pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais133 seguidores
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esse ritual feminino. Lizot anota furiosamente. O homem pergunta então se, entre 
nós, as mulheres fazem a mesma coisa: "Sim, faziam, mas há muito tempo. 
Esquecemos tudo". Sentimo-nos empobrecidos. 
Também presenciei os ritos da morte. Foi entre os Karohiteri... Por volta da 
meia-noite, somos despertados pelo canto profundo do xamã, ele tenta medicar 
alguém. Isso dura um momento, depois ele se cala. Então se eleva na noite uma 
grande lamentação, coro trágico de mulheres diante do irremediável: uma criança 
acaba de morrer. Os pais e os avós cantam em volta do pequeno cadáver, encolhido 
nos braços da mãe. A noite toda, a manhã toda, sem um instante de interrupção. No 
dia seguinte, as vozes roucas, arranhadas, são dilacerantes. As outras mulheres do 
grupo se revezam para se associar ao luto, os homens não abandonam as redes. É 
opressivo. Sob o sol, e cantando ao mesmo tempo, o pai prepara a fogueira. Nesse 
meio tempo, a avó dança em volta, com o neto morto na faixa de transportá-lo às 
costas: cinco ou seis passos para a frente, dois ou três para trás. Todas as mulheres se 
reúnem sob o telheiro mortuário, os homens cercam a fogueira, arco e flechas na 
mão. 
Quando o pai coloca o corpo sobre a fogueira, as mulheres irrompem em 
gemidos, todos os homens choram, uma mesma dor nos atravessa. Não se pode 
resistir ao contágio. O pai quebra seu arco e suas flechas e lança-os ao fogo. A 
fumaça libera-se e o xamã precipita-se para forçá-la a ir diretamente ao céu, pois ela 
contém espíritos maléficos. Cerca de cinco horas mais tarde, quando as cinzas 
esfriaram, um parente próximo recolhe minuciosamente num cesto os menores 
fragmentos ósseos que escaparam à combustão. Reduzidos a pó e conservados numa 
cabaça, eles darão ensejo, mais tarde, a uma festa funerária. Na aurora do dia 
seguinte, todos vão até o rio, as mulheres e as crianças para se purificar com cuidado, 
os homens para lavar suas flechas, maculadas pelas emanações funestas da fumaça. 
 
Por volta de 20 de janeiro, pusemo-nos a caminho para uma expedição até a 
Serra Parima. Tem-se primeiro que subir o Orinoco durante cerca de dois dias. Como 
passamos diante do chabuno dos Mahe-kodoteri, vários índios nos ameaçam com 
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gestos e palavras. Lizot mantém-se cuidadosamente no meio do rio, eles seriam bem 
capazes de disparar flechas contra nós. Passagem fácil de uma primeira corredeira. 
Uma grande lontra descansa sobre uma pedra e mergulha sem quase perturbar a 
superfície da água. Com habilidade, cortando cipós com os dentes, nossos 
companheiros constroem o abrigo para a noite. Percebe-se que, se a importação de 
instrumentos metálicos se interrompesse bruscamente, a relação dos índios com o 
ambiente não seria excessivamente afetada por isso: eles retomariam as técnicas de 
sempre (o fogo substituindo o metal). Lizot mata uma grande capivara, mas a 
perdemos, arrastada pela corrente. Esperando que um tronco possa detê-la, 
procuramo-la durante uma hora, em vão. É uma pena, seriam uns cinqüenta quilos de 
carne boa. Nesse local também encontramos uma pedra usada para polir. No dia 
seguinte, outra corredeira se apresenta, mas desta vez não a franqueamos; teremos de 
prosseguir a pé. A montante, o Orinoco já quase deixa de ser navegável. Perdendo 
suas majestosas proporções, ele transforma-se aos poucos numa torrente. Estamos 
muito perto de sua nascente, que foi descoberta não faz muito tempo. 
Terminamos a jornada e passamos a noite no chabuno dos Shui-miweiteri que 
domina a alta barreira rochosa. Ritos de acolhida habituais; oferecemos droga ao 
chefe: rara aqui, ela é imediatamente preparada e consumida. "Fiquem conosco, ele 
insiste, não vão ver os outros. Eles são maus!" Esses bons apóstolos não estão em 
absoluto interessados no nosso bem-estar. Estão preocupados é com os presentes que 
iremos distribuir aos outros grupos: gostariam de ficar com esse maná. Mesmo assim 
nos oferecem um guia. É freqüente um grupo convidar outro para trocas e julgar, no 
último momento, que deu mais do que recebeu. Então, sem a menor cerimônia, eles 
chamam os outros, que estão de partida, de volta e, sob ameaça, obrigam-nos a 
retribuir as dádivas, mas sem devolver as que eles próprios obtiveram dos parceiros. 
A idéia de contrato certamente os faria rir. Sua palavra é algo que jamais pensariam 
em dar. Cabe a nós sair dessa dificuldade. 
Durante a noite, todos são acordados pelos gemidos cada vez mais fortes de uma 
mulher enferma. O diagnóstico é imediato: uma alma do outro mundo se apoderou do 
alter ego animal da mulher, uma lontra. As outras mulheres fazem então a paciente 
andar de um lado a outro, imitando os gritos do animal, para fazê-lo voltar. O 
tratamento é eficaz, pois ao amanhecer ela se levanta saudável de corpo... As 
sociedades, poderíamos dizer, permitem-se apenas as doenças que podem tratar, o 
campo da patologia é mais ou menos controlado. Certamente por isso nossa própria 
civilização, capacitada por sua ciência a descobrir tantos novos remédios, vê-se 
perseguida por tantas doenças. O resultado da corrida entre as duas não é evidente. 
Pior para nós. 
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A Parima não é verdadeiramente uma cadeia com vales. É antes um conjunto 
desordenado de montanhas cônicas ou piramidais, pressionadas umas contra as 
outras, muitas vezes com mais de mil metros de altura e separadas na sua base por 
baixios pantanosos. Os caminhos entre os chabuno da região seguem as cristas dos 
montes: sobe-se, desce-se, torna-se a subir etc. É penoso, mas, pensando bem (e 
sendo bom o estado de saúde), é menos cansativo do que chafurdar na água estagnada 
ou resvalar nos troncos apodrecidos que servem de pontes. Após um trajeto de quatro 
horas, chegamos aos Ihi-rubiteri. Mal paramos ali (apenas o tempo de deixar a ebena 
para sermos bem-vindos na volta), apesar da insistência das pessoas em nos reter 
(sempre a questão dos presentes que serão distribuídos aos outros). Seguimos adiante, 
e pode-se dizer que é um longo caminho. Eu pelo menos o digo. Por fim, felizmente, 
e ao anoitecer, entrada na aldeia dos Matowateri. 
Há compensações. Valeu a pena vir até aqui. Ao penetrarmos no chabuno, nos 
saúdam com urna formidável ovação. Eles reconhecem Lizot. Somos cercados por 
dezenas de homens brandindo arcos e flechas, que gritam e dançam ao nosso redor: 
"Shori! Shori! Cunhado! Cunhado! Toma estas bananas, e estas! Somos amigos! 
Nohi! Amigos!". Quando há cachos demais em nossos braços estendidos, eles os 
tiram e substituem por outros. É a alegria. Aleluia! Hei! Hei! Ainda assim nos deixam 
repousar um pouco. Não por muito tempo, não o suficiente, pelo menos no que me 
diz respeito. Pois me vejo logo puxado, agarrado, transportado por um bando de 
exaltados que gritam juntos coisas incompreensíveis. O que está havendo? 
Em primeiro lugar, está presente no chabuno (por essa razão superpovoado) um 
grupo visitante que nunca viu brancos. Os homens, intimidados de início, 
permanecem atrás dos outros, sem ousar muito nos olhar (as mulheres estão mais 
afastadas, sob o telheiro do chabuno). Mas logo perdem sua reserva, aproximam-se, 
tocam-nos, e a partir de então não há como detê-los. Em segundo lugar, eles se 
interessam muito mais por mim que por Lizot. Por quê? Não posso explicar sem me 
descrever brevemente. Em nossas marchas, andamos com o torso nu, evidentemente, 
vestidos com um pequeno calção e tênis de basquete. Nossas anatomias são 
perceptíveis e, conseqüentemente, o sistema piloso (nada exagerado, convém dizer) 
que adorna meus peitorais. E isso fascina os índios que, sob esse aspecto, não são 
muito diferentes de Lizot. Sou o primeiro bípede peludo que eles vêem. Não 
escondem seu entusiasmo: "A koï! Como é peludo! Wa koi! É um peludo muito 
gozado! Parece um grande tamanduá! Mas é um verdadeiro tamanduá! Já viram algo 
assim?". Custam a crer e não se controlam mais, entram em delírio e insistem 
absolutamente