pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais132 seguidores
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petróleo; no 
flanco das colinas, escavações de minas de diamante; policiais nas estradas, lojas à 
beira dos rios... Harmonia em toda parte. 
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Capítulo 2 
UMA ETNOGRAFIA SELVAGEM
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Uma etnografia selvagem* 
 A propósito dos Yanoama 1 
Proclamemos de saída que nenhuma objeção ou reserva afetará o respeito e a 
simpatia merecidos por este livro sobre o qual dizemos, com prazer e sem reticência, 
que é um grande livro. E reconheçamos também a admiração que Elena Valero, a 
autora quase anônima dessa obra impressionante, cujo relato foi recolhido ao 
gravador pelo afortunado médico italiano Ettore Biocca, suscitará, na alma de todo 
leitor inocente. Tendo dado a cada um o que lhe é devido, passemos à ordem do dia. 
O livro é, pode-se dizer, uma autobiografia que conta vinte e dois anos da vida 
de uma mulher, sem fazer disso o tema exclusivo, embora só isso fosse em si mesmo 
fascinante. Pois, na experiência pessoal de Elena Valero, acha-se misturada, 
englobada, descrita com traços ao mesmo tempo firmes e sutis, a vida social \u2014 
apreendida em sua diferença mais intensa e em sua riqueza mais detalhada \u2014 de uma 
sociedade primitiva: a tribo indígena dos Yanoama, que vive nos confins 
venezuelano-brasileiros, nas montanhas da Serra Parima. O encontro entre Elena e os 
índios aconteceu em 1939, quando ela linha onze anos de idade. Uma flecha 
envenenada no ventre efetuou o primeiro contato, quando um bando de índios em 
guerra atacou sua família, brancos pobres do Brasil em busca de madeiras preciosas 
nessa região então ainda inexplorada. Os pais e os dois irmãos fugiram, Elena foi 
capturada pelos assaltantes, espectadora inconsciente da ruptura mais brutal e mais 
imprevista que se possa imaginar na vida de uma garota que sabia ler e escrever, e 
com a primeira comunhão feita. Os índios a levaram e a adotaram; ela tornou-se 
mulher no meio deles, depois esposa de dois maridos sucessivos, mãe de quatro 
meninos; ao cabo de vinte e dois anos, em 1961, abandonou a tribo e a floresta para 
voltar ao mundo dos brancos. Para E. Valero foram, portanto, vinte e dois anos \u2014 
para nós quase inacreditáveis \u2014 de aprendizagem, sofrida no início com dor e 
lágrimas, depois bem mais descontraída e experimentada inclusive como felicidade, 
da vida selvagem dos índios Yanoama. Assim, pela boca dessa mulher \u2014 que o acaso 
projetou para além de nosso mundo, obrigando-a a integrar, assimilar e interiorizar 
em seu íntimo, e até mesmo em sua dimensão mais familiar, a substância de um 
universo cultural que subsiste a anos-luz do dela \u2014, pela boca de E. Valero falam 
verdadeiramente os índios, pois graças a ela desenha-se aos poucos a figura do 
mundo deles e de seu ser-no-mundo, e isto no modo de um discurso livre, sem 
 
* Publicado originalmente em L\u2019Homme, I, n.9, 1969. 
1
 Ettore Biocca, Yanoama. Récit d'une femme brésilienne enlevée par les Indiens (Paris: Plon, "Terre humaine", 1968). 
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coerção, originado de seu próprio mundo e não do nosso, justaposto ao outro sem 
tocá-lo. 
Em suma: pela primeira vez, sem dúvida \u2014 milagrosamente, quase se poderia 
dizer \u2014, uma cultura primitiva relata-se ela própria, o Neolítico expõe diretamente 
seus prestígios, uma sociedade indígena descreve-se a si mesma de dentro. Pela 
primeira vez, podemos nos introduzir no ovo sem arrombá-lo, sem quebrar a casca: 
ocasião bastante rara e que merece ser celebrada. Como foi isso possível? A resposta 
é evidente: porque E. Valero decidiu um dia interromper sua grande viagem, cujo 
relato jamais teria sido possível de outro modo. Portanto, num certo sentido, o mundo 
indígena, apesar do longo contato que ela teve com ele, expulsou Elena de seu seio, 
permitindo assim nele penetrarmos por intermédio de seu livro. Ora, a partida da 
mulher nos leva a refletir sobre a chegada da garota, sobre essa "aculturação" às 
avessas que suscita a questão: como pôde E. Valero tornar-se tão profundamente 
índia e não obstante deixar de sê-lo? O caso apresenta um duplo interesse, primeiro 
no que se refere a uma personalidade excepcional, a seguir pela luz que projeta 
indiretamente sobre o movimento inverso dos índios em direção ao mundo branco, 
sobre essa repugnante degradação que os cínicos ou os ingênuos não hesitam em 
batizar com o nome de aculturação. A idade da garota deve reter nossa atenção. Sua 
entrada no mundo indígena se fez violentamente, por um rapto. Mas parece-nos que 
ela tinha a idade ideal para ao mesmo tempo assumir esse traumatismo e finalmente 
adaptar-se à nova vida, e para manter em relação a esta uma distância, por menor que 
fosse, um recuo, por mínimo que fosse, que a impediu de tornar-se completamente 
índia e a incitou mais tarde a decidir voltar para seu primeiro mundo, um mundo que 
ela nunca esqueceu totalmente.2 Alguns anos mais jovem, isto é, não tendo ainda 
integrado perfeitamente sua civilização de origem, ela teria certamente efetuado um 
salto radical, teria se tornado uma Yanoama e nunca mais teria pensado no seu lugar 
de origem. 
E. Valero não é o único caso de criança branca raptada pelos índios. Mas, quase 
sempre, elas desaparecem definitivamente. A razão é simples: trata-se de crianças 
muito jovens, que em pouco tempo morrem ou, mais provavelmente, perdem toda 
memória de seu lugar de origem. Para nossa sorte, a particularidade de Elena é que, 
aos onze anos, ela já era, e irreversivelmente, uma branca, uma pessoa do Ocidente. 
Percebe-se claramente por seu relato que, depois de vinte e dois anos, ela nem sequer 
 
2 Aqui se observa, a nosso ver, a diferença entre um documento como Yanoamae as autobiografias de indígenas recolhidas em outras 
partes do mundo, na América do Norte em particular. Um informante, por maior que seja seu talento e mais fiel sua memória, 
permanece muito preso a seu mundo, muito próximo dele ou, ao contrário, muito separado, pois seu mundo foi destruído pelo contato 
com nossa civilização. No limite, portanto, ou impossibilidade de falar, ou discurso mortal. Eis por que um índio jamais poderia ter 
escrito Yanoama, e por que esse livro é único. 
 
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esqueceu completamente de falar seu português natal, que ainda compreendia bem. E 
notemos que, muitos anos após sua captura, podia ainda recitar o Pai-Nosso e a Ave-
Maria se estivesse em situação crítica. Com mais idade, por outro lado \u2014 isto é, 
quase adulta (para uma moça) \u2014, talvez não tivesse suportado tão bem o choque nem 
manifestado essa espantosa vontade de viver que E. Valero testemunha, que lhe 
permitiu sair sã e salva de dificuldades que mal conseguimos imaginar. Ainda 
impúbere, ela fugiu do chabuno de seus hospedeiros e viveu sete meses sozinha na 
floresta, sem fogo; aliás, ela tentou, em vão, obtê-lo segundo o método dos índios, 
por fricção. Conseqüentemente, sua idade e sua personalidade seguramente lhe 
facilitaram a tarefa. E não esqueçamos sobretudo que se trata de uma mulher, isto é, 
de um ser muito menos vulnerável que um homem: quer dizer, para um garoto 
capturado na mesma idade que ela, o trabalho de instruir-se sobre o mundo indígena 
provavelmente não teria sido tão fácil. Pouco tempo depois de sua captura, Elena 
encontrou um garoto brasileiro de sua idade, também raptado havia pouco tempo. 
Nunca mais teve notícias dele. Uma mulher raptada é um bem a mais para a 
comunidade, uma dádiva gratuita, um ganho inesperado, enquanto um homem é um 
tomador de mulher que nada daria em troca; o grupo não teria, em princípio, nada a 
ganhar deixando-o viver. 
Ao longo do livro, vê-se que E. Valero estava tanto diante do mundo indígena 
quanto dentro dele: percebe-se nela um gosto evidente pela observação, uma 
capacidade de surpresa, uma tendência a questionar e a comparar. Esses dons 
propriamente etnográficos, Elena pôde exercê-los precisamente porque não