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APONTAMENTOS DE REGIMES E SISTEMAS POLÍTICOS

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industrialização, o que permite igualmente concluir o que a ​introdução da proteção                       
social não é uma reação a novas formas de industrialização. ​A primeira metade do                           
século.XX generalizou e alargou os sistemas de proteção social, em quase todos os                         
países da Europa. Com o aparecimento dos ​direitos sociais, chamados direitos de                       
terceira geração, ​a par com o reforço da autoridade do Estado, formulam-se novas                         
exigências sociais e atribui-se ao Estado cada vez mais o papel de prestador desses                           
direitos. O pós-guerra viu nascer em muitos países o Welfare State, com promulgação                         
dos direitos sociais da terceira geração. Nos países mais desenvolvidos o Estado                       
tornava-se prestador fundamental dos novos proclamados direitos sociais. A                 
cidadania, construída para libertar o cidadão do Estado, era agora garantida pelo                       
Estado. ​O Estado foi assim sobrecarregado de funções sociais​. Passou a entender-se                       
que a solidariedade acima de tudo, era da competência do Estado, passando a                         
sociedade a desempenhar um papel meramente supletivo. Perverteu-se desse modo                   
a função do Estado, cujo papel, em relação à sociedade deveria ser de respeito pelo                             
princípio da solidariedade. ​A função de solidariedade social, primariamente da                   
sociedade, e só supletivamente do Estado, acabou a ser conferida ao Estado, como                         
se ele fosse capaz de realizar a justiça social, reconhecendo-se à sociedade uma                         
mera atuação de suporte ou de reforço da intervenção social. ​Desse modo se                         
desresponsabilizou a sociedade dos deveres de solidariedade que sobre ela                   
impendem. 
 
 
→ MODELOS DE ESTADO SOCIAL  
Três tipos distintos de Estado-social na Europa:  
 
- Estado Social Liberal: ​o que primeiro foi instituído por liberais, e hoje                       
prevalece em países de forte tradição liberal (USA, UK), e que assenta                       
sobretudo em soluções de mercado. Encoraja provisões privadas, limitando as                   
responsabilidades públicas às falhas graves do mercado. ​Encoraja os                 
cidadãos a optar pelo mercado privado de Welfare, ​enquanto o governo                     
procura reforçar testes de rendimento. ​Os benefícios tendem a ser                   
condicionados pelo trabalho, constituindo por isso um incentivo ao trabalho e                     
ao crescimento do emprego.  
 
- Estado Social Conservador: ​também apelidado de continental, a que mais                   
certamente poderíamos chamar Estado-social subsidiário, por ser devedor da                 
Doutrina Social da Igreja, e prevalece em países católicos (Alemanha, França) e                       
que atribui particulares responsabilidades as famílias. A família absorve                 
muitos dos riscos da exclusão social. É um Welfare mais familiarista, onde a                         
segurança assume particular importância. A segurança social protege               
particularmente os que têm emprego segura, ​com impacto na rigidificação do                     
mercado de trabalho, com ​prejuízo para os que estão fora do mercado de                         
trabalho, dificultando o ingresso nele, ​sendo também menos favorável à                   
emancipação da mulher.  
 
- Estado Socialista ou Social Democrata: ​fortemente estatista, que prevalece                 
nos países nórdicos, que faz o Estado o ​prestador por excelência ou exclusivo                         
dos direitos sociais, ​e põe ênfase no pilar governamental. ​Favorece o indivíduo                       
mais do que a família, e a sua independência, diminuindo as obrigações da                         
família. ​Diminui a sua dependência do mercado e aumenta a do Estado.                       
Assenta em rendimentos universais garantidos, procurando fazer face a                 
desempregos de longa duração, e atendendo em particular crianças, doentes                   
e idosos. ​É mais custoso, e procura maximizar o emprego e a emancipação da                           
mulher.  
 
 
→ CONSEQUÊNCIAS DO ESTADO SOCIAL 
A primeira consequência do desenvolvimento do Welfare State foi o ​crescimento do                       
aparelho do Estado, ​o gigantismo organizativo e burocrático, que se traduziu em:                       
aumento da produção legislativa, da regulação social; aumento dos impostos e da                       
intervenção fiscal do Estado; crescimento do funcionalismo público; aumento da                   
burocracia estatal. ​Este aparelho de Estado motivou uma crise do poder, quer em                         
termos de eficácia, quer em termos de legitimidade. ​Crise de eficácia, porque o                         
Estado, aumentando nas suas funções, estruturas, recursos e despesas, perdeu                   
mobilidade e agilidade, vendo-se progressivamente incapaz de responder               
cabalmente aos problemas da complexificação e diferenciação da sociedade, a todas                     
as exigências que lhe foram sendo sucessivamente formuladas. O aumento das                     
despesas sociais acabou a comprometer o desenvolvimento económico, com o                   
aumento dos impostos e o crescimento da dívida pública, inibindo o investimento.  
Crise de Legitimidade: ​a par desta crise de eficácia, outra crise de legitimidade se                           
produziu. ​A evolução das expetativas e das reivindicações sociais em relação ao                       
Estado, fez aumentar a decepção do seu não cumprimento, afetando a sua                       
credibilidade e autoridade política. ​A visão demiúrgica da política sobrecarregou o                     
Estado de procura social.  
 
 
→ A CRISE DO ESTADO SOCIAL EM PORTUGAL 
O modelo de Estado Social plasmado na Constituição é um modelo fortemente                       
estadualizado, pois que, segundo ele, aos direitos sociais proclamados correspondem                   
a ações ou prestações do Estado, verdadeiras obrigações do Estado. É um modelo,                         
inicialmente, de tendência ​coletivista, que decorreu das ​nacionalizações de inúmeras                   
instituições privadas de solidariedade social, que secundariza a sociedade e o seu                       
papel, ​entendida como supletiva do Estado. A evolução económico-social tem vindo                     
porém a pôr em causa a sustentabilidade deste modelo.  
 
→ CRISE DA CIDADANIA  
Assistimos mais recentemente a uma nova reformulação da cidadania, com a                     
emergência de novos direitos , que não poderão ser satisfeitos mais no quadro                         
demasiado estreito do Estado-Nação, ​e novos e exigem um mais vasto                     
enquadramento global, por um lado, e novos e mais exíguos enquadramento global,                       
por um lado, e novos e mais exíguos enquadramentos subnacionais ou locais, por                         
outro. ​A cidadania traduz, nas sociedades de consumo de hoje, cada vez mais, o                           
valor de qualidade de vida, direitos de 4ªgeração, ​do respeito por si próprio, pelos                           
outros, e pela natureza. O sujeito destes novos direitos da vida e do ambiente, de                             
qualidade, de participação mais intensa, de excelência, é agora sobretudo o                     
consumidor. ​Ora estes novos direitos do consumidor não encontram satisfação no                     
simples quadro nacional. ​Problemas como o da segurança nuclear, o da segurança