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TEXTO 02 - Primórdios do Behaviorismo Pavlov, Watson e Guthrie

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aspecto e instintos caçadores, e os perus para desenvolverem 
o peito. Essa prática é chamada de eugenia.
O principal porta-voz em favor do ambiente foi Watson (1930). Ele estava conven-
cido de que não havia, entre os indivíduos, diferenças no momento do nascimento, e o 
que as pessoas se tornam é resultado de suas experiências. “Não existe isso”, argumen-
tou Watson, “de uma herança de capacidade, talento, temperamento, constituição mental e 
características” (1930, p. 94; em itálico no original).
Quando Watson entrou em cena, John Locke, o filósofo, já havia passado a seus 
alunos a doutrina da tábula rasa, que apresentava, de modo metafórico, a mente hu-
mana como uma lousa em branco sobre a qual as experiências escrevem suas mensa-
gens. Watson aceitou integralmente essa afirmação. “Dê-me a criança e meu mundo 
para criá-la”, escreveu, “eu a farei engatinhar ou andar; eu a farei escalar e usar suas 
mãos para construir prédios de pedra ou madeira; eu farei dela um ladrão, um atirador 
ou um viciado em narcóticos. A possibilidade de moldá-la, em qualquer direção, é 
quase infinita” (Watson, 1928, p. 35).
Alguns anos depois, Watson publicou outra versão dessa mesma declaração, que 
se tornou a sua afirmação mais amplamente citada: “Dê-me vários bebês saudáveis e 
bem-formados”, disse, “e meu mundo especificado para criá-los, e eu garanto tomar 
qualquer um ao acaso e treiná-lo para transformá-lo em um especialista qualquer – 
médico, advogado, artista, comerciante e, sim, até em um mendigo e ladrão, indepen-
dentemente de seus talentos, inclinações, tendências, habilidades, vocações e a raça de 
seus antepassados” (1930, p. 104).13
A controvérsia em torno dos papéis relativos da experiência e da hereditariedade 
na moldagem do desenvolvimento humano está longe de ser resolvida. Entretanto, a 
13 “É interessante”, disse a Velha Senhora, “que todo mundo finalize essa citação exatamente nesse ponto, 
quando, na verdade, as palavras seguintes de Watson são muito reveladoras”. “Eu vou além dos meus fatos”, 
escreve ele, “e admito isso, mas me defronto com os que defendem idéias contrárias às minhas, e eles vêm 
fazendo isso há milhares de anos” (p. 104). Watson pode não ter sido tão inflexível em suas crenças quanto 
se pensa.
52 Teorias da Aprendizagem
maioria dos psicólogos admite que ambos, hereditariedade e ambiente, interagem para 
determinar as muitas facetas do comportamento e da personalidade humanos. Como 
salienta Anastasi (1958), a questão importante pode não ser o “quanto” o ambiente ou 
a hereditariedade contribuem, mas “como” cada um deles exerce sua influência.
Aprendizagem Superior
Toda a aprendizagem, disse Watson, tem a ver com respostas que são selecionadas 
e encadeadas. Mesmo seqüências de comportamento mais complexas resultam de 
um processo de condicionamento por meio do qual o comportamento mais recente 
é ligado a um estímulo por um tipo de encadeamento de seqüências de respostas. A 
aprendizagem mais complexa requer o condicionamento de mais seqüências de estí-
mulo-resposta, o que resulta naquilo que Watson chamava de hábitos. Até mesmo 
a linguagem, uma das aprendizagens mais complexas, começa com ligações simples 
entre estímulo e resposta. A fala, afirmava Watson, envolve movimentos concretos das 
cordas vocais e da laringe, bem como da boca, da língua e dos lábios, que são condicio-
nados para ocorrer na presença de estímulos apropriados. Como ele coloca, as palavras 
são apenas substitutos (por meio do condicionamento) para objetos e situações.
E pensar nada mais é do que fala subvocal. Watson acreditava que essa fala subvocal 
é acompanhada, a todo momento, por movimentos da laringe que ele tentou medir 
e descrever. Referia-se a esses movimentos como comportamentos implícitos, em vez 
de explícitos.
Aplicação Educacional e Outras Aplicações da Psicologia 
de Watson
A forte convicção de Watson de que são as experiências que determinam tudo o que 
as pessoas fazem e sabem leva à crença de que todos os seres humanos são basicamen-
te iguais – as diferenças entre o famoso e o desconhecido, o rico e o pobre, o cora-
joso e o tímido são apenas uma questão de experiências e oportunidades diferentes. 
Essa visão inerentemente igualitária da condição humana provou ser muito popular. 
Como Stagner (1988) destaca, ela se encaixa perfeitamente bem à Zeitgeist – o espírito 
do tempo.14
14 “Não é, na verdade, o seu Zeitgeist”, disse a Velha Senhora, indicando que eu deveria dar uma pausa no 
gravador, porque o que estava prestes a dizer não era parte do livro. Explicou que a verdadeira igualdade não 
é mesmo parte do nosso Zeitgeist. O Zeitgeist atual, pelo menos no mundo ocidental industrializado, é mais 
uma dessas coisas politicamente corretas. Embora um dos aspectos do politicamente correto seja desviar você 
do seu caminho para não dizer ou fazer coisas que poderiam ser ofensivas, inadequadas, grosseiras, injustas ou 
não significativas, isso não implica igualitarismo. Disse que o politicamente correto é um estímulo falso para 
tratar as pessoas com respeito, amor e imparcialidade e que, embora leve à observância de princípios igua-
litários, o fato é que a maioria das sociedades não se comporta como se acreditasse que todas as pessoas são 
iguais (e, extrapolando, têm igual valor). Disse muitas outras coisas e pediu que ficássemos quietos, porque 
havia um peixe rondando seu anzol – embora eu não tivesse dito nada. Então voltou a ler o livro e eu achei 
que o peixe tinha ido embora. Liguei de novo o gravador.
Primórdios do Behaviorismo: Pavlov, Watson e Guthrie 53
Contudo a teoria também fornece prescrições severas para a criação e a educação 
da criança, bem como para o treinamento e controle dos seres humanos nas forças 
armadas, na indústria, em todo lugar. Assegura que o comportamento humano pode 
ser direcionado pelos arranjos criteriosos e inteligentes dos eventos de estímulo e res-
posta. Não beije ou afague suas crianças, aconselhava Watson; dê-lhes um aperto de 
mão e então prepare o ambiente em que elas vivem para que os comportamentos que 
você deseja que elas tenham aflorem sob o controle dos estímulos apropriados.
Atitudes e Emoções
Como vimos na discussão sobre as implicações educacionais da teoria de Pavlov, mo-
delos simples de condicionamento clássico são muito úteis para explicar a aprendiza-
gem emocional. Isso porque, muitas emoções parecem ser aprendidas como resultado 
de um processo, quase sempre não consciente, de condicionamento clássico. A Figura 
2.8, por exemplo, ilustra como uma fobia por matemática pode ser condicionada do 
modo clássico.
Modificação do Comportamento
Do mesmo modo que uma fobia pode ser adquirida pelo condicionamento clássico, 
também pode ser eliminada por ele. A aplicação deliberada de teorias como as de 
Watson, para mudar ou controlar o comportamento indesejável é chamada de modi-
ficação do comportamento. Um exemplo bem conhecido da aplicação do condicio-
namento clássico na modificação comportamental é oferecido pela técnica de Mowrer 
e Mowrer (1938) para curar a enurese noturna. Nesse procedimento, um dispositivo 
detector de água é colocado sob o lençol da cama. Uma simples gota de líquido é 
suficiente para ativar o aparelho, disparando um alarme que avisa e acorda a criança 
para que ela vá ao banheiro. Dentro de pouco tempo, a criança passa a ir ao banheiro 
quando necessário, mesmo que o alarme não esteja ligado. Por quê?
Nos termos do condicionamento clássico, o barulho do alarme é um estímulo 
incondicionado (US) ligado a uma resposta incondicionada (UR) de acordar, o que 
causa contração da musculatura, de modo que a micção não ocorre imediatamente. 
Após poucas associações, o US (alarme) remete à sensação de bexiga cheia (um CS). 
Por meio do condicionamento clássico, a CS (sensação de bexiga cheia) acaba por 
substituir o US (o alarme), resultando nas respostas condicionadas

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