Uma Breve Historia do Mundo - Geoffrey Blainey
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e duas ilhas das Antilhas, Martinica e 
Guadalupe. A Inglaterra tinha colônias que se estendiam ao longo da costa do Atlântico, 
desde a ilha de Terra Nova, que dividia com a França, até a região da Nova Inglaterra, 
Virgínia e Antilhas. Os dinamarqueses também logo estabeleceram plantações nas Ilhas 
Virgens. Dos estados da Europa Ocidental, só a Alemanha estava de fora. 
Na costa atlântica da América do Norte, holandeses e suecos tinham colônias inde-
pendentes, que rompiam com a continuidade da cadeia de colônias costeiras da Inglater-
ra. Os holandeses fundaram Nova York e a eles também pertencia a ilha de Curaçao, no 
Caribe; o Estado de Delaware pertencia à Suécia. No total, seis nações da Europa Oci-
dental tinham colônias nas Américas, mas os territórios espanhóis e portugueses continu-
avam sendo de maior importância e, juntos, provavelmente produziram a maior parte das 
riquezas. 
 
Um supermercado cruza o atlântico 
 
Os europeus estavam começando a dominar as Américas, mas a corrente de influ-
ências corria nas duas direções. Nunca antes, na história do mundo, haviam sido transfe-
ridas tantas plantas valiosas de um continente ao outro. 
O milho era a mais notável das novas plantas, e Cristóvão Colombo, pessoalmente, 
trouxe sementes em seu navio. O milho tinha a impressionante capacidade de produzir, 
na época da colheita, muito mais grãos do que o trigo ou o centeio; não se espalhava com 
velocidade mirabolante, mas, com o passar do tempo, chegou às fazendas das partes 
mais quentes da Europa. Em 1700, os pés altos e verdes de milho podiam ser vistos ba-
lançando ao vento na maior parte das zonas rurais da Espanha, Portugal e Itália. 
A batata americana foi para o norte da Europa o que o milho representou para o sul. 
Os irlandeses acolheram bem a batata, pois, em seus pequenos pedaços de terra, ela o-
ferecia mais calorias do que qualquer outro produto. Crescia no Condado de Down em 
1605 e, antes do fim daquele século, a batata quente era o principal prato da população 
pobre da Irlanda. Dali, curiosamente, as sementes de batata foram levadas para a Améri-
ca do Norte, onde esse alimento sul-americano ainda era desconhecido. Os alemães 
também se regozijaram com a batata, ao descobrirem que essa plantação, ao contrário da 
plantação de milho maduro, não era facilmente danificada ou destruída por exércitos vio-
lentos. 
Nas plantações européias, também podiam ser encontradas outras novidades ame-
ricanas: a batata-doce, o tomate, que levou muito tempo até agradar os paladares euro-
peus (ainda continuava sendo uma novidade na Inglaterra, quatro séculos depois de Co-
lombo ter regressado), e a alcachofra, que ganhou na França uma popularidade inicial 
bem maior que a do tomate. Misteriosamente, um novo tipo de alcachofra, também intro-
duzida pelos franceses do Canadá, foi chamada de alcachofra de Jerusalém. 
O peru, a única carne a ser trazida das Américas, também foi igualmente disfarçada 
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por seu nome europeu. Na verdade, o nome em inglês, turkey, é o mesmo usado para o 
país "Turquia", que já havia emprestado seu nome à primeira denominação que foi dada à 
exótica galinha-d'angola, inicialmente chamada de "galo ou galinha da Turquia", quando 
os exploradores europeus a viram pela primeira vez na costa da África. Com o tempo, o 
nome foi transferido para a ave mexicana que acabou logo chegando às fazendas euro-
péias. Os perus, que mais rigorosamente falando deveriam ter sido chamados de "méxi-
cos", já eram populares nas mesas da Espanha e da Inglaterra no Natal de 1573. 
O fato de terras tão distantes umas das outras, como a Turquia e a América, serem 
confundidas pelos cozinheiros era um sinal de como havia mistério em terras do Ocidente 
e do Oriente. O próprio milho americano chegou a ser chamado de milho da Turquia, ou 
trigo da Turquia, por camponeses europeus que, com todo o direito, maravilharam-se com 
essas plantas abundantes desconhecidas de seus avós. 
Das Américas vieram presentes como o abacaxi, que era consumido somente na 
mesa dos muito ricos, a pimenta-de-caiena (ou cápsico), o cacau e o tabaco. Como quase 
todas as novidades transatlânticas, o tabaco se espalhou aos poucos pela Europa e, dois 
séculos depois da primeira viagem de Colombo, um trabalhador rural típico da Polônia ou 
da Sicília provavelmente ainda não havia sentido seu doce aroma. 
As monarquias da Europa não tinham certeza de como controlar essa nova moda de 
fumar tabaco em cachimbos ou de cheirá-lo na forma de rapé; alguns reis tentaram bani-
lo. Na Rússia, um fumante podia ser punido com a amputação de seu nariz. Outros paí-
ses que tinham colônias tropicais tentaram proibir a plantação de tabaco em solo nacional 
para que pudesse ser cultivado nas colônias e importado e, assim, recolher impostos so-
bre cada lote de tabaco desembarcado. A Inglaterra estabeleceu colônias na Virgínia e 
em Maryland, principalmente para o cultivo desse produto. A distante Turquia acabou se 
tornando um dos cultivadores mais entusiasmados do tabaco americano que, para au-
mentar a confusão, tornou-se conhecido como tabaco da Turquia! 
O tráfico de minerais, a curto prazo, foi o comércio mais dramático do Atlântico. O 
primeiro presente para os espanhóis na América Central e do Sul foram o ouro e a prata. 
Uma vez que haviam conseguido total controle sobre seus territórios americanos e envia-
do trabalho forçado para operar nas minas, os espanhóis despachavam para casa, em 
comboios altamente armados, uma quantidade anual tão grande de ouro e prata que a in-
flação monetária começou a mexer com a Espanha e, em seguida, com a Europa. Sem-
pre haverá polêmica sobre o papel dos metais preciosos em instigar a inflação na Europa 
do século 16, mas um fator parece claro, as dramáticas ondas de inflação do mundo oci-
dental coincidiam com grandes conflitos bélicos ou, de maior importância ainda, com uma 
mudança relevante no fornecimento de apenas dois produtos fundamentais: metais pre-
ciosos, nos séculos iniciais, e óleo, na década inflacionária de 1970. 
Nos primeiros navios que traziam metais preciosos, plantas e sementes valiosas pe-
lo Atlântico, veio um outro turista: a sífilis, que provavelmente veio das Américas e tornou-
se comum no século 16. Um dos sintomas dessa doença eram feridas na mucosa nasal, 
semelhantes a mordidas. 
 
O desfile de pavões 
 
As viagens européias também abriram a Ásia para o mundo. Durante séculos, uma 
infinidade de produtos e plantas asiáticos atravessou toda a extensão da Ásia por terra, 
mas agora tudo fluía pelas rotas do mar. O chá da China encontrou seu caminho para a 
Europa, assim como a misteriosa porcelana e muitas outras manufaturas. 
Caulim, a matéria-prima da porcelana, era uma palavra que originalmente parecia 
estranha à maioria dos ouvidos europeus. A palavra era, na verdade, o nome de um mor-
ro na China de onde essa argila branca e macia era extraída. Um sacerdote francês com 
espírito empreendedor enviou amostras de caulim à Europa por volta de 1700, destacan-
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do que era fundamental para a manufatura da porcelana. Em pouco tempo, garimpeiros 
acharam depósitos semelhantes de caulim na Alemanha, na França e na Inglaterra. Na 
Europa, a primeira verdadeira porcelana veio a ser feita na fábrica de Meissen, na Saxô-
nia, em 1707. 
Da China, vinham novas flores de jardim para a Europa. O crisântemo era a favorita. 
Uma flor simplesmente amarela até o século 8?, era honrada na China como a mais no-
bre das flores e louvada em verso pelos poetas. Com ela, adornavam-se os mercados de 
rua em partes da China, quando as flores do verão haviam passado de sua época de viço. 
Em 1600, os chineses haviam criado aproximadamente 500 variedades, das quais algu-
mas chegaram à Europa com a nova onda de importações de flores. 
O Novo Mundo também deu aos ávidos europeus um prazer que não era comum: 
deu-lhes as cores