pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais132 seguidores
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MacCurdy e os Cook. Antes da partida, foram 
aconselhados a cobrir-se bem, mas vários dos senhores preferiram ficar de shorts. 
Eles dão-se palmadas nas pernas e coçam os grossos joelhos rosados que os 
mosquitos logo perceberam. Mas e daí! Afinal não se vai passar a vida toda nos 
hotéis climatizados; de vez em quando é preciso viver duramente e conhecer a 
natureza. 
\u2014 Tornaremos a partir dentro de duas horas... e cuidado com os escalpos! 
É talvez o décimo contingente de turistas que ele conduz à aldeia indígena. Para 
ele é rotina. Por que renovar seus ditos espirituosos? São sempre acolhidos com 
benevolência. Mas para essa gente é muito diferente. Eles pagaram uma quantia 
bastante elevada para ir ver os selvagens. E recebem em troca de seu dinheiro esse sol 
que não perdoa, os cheiros misturados do rio e da floresta, os insetos, todo esse 
mundo estranho que estão bravamente dispostos a conquistar. 
\u2014 Com essa luz? Acho que vou começar por... 
A alguma distância, avistam-se os domos das quatro ou cinco grandes casas 
coletivas. Movimento das câmeras, estalidos dos aparelhos: o cerco começa. 
\u2014 Eu tinha muita vontade de ver esses negros! Seus ritos são tão curiosos! 
\u2014... Não mais de dez dólares - eu disse a ela. No final, ela concordou. 
\u2014 Eles são muito atrasados. Mas bem mais simpáticos que os nossos, não acha? 
\u2014 ... depois, quando vi que o mesmo preço incluía uma visita às Bahamas, então 
eu disse à minha mulher: está decidido, vamos até lá. 
 
O pequeno grupo avança lentamente por um caminho margeado de árvores de 
urucum. O sr. Brown explica que os índios pintam-se com o suco vermelho dos frutos 
quando partem em guerra. 
\u2014 Eu li num livro, não lembro mais sobre qual tribo. Mas isso não tem 
importância, são todas parecidas. 
Tamanha erudição suscita respeito. 
 
* Publicado originalmente em Les Temps Moderns, n. 299-300, jun.-jul. 1971. 
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\u2014 Os Prescott? São uns idiotas, simplesmente. Disseram que estavam cansados. 
Na realidade, vou lhes dizer, estavam com medo! Sim, medo dos índios. 
O caminho atravessa um grande pomar. O sr. Murdock observa as bananeiras, 
ele bem que gostaria de pegar uma fruta, mas é um pouco alto, teria que saltar. 
Hesitante, ele tira por um instante o chapéu e enxuga seu crânio calvo. 
\u2014 Você, pelo menos, não corre o menor risco de escalpo! 
Ele renuncia à banana. Todos estão de bom humor. Eis que chegam ao final do 
caminho, entre duas enormes cabanas. Param por um momento, como num limiar. A 
praça oval está deserta, limpa, inquietante. Parece uma cidade morta. 
\u2014 É aí que eles fazem suas danças, durante a noite. 
No centro, um mastro ornado de losangos pretos e brancos. Um cachorro 
magérrimo rega sua base, late debilmente e se afasta em passos miúdos e apressados. 
\u2014 E aposto que ali é o poste de tortura! 
O sr. Brown não tem muita certeza, mas é o especialista. Murmúrios, fotos, 
deliciosos estremecimentos. 
\u2014 Você acha que os ensinam a falar? 
Amarelos e verdes, vermelhos e azuis, os papagaios e as grandes araras fazem a 
sesta, empoleirados no alto dos telhados. 
\u2014 Bem que eles podiam dizer alguma coisa, não custava nada eles aparecerem 
para nos receber, poxa! 
Isso acaba se tornando perturbador, esse peso de silêncio e luz. Felizmente, os 
habitantes começam a emergir por minúsculas aberturas, mulheres com seios nus, 
crianças agarradas a suas saias, homens que olham os estrangeiros das pernas para 
baixo e lançam preguiçosamente pedaços de ossos aos cachorros. Conversas 
imprecisas se iniciam, as senhoras querem acariciar a cabeça das crianças, que 
escapam, um homem jovem com sorriso aberto repete sem parar: "OK! Good 
morning! OK!". O sr. Poage está encantado. 
\u2014 E então, meu jovem, tudo bem? 
Ele dá um tapinha nas costas do poliglota. Em suma, rompeu-se o gelo, estão 
entre os selvagens, nem todo mundo pode dizer o mesmo. Claro que não é 
exatamente o que se esperava, mas ainda assim... Os índios estão ali, arcos e flechas 
apóiam-se contra as paredes de palma das casas. 
Agora se dispersam, cada um para o seu lado. Visivelmente, não há nada a temer 
e, em relação às fotos e ao resto, é preferível que não fiquem amontoados, que não 
dêem a impressão de se preparar para a guerra. 
Decidido, o sr. Brown, seguido pela esposa, dirige-se ao índio mais próximo. 
Metodicamente, ele fará a visita completa da aldeia. Duas horas para conhecer a tribo, 
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não é tempo demais. Mãos à obra. O homem está sentado à sombra num banquinho 
de madeira em forma de animal. De vez em quando, leva à boca um tubo de terra-
cota; fuma seu cachimbo sem deslocar o olhar, que parece nada ver. Não se mexe 
nem mesmo quando o sr. Brown se planta à sua frente. Sua cabeleira negra cobre 
livremente os ombros, sem ocultar as orelhas que exibem um grande furo. 
No momento de passar à ação, alguma coisa detém o sr. Brown. Que vou dizer a 
ele? Afinal, não vou chamá-lo de senhor. E, se tratá-lo por tu, pode ficar zangado e 
criar dificuldades. 
\u2014 O que você acha? Como se dirigiria a esse... a esse homem? 
\u2014 Não diga nada, simplesmente! De todo modo, ele certamente não 
compreenderia. 
Ele avança e enuncia, entre injunção e pedido: 
\u2014 Foto. 
Os olhos do índio sobem dos pés até os joelhos do sr. Brown. 
\u2014 Um peso. 
Bom, ao menos ele sabe o que é o dinheiro. Era de se esperar... Enfim, não é 
caro. 
\u2014 Sim, mas é preciso retirar essa roupa! Foto, mas não com essa roupa! 
O sr. Brown faz o gesto de baixar as calças ao longo das pernas, ensina a 
desabotoar a camisa. Despe o selvagem, desembaraça-o de suas velhas roupas 
imundas. 
\u2014 Eu tirando roupas, cinco pesos. 
Santo Deus, não é possível estar interessado a tal ponto. Ele exagera, para uma 
foto ou duas. A sra. Brown começa a impacientar-se. 
\u2014 Como é? Vai tirar essa foto? 
\u2014 Mas veja bem, ele inventa histórias a cada vez. 
\u2014 Mude de índio. 
\u2014 Será a mesma coisa com os outros. 
O homem prossegue sentado, indiferente, fumando tranqüilamente. 
\u2014 Tudo bem. Cinco pesos. 
O índio desaparece alguns instantes no interior e volta a sair, inteiramente nu, 
atlético, calmo e livre em seu corpo. Rápidas nostalgias passam pela mente do sr. 
Brown e, em torno do sexo, a sra. Brown deixa vagar um olhar. 
\u2014 Você acha realmente que... 
\u2014 Ah! Não me complique as coisas! Esse está bom. 
Clique, clique... Cinco fotos, sob ângulos diferentes. Pronto para a sexta. 
\u2014 Acabou. 
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Sem elevar a voz, o homem deu uma ordem. O sr. Brown não ousa desobedecer. 
Ele se despreza, se detesta... Eu, homem branco civilizado, convencido da igualdade 
das raças, cheio de sentimentos fraternos em relação aos que não têm a sorte de ser 
brancos, cedo à primeira palavra de um miserável que vive nu, quando não está 
vestido de andrajos fedorentos. Ele exige cinco pesos, e eu poderia dar-lhe cinco mil. 
Não possui nada, vale menos que nada e, quando diz "acabou", eu paro. Por quê? 
\u2014 Por que diabos ele age assim? Que pode significar para ele uma foto ou duas 
a mais? 
\u2014 Você escolheu uma vedete que se faz pagar caro. 
O sr. Brown não está em condições de apreciar o humor. 
\u2014 Afinal! O que ele vai fazer com o dinheiro? Essa gente vive de nada, como 
animais! 
\u2014 Talvez ele queira comprar uma máquina fotográfica. 
O índio examina longamente a velha nota de cinco pesos, depois vai guardá-la 
na casa. Senta-se e retoma seu cachimbo. É realmente irritante, ele não nos dá a 
menor atenção, estamos aqui e é como se não estivéssemos... Ódio: eis o que começa 
a sentir o sr. Brown diante desse bloco de inércia. Mas e toda essa viagem, as 
despesas extras? Impossível manter uma atitude digna e não humilhar esse selvagem 
mandando-o aos infernos! O sr. Brown não quer ter vindo por nada. 
\u2014 E as plumas? Não tem plumas? 
Ele faz com grandes gestos o índio enfeitado, com ornamentos na cabeça, 
munido de longas