Manual do Jovem Advogado - 76PG - LIVRO (1)
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Manual do Jovem Advogado - 76PG - LIVRO (1)


DisciplinaIntrodução ao Direito I86.552 materiais502.320 seguidores
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com outras asseguradas pelo Estatuto da Advocacia e da Ordem 
dos Advogados do Brasil, na forma da Lei Federal nº 8.906/94, possibilitam ao advogado atuar com 
independência e sem medo, possibilitando que não apenas a lei e os direitos dos cidadãos sejam 
respeitados, mas também impedindo que o Estado Democrático de Direito seja aviltado. 
 
 
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A POSTURA PROFISSIONAL E A CORRETA UTILIZAÇÃO DAS 
PRERROGATIVAS PELO ADVOGADO CRIMINALISTA 
 
CARLOS ALBERTO BAILLO AVANCINI 
 
 
Juvenal era uma criança de classe média, criativo e muito falante. Dentre os seus sonhos da 
infância, o principal era tornar-se um grande advogado, talvez influenciado pelo seu vizinho, um velho 
RÁBULA (aquele que exerce a advocacia sem ser formado). 
 
Vencida a fase do ensino médio (na sua época ainda chamada de \u201ccolegial\u201d), sem pestanejar 
inscreveu-se para o vestibular em uma Faculdade de Direito (desaconselhada pelo MEC e repudiada pela 
OAB); e, como não poderia ser diferente, obteve sucesso nas provas e iniciou o deficiente curso. 
 
Abandonados os velhos tênis e os bermudões desbotados, pois, afinal, estava formado e já 
havia obtido, após cinco tentativas a aprovação nos exames da OAB, foi chamado por um tio para 
acompanhar o primo que havia sido preso em flagrante por furtar um MP4 (art. 155, do Estatuto Penal 
Repressivo, o velho CÓDIGO PENAL). 
 
Impecável sob um terno e gravata adquiridos na 25 de março, Juvenal, imprimindo excessiva 
velocidade no seu Chevette 77 e desrespeitando todas as placas pare e semáforos chegou imediatamente 
na DELPOL (Delegacia de Polícia). Era início de noite e, por conseqüência, o procedimento iniciar-se-
ia no plantão. 
 
Com toda a pompa e arrogância foi logo invadindo a sala do Delegado (pois, segundo 
erroneamente aprendeu, o Estatuto da EAOAB permite ao advogado entrar e sair em ambientes como 
àquele sem pedir autorização). Ora, em primeira análise, conclui-se que a sala invadida era o espaço de 
trabalho do Delegado, não sendo, s.m.j., tão pública quanto interpretou o novo causídico. Por outro lado, 
um dos principais mandamentos que deve imperar na relação diária dos operadores do direito é o 
chamado respeito mútuo. 
 
Já de orgulho ferido, o DECANO (velho) Delegado Plantonista, deixou aflorar a prepotência, 
e passou a tratar com excesso de formalidade o inseguro causídico. 
 
Iniciado o procedimento, Juvenal, tentando demonstrar a sua posição de combativo defensor, 
interferiu diversas vezes, chegando a atrapalhar a condução dos trabalhos. 
 
Com a sua vasta experiência, o delegado admoestou o advogado esclarecendo que por se tratar 
de procedimento (INQUISITÓRIO, INQUISITIVO ou EXTRAJUDICIAL), não há se falar em 
contraditório e que a presença do advogado durante a lavratura do flagrante (prevista na Constituição) 
tem outros objetivos, como instruir o flagranciado, conferir a elaboração das peças e até mesmo impedir 
abusos. 
 
Irresignado pela advertência, o jovem advogado acionou a OAB cobrando urgentes e 
enérgicas providências contra aquele Delegado que acabara de violar as suas prerrogativas (vide art. 7º 
do Estatuto). No entanto, sua irresignação foi ainda maior ao ouvir do interlocutor que embora o fosse 
lamentável a situação, não se tratava de violação de direitos e prerrogativas, conforme poderia constatar 
no citado artigo do Estatuto da OAB. 
 
Serenados os ânimos, o preso foi encaminhado ao cárcere e Juvenal, de posse da NOTA DE 
CULPA (documento extraído do Auto de Prisão em Flagrante, onde consta a qualificação do preso, a 
tipificação delitiva, a data e o horário da infração), também se retirou daquele ambiente pouco 
acolhedor. 
 
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Nas primeiras horas do dia seguinte, munido da documentação necessária, provas de: 
residência (conta de luz, água, telefone ou equivalente), trabalho (xerox da C.T.P.S. ou declaração do 
empregador), certidão de antecedentes criminais (emitida pelo Cartório Distribuidor), o diligente 
causídico, não obstante a sua carência em relação à prática da advocacia criminal, ingressou com o 
acertado pedido de LIBERDADE PROVISÓRIA (sem pagamento de fiança) junto à Vara Criminal 
para a qual foi distribuído o mencionado flagrante. Aliás, não olvidou da citação do art. 310, do Código 
de Processo Penal, ao fundamentar o seu petitorio, alegando, principalmente, a primariedade penal do 
cliente e o pequeno potencial ofensivo do delito ensejador da prisão. 
 
Diante da posição favorável do Promotor, o MM. Juiz despachou concedendo o benefício, 
ordenando ao seu Cartório a imediata expedição do competente ALVARÁ DE SOLTURA que, 
incontinenti foi remetido ao presídio. 
 
Advertindo o beneficiado, sobre as exigências constantes do termo que assinava, o jovem 
advogado reiteradamente lhe explicou sobre a obrigação de comparecer a todos os atos processuais, sob 
pena de ver revogada a LIBERDADE PROVISÓRIA. 
 
Oferecida e aceita a denúncia, o interrogatório judicial foi designado para 90 (noventa dias) a 
contar do recebimento, o que é totalmente admissível, por se tratar de réu solto. Mais uma vez trêmulo e 
inseguro, Juvenal, após uma breve conversa com o seu constituinte, adentrou à Sala de Audiências 
(desta vez pediu lincença ao Magistrado) e assentou-se à mesa do lado direito do Juiz (gentilmente a 
escrevente da sala pediu-lhe que ficasse à esquerda, pois estava ocupando o lugar do Dr. Promotor). 
 
Pouco antes de iniciar-se o ato judicial, Juvenal procurando quebrar o gelo, apoderou-se da 
pauta e disse ao Magistrado que a testemunha da próxima audiência era sua vizinha nesta cidade e que 
não morava em LINS como estava assinalado. Entre os sorrisos dos presentes o jovem advogado 
descobriu que aquela sigla significava lugar incerto e não sabido! 
 
Terminado o interrogatório pelo Magistrado, foi dada a palavra ao MP e posteriormente ao 
advogado para as reperguntas (atualmente com a modificação do CPP elas são permitidas no 
interrogatório). Tais reperguntas para o réu ou para as testemunhas na instrução devem ser direcionadas 
ao Juiz, no entanto existem Magistrados que dispensam a formalidade. 
 
 No tríduo legal o jovem advogado atento ao prazo ofertou a sua DEFESA PRÉVIA (também 
chamada alegações preliminares), com base no art. 395, do CPP. É bom que se enfatize que a 
apresentação da Defesa Prévia é facultativa, mas nunca é demais ofertá-la (quod abundant non nocet), 
mesmo porque é a oportunidade da defesa apresentar o seu rol de testemunhas. 
 
 De fato, a defensoria não deve adentrar ao mérito nesta fase processual, devendo 
simplesmente utilizar-se dos conhecidos chavões. Porém, se houver alguma nulidade ou vício insanável 
no processo, o momento é oportuno para suscitá-lo. Apesar da inexperiência prática foi a atitude do 
causídico Juvenal, que se restringiu apenas e tão somente a apresentar o rol das testemunhas defensivas. 
 
Durante o contraditório (instrução processual), mais precisamente na colheita da prova oral 
(testemunhas da acusação e da defesa), o advogado para demonstrar dedicação e zelo opinou por fazer 
muitas e desnecessárias reperguntas, o que não deve ser feito em hipótese alguma. Perguntas impróprias 
são prejudiciais ao réu! 
 
Outro erro cometido por Juvenal foi abdicar de uma testemunha de defensiva faltante, pois se 
tratava de presencial e conhecedora dos fatos, portanto, de suma importância à defesa do constituinte. Se 
se tratasse apenas de testemunha referencial, seria diferente. 
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Na fase do art. 499 do CPP (oportunidade do MP ou da Defesa para requerer novas 
diligências) também facultativa, no caso tratado o defensor nada requereu. Por derradeiro, as partes 
apresentaram suas últimas considerações nas chamadas ALEGAÇÕES FINAIS (art. 500 do CPP), 
sobrevindo a sentença, aliás, favorável ao cliente do Dr. Juvenal, vez que acolhida a tese da insuficiência 
probatória,