Fundamentos de Terapêutica Veterinária
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Fundamentos de Terapêutica Veterinária


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aumento no débito cardíaco, ocorre melhora na perfusão 
renal, com desativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Assim, os digitálicos aumentam a diurese, o 
que determina reduções na pressão venosa e na resistência vascular sistêmica. 
A digoxina e a digitoxina são as preparações mais comumente usadas na veterinária. 
b. Farmacocinética: 
A absorção oral da digitoxina é mais previsível e completa (95%) que a da digoxina, resultando em melhor 
biodisponibilidade. A forma de elixir é melhor absorvida (75 a 90%) que o comprimido (50 a 70%), tendo sido 
recomendadas reduções na dosagem em aproximadamente 25% quando a escolha for a primeira. As injeções 
intramusculares são dolorosas, de absorção imprevisível e freqüentemente resultam em necrose muscular. 
A distribuição dos digitálicos no organismo é diferente, pois apenas a digitoxina é lipossolúvel, atingindo 
virtualmente todo o organismo. Por não possuir esta lipossolubilidade e não se distribuir pelo líquido ascítico, a 
dose da digoxina deve ser calculada utilizando-se o peso aproximado do animal magro, considerando-se uma 
redução de aproximadamente 15% adequada para a maioria dos casos. 
A meia-vida da digoxina no cão é de 20 a 40 horas, com grande variação individual. Como 90% dos níveis 
sanguíneos em estado de equilíbrio são atingidos apenas após três administrações, são necessários 2 a 5 dias para 
que sejam atingidos os níveis de equilíbrio após o início da terapia de manutenção. Um animal intoxicado com 
digoxina tem 50% da droga remanescente 20 a 40 horas após ter sido suspensa a terapia. Contrastando com a 
digoxina, a meia-vida da digitoxina no cão é de apenas 8 a 12 horas, sendo necessárias três administrações 
diárias, ao contrário das duas que se usa para a digoxina. Com ambas as drogas pode-se instituir inicialmente a 
chamada terapia de digitalização, que consiste no uso de altas doses nas primeiras 48 horas, visando alcançar 
mais rapidamente os níveis de equilíbrio. 
A cinética de eliminação e as vias metabólicas são diferentes para a digoxina e digitoxina. A eliminação da 
digoxina ocorre por filtração glomerular e reduções na dosagem são requeridas em animais com esta função 
comprometida; a digitoxina é uma opção nesta situação. A digitoxina é eliminada primariamente pelo fígado e 
não parece haver alteração nesta eliminação quando há comprometimento hepático. 
 
 
Os felinos possuem uma grande variabilidade individual em relação à resposta farmacológica e clínica aos 
digitálicos, sendo facilmente intoxicados pelos mesmos. A farmacocinética da digitoxina não é bem estudada no 
gato, mas sabe-se que a mesma possui uma meia-vida de 2,5 dias nesta espécie, contra-indicando desta maneira 
seu uso em felinos. Para ambos os digitálicos, a formulação de elixir é pouco palatável e normalmente difícil de 
ser administrada em felinos. 
c. Indicações: 
Os digitálicos estão indicados no tratamento de todas as formas de insuficiência cardíaca congestiva. Um grande 
número de pacientes controlados clinicamente e com ritmo sinusal podem descontinuar seu uso, sendo 
eficazmente controlados apenas com diuréticos e/ou vasodilatadores. São indicados também no controle da 
freqüência ventricular elevada na fibrilação atrial e no tratamento da taquicardia atrial paroxística resistente a 
outras medidas terapêuticas. 
A digitalização oral usando dosagens de manutenção desde o início é o método preferido, pois minimiza as 
chances de intoxicação. Neste esquema terapêutico, as concentrações séricas ideais geralmente são atingidas em 
dois a cinco dias. A dosagem empregada é de 0,22mg/m2 a cada 12 horas para cães com mais de 20 kg, e 
0,011mg/kg a cada 12 horas para cães com menos de 20kg. O Dobermann requer um esquema terapêutico 
diferenciado, que consiste de 0,25mg pela manhã e 0,125mg à noite, devido aos efeitos colaterais. Para gatos 
pode-se utilizar ¼ do comprimido de 0,125mg a cada dois dias. 
A dosagem de digitálicos pode ser melhor ajustada pela avaliação da concentração medicamentosa sérica 
aproximadamente uma semana após o início da terapia. Amostras séricas de digoxina são obtidas 8 a 12 horas 
após a dose anterior e os níveis de digitoxina são determinados 6 a 8 horas após a administração do 
medicamento. A faixa terapêutica para a digoxina é de 0,8 a 2,4 ng/ml e para a digitoxina é de 15 a 35 ng/ml. Em 
pacientes com níveis sanguíneos adequados, mas ainda sintomáticos, pode-se aumentar a dose em 30% e obter 
novos níveis séricos uma semana mais tarde. 
d. Contra-indicações, toxicidade e efeitos colaterais: 
Os digitálicos estão contra-indicados em animais com doença pericárdica, miocardiopatia hipertrófica, estenose 
aórtica e arritmias ventriculares graves (fibrilação ventricular e taquicardia ventricular, exceto quando 
acompanhadas de insuficiência cardíaca congestiva). Deve-se ter cautela com pacientes prenhes, lactentes e 
idosos, destacando-se que a ação dos digitálicos no coração dos fetos é duas vezes maior que nos adultos. 
Os digitálicos possuem baixo índice terapêutico e a intoxicação é freqüente. Muitas situações clínicas afetam a 
farmacocinética destas drogas, predispondo o paciente á intoxicação. Dentre estas situações, podem ser citadas 
para a digoxina a insuficiência renal (reduz a eliminação) hipotireoidismo e hipertireoidismo (exigem 
respectivamente redução e aumento da dose), e pacientes geriátricos, pois a digoxina está normalmente ligada ao 
músculo esquelético e animais com menor massa muscular podem sofrer diminuição no volume de distribuição, 
além de sua taxa de filtração glomerular ser geralmente baixa, predispondo-os à intoxicação caso não sejam 
promovidas reduções compensatórias na dosagem. 
 
O peso corporal deve ser monitorizado regular e freqüentemente em pacientes com insuficiência cardíaca e as 
dosagens dos digitálicos ajustadas de acordo com o mesmo. 
 
Alterações nos níveis séricos de cálcio desempenham um importante papel na intoxicação por digitálicos. A 
hipocalemia tende a aumentar as concentrações de digitálicos do miocárdio e pode também contribuir para o 
desenvolvimento das arritmias cardíacas durante a intoxicação. Anorexia concomitante ao uso de diuréticos é um 
dos fatores mais comuns que levam a esta hipocalemia associada à insuficiência cardíaca. A hipercalcemia 
também pode complicar a intoxicação por digitálicos, potenciando a carga do cálcio celular e aumentando a 
automaticidade ventricular. Pacientes hipercalêmicos ou aqueles recebendo suplementação de cálcio podem, 
portanto, estar predispostos a arritmias cardíacas durante a administração de digitálicos. 
As manifestações clínicas da intoxicação pelos digitálicos são causadas tanto por ações diretas quanto 
neuralmente mediadas. Os sintomas de intoxicação variam entre indivíduos, mas a anorexia, depressão e/ou 
borborigmo são queixas iniciais freqüentes, seguidas por náusea, vômito, e diarréia se a intervenção não for 
imediata. Nos casos graves, o vômito pode ser persistente e prolongado, resultando em distúrbios eletrolíticos e 
azotemia pré-renal, todos tendendo à elevação das concentrações séricas da digoxina e à potencialização dos 
efeitos tóxicos da droga. As arritmias cardíacas comumente acompanham a intoxicação por digitálico e podem 
contribuir para a morbidade e mortalidade. Bradicardia sinusal com graus variáveis de bloqueio AV, taquicardia 
ou bigeminismo ventriculares e, menos freqüentemente, velocidades lentas de resposta ventricular à fibrilação 
atrial, são sinais de intoxicação digitálica. 
 
 
O vômito é um dos mais precoces sinais de intoxicação digitálica e, quando ocorrer, indica a imediata 
necessidade de interrupção do tratamento. 
Animais com sintomas clínicos ou eletrocardiográficos de intoxicação devem ter a administração de digitálico 
interrompida e, se possível, realizada uma avaliação da concentração sérica da droga. Os níveis séricos e o 
paciente