
seria duradoura. 
A execução era feita com muito drama, presidida por sacerdotes, justificada pela i-
deologia e, até mesmo, bem acolhida por alguns pais, principalmente os pobres, que tra-
ziam e apresentavam os próprios filhos. Não se podia esperar que prisioneiros de guerra 
retirados de suas terras natais e seguidores de uma religião muito diferente vissem o altar 
de sacrifícios e a faca de pedra sob a mesma luz consoladora. Ser pendurado no altar já 
todo manchado de sangue e ver a mão de um sacerdote segurando uma lâmina de pedra 
bem afiada era a última visão consciente de dezenas de milhares de vítimas. O coração 
era habilidosamente arrancado do corpo e, em seguida, queimado em cerimônia. 
O abastecimento de uma cidade tão grande como essa era um feito de habilidosa 
organização e trabalho pesado. A cidade era estocada com alimentos, grãos, lenha e ma-
teriais de construção por pessoas que serviam de animais de carga. O continente ameri-
cano não possuía veículos de roda e, mesmo que houvesse uma carroça, não havia cava-
los ou bois para puxá-la. Lenha e alimentos podiam ser carregados em barcos pelo lago a 
uma distância pequena, mas os artigos de longa distância eram trazidos de tão longe 
quanto o Golfo do México por uma procissão de carregadores humanos que punham em 
seus ombros pacotes especiais, podendo chegar a quase 25 quilos de peso. Como parte 
da estrada era composta de subidas íngremes, os carregadores humanos tinham de ser 
fortes. 
Uma boa parte do solo ao redor do lago era fértil. Por quase 4 mil anos, havia sido 
cultivado com implementos relativamente simples de madeira e irrigado por canais de á-
gua desviados do lago ou de nascentes. Nos séculos mais recentes, sua fertilidade havia 
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sido sustentada com esterco trazido da cidade. As safras de milho, feijões, verduras, pi-
mentas, abóboras, outros vegetais e frutas vinham das terras próximas ao lago. O milho, 
mais do que qualquer outra planta, era o segredo do sucesso da economia: um quilômetro 
quadrado plantado com milho podia alimentar três vezes o número de pessoas que viviam 
de trigo ou centeio cultivados numa área de tamanho semelhante na Europa. 
A conquista da cidade de Montezuma foi corajosamente planejada por Cortês. Ele 
sabia, desde o início da luta, que estariam em número muito inferior. Além disso, estavam 
lutando longe de casa, em terras que o inimigo conhecia intimamente. No papel, suas 
desvantagens eram muito maiores que suas vantagens, mas contou com o apoio funda-
mental dos povos vizinhos que, odiando os astecas, estavam nada mais que ávidos para 
servir aos espanhóis como guarda avançada, carregadores, fornecedores de alimentos e 
guerreiros. Cortês chegou a ganhar até mesmo o apoio sutil dos astecas que estavam no 
comando e que pensavam, quando ele chegou em novembro de 1519, que fosse a reen-
carnação de um deus por quem há muito eles esperavam. A vitória de Cortês foi uma das 
mais impressionantes de que a história mundial tem registros. 
Montezuma II, com seus traços escuros e nariz aquilino, cortesia e eloqüência, hu-
mildemente se rendeu. Cortês assumiu o poder do império e até mesmo dos filhos do im-
perador. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CAPÍTULO 18 
Os Incas e os Andes 
 
 
O império dos astecas havia desmoronado. Bem mais ao sul, nas longínquas mon-
tanhas dos Andes, havia um império relativamente novo que parecia ser ainda mais for-
midável. Governado por um imperador conhecido como o Inca, ficava muito mais distante 
dos novos portos espanhóis do Caribe. Além disso, suas cidades e vilarejos contavam 
com um escudo protetor de montanhas e desfiladeiros. 
As encostas medianas e mais baixas dos Andes e a costa adjacente do Pacífico há 
muito eram ocupadas por caçadores e trabalhadores da colheita. Um remanso de águas 
paradas no mundo, a região começou a se agitar, por volta de 3000 a.C, quando domesti-
cou três tipos de animais: a lhama, a alpaca e o porquinho-da-Índia. Mil anos depois, seu 
povo começou a cultivar milho e batata, duas plantas valiosas que eram desconhecidas 
na Ásia, na África e na Europa. Na irrigação de suas plantações, eles conseguiram lidar 
com obstáculos geográficos mais difíceis que os apresentados nas cidades dos vales do 
Oriente Médio. Na época de Cristo, o povo de Nazca já cavava túneis nas encostas de 
morros, ao sul do Peru, com a intenção de desviar os lençóis subterrâneos para a irriga-
ção. Sua construção de terrenos para agricultura e os aquedutos tornaram-se impressio-
nantes. Sua habilidade em cultivar uma variedade cada vez maior de plantas de grande 
utilidade era igualmente admirável. 
Enquanto para a Europa a Idade Média foi, de acordo com certas definições materia-
listas, o "período negro", o mesmo período nos Andes foram os "anos das luzes". As ci-
dades e vilarejos por todos os Andes estavam sofrendo alterações com novas tecnologi-
as, novos cultivos e novos instrumentos. De alguma forma, os pequenos Estados dos An-
des, em 1400, assemelhavam-se às cidades-Estado rivais da Itália do mesmo período, 
exceto pelo fato de os Andes terem uma profusão de Estados separados, muitos dos 
quais ocupavam apenas um vale e suas encostas ao redor. A paisagem acidentada facili-
tou o isolamento. Pelo menos 20 línguas distintas eram faladas e talvez 100 grupos étni-
cos ou mais ocupavam, cada um, seu território nas encostas medianas e mais baixas das 
montanhas e na estreita faixa da costa do Pacífico. Nessa época, em pouco espaço de 
tempo, uma superpotência começou a lutar pela sua posição de supremacia até alcançar 
o comando, o que coincidiu com a chegada dos espanhóis. 
Os conflitos de guerra entre essas dúzias de grupos ou micronações haviam há pou-
co se tornado quase um hábito. No decorrer da mais séria dessas guerras, as plantações 
e os projetos de irrigação do inimigo, resultado de gerações de trabalho e criatividade, fo-
ram danificados, mulheres e crianças foram levadas como prisioneiras, rebanhos e plan-
tações foram destruídos ou saqueados. Até as pedras que eram usadas para moer seus 
grãos foram arrancadas à força dos derrotados. Nessa longa rodada de lutas, os incas 
provaram ser superiores e, a partir de 1438, aproximadamente, seu território começou a 
se expandir. 
Originários da região montanhosa ao redor de Cuzco, no atual Peru, os incas che-
gavam a talvez 40 mil. Após uma sucessão de guerras e ameaças de guerra, ganharam 
domínio sobre todos os grupos e governaram um total de 10 a 12 milhões de pessoas. 
Seu domínio, no mês em que Colombo desembarcou pela primeira vez nas Américas, fa-
zia os impérios de Portugal e Espanha parecerem pequenos. Os incas governaram toda a 
área que ia da atual Colômbia e Equador, ao norte, até a região central do Chile, ao sul. 
Hoje cinco repúblicas