pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais133 seguidores
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honrados com rituais cujas circunstâncias serão determinadas. Nisso se revela que, 
longe de poderem ser assimilados aos mortos, os antepassados e seu gesto mítico são 
pensados como a vida mesma da sociedade. 
Completamente diferente é a relação com os mortos. Eles são, em primeiro 
lugar, os contemporâneos dos vivos, aqueles que a idade ou a doença arrancam da 
comunidade, parentes e aliados dos sobreviventes. Ora, se a morte abole o corpo, ela 
faz ao mesmo tempo advir ao ser, à existência autônoma, aquilo que, na falta de 
termo mais apropriado, chama-se a alma. Segundo as crenças particulares a cada 
cultura considerada, o número de almas da pessoa pode variar: ora uma só, ora duas, 
às vezes mais. Mas mesmo quando são mais de uma, uma delas torna-se o fantasma 
do defunto, uma espécie de mor-to-vivo. De fato, os ritos funerários propriamente 
ditos, enquanto se referem ao corpo morto, são essencialmente destinados a afastar 
definitivamente dos vivos as almas dos mortos: a morte libera com ela um fluxo de 
forças más, agressivas, contra as quais os vivos devem se proteger. Pois as almas não 
querem deixar as imediações da aldeia ou do acampamento, elas vagueiam, sobretudo 
à noite, na proximidade dos parentes e amigos para os quais são fontes de perigo, de 
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doença, de morte. Assim, enquanto os antepassados, como fundadores míticos da 
sociedade, estão marcados com um sinal positivo e por essa razão se acham próximos 
da comunidade de seus "descendentes", os mortos, como destruidores potenciais 
dessa mesma sociedade, estão marcados com um sinal negativo, e a seu respeito os 
vivos se perguntam: como livrar-se deles? 
Segue-se, portanto, que não se pode falar de culto dos mortos entre os povos da 
América do Sul: longe de pensar em celebrá-los, eles se ocupam bem mais em apagá-
los da memória. Por isso cerimônias como a "festa das almas dos mortos" dos 
Shipaya, ou então os ritos aos quais os Bororo convocam os mortos (aroe), parecem 
decorrer antes da vontade de obter a benevolência dos antigos mortos, isto é, os 
antepassados, que do desejo de celebrar os mortos recentes: com os antepassados, a 
comunidade dos vivos busca concluir e reforçar a aliança que garante sua 
sobrevivência; contra os mortos, ela faz funcionar os mecanismos de defesa que a 
protegerão de seus ataques. 
Que se faz com os mortos? Eles são, geralmente, enterrados. Quase em toda 
parte, na área em questão, o túmulo é um buraco cilíndrico às vezes recoberto de um 
pequeno teto de palmas. O corpo é na maioria das vezes depositado em posição fetal, 
rosto voltado na direção da suposta morada das almas. A ausência quase total de 
cemitérios deve-se não aos deslocamentos periódicos das aldeias quando as 
plantações tornam-se improdutivas, mas sim à relação de exclusão que separa os 
vivos dos mortos. Com efeito, o cemitério é um espaço fixo reservado aos mortos, a 
quem se pode portanto visitar e que, dessa maneira, são mantidos na permanência e 
na proximidade em relação ao espaço dos vivos. Ora, a preocupação maior dos índios 
é abolir até mesmo a lembrança dos mortos: como se lhes reservaria então um espaço 
privilegiado, um cemitério? A vontade de ruptura com eles leva assim numerosas 
sociedades a abandonar simplesmente a aldeia quando ocorre um falecimento, a fim 
de criar a maior distância possível entre o túmulo do morto e o espaço dos vivos. 
Todos os bens do morto são queimados ou destruídos, um tabu é lançado sobre seu 
nome que daí por diante não mais se pronunciará. Em suma, o morto é 
completamente anulado. 
Que os mortos possam, até a angústia, atormentar os vivos, não implica de modo 
algum ausência de emoção entre estes últimos: as manifestações do luto (crânio 
raspado para as mulheres, por exemplo, pinturas pretas, proibições sexuais ou 
alimentares etc.) não são somente sociais, pois a dor expressa não é fingida. A 
inumação do morto, por outro lado, não é feita às pressas e sem cuidado, ela se faz 
segundo as regras. Assim, num certo número de sociedades, o ritual funerário 
desenrola-se em dois tempos. Um ciclo cerimonial muito complexo acompanha, entre 
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os Bororo, o enterro do morto: caça ritual, danças (entre outras a dança dita do 
mariddo, executada pelos homens que portam na cabeça um enorme rolo de 
folhagem), cantos se sucedem durante cerca de quinze dias. O esqueleto, 
desembaraçado das carnes, é então exumado, pintado de urucum e ornado de plumas. 
Colocado num cesto, é finalmente conduzido em cortejo ao rio vizinho onde é 
lançado. Os antigos Tupi-Guarani inumavam geralmente seus mortos em grandes 
urnas funerárias enterradas no solo. Como os Bororo, eles procediam, no caso de 
chefes ou de xamãs famosos, a uma exumação do esqueleto, o qual, quando se tratava 
de um grande xamã, era objeto de um culto entre os Guarani. Estes últimos mantêm 
ainda, no Paraguai, o costume de conservar às vezes o esqueleto de uma criança: 
invocado em certas circunstâncias, ele assegura a mediação com os deuses e permite 
assim a comunicação entre humanos e divinos. 
CANIBALISMO 
Algumas sociedades, porém, não enterram seus mortos: elas os comem. Esse 
tipo de antropofagia deve ser distinguido do tratamento, bem mais difundido, 
reservado por várias tribos a seus prisioneiros de guerra, corno os Tupi-Guarani ou os 
Karib que executavam e consumiam ritualmente seus cativos. Chama-se 
endocanibalismo o ato de comer o corpo de seus próprios mortos e não o do inimigo. 
Ele pode assumir várias feições. Os Yanomami da Amazônia venezuelana queimam o 
cadáver numa fogueira; recolhem os fragmentos ósseos que escaparam combustão e 
os reduzem a pó. Este será mais tarde consumido, misturado ao purê de bananas, 
pelos parentes do morto. Inversamente, os Guayaki do Paraguai assam numa grelha 
de madeira o cadáver retalhado. A carne, acompanhada de miolo de pindoba, é 
consumida por toda a tribo, com exclusão da família do morto. Quanto aos ossos, eles 
são quebrados e queimados ou abandonados. O efeito aparente do endocanibalismo é 
uma integração total dos mortos aos vivos, já que uns absorvem os outros. Poder-se-
ia portanto pensar que esse ritual funerário opõe-se absolutamente à atitude habitual 
dos índios que buscam, ao contrário, aprofundar ao máximo a distância que os separa 
dos mortos. Mas é só aparência. O endocanibalismo, na realidade, leva ao extremo a 
separação dos vivos e dos mortos, no sentido de que os primeiros, ao comer os 
segundos, chegam mesmo a privá-los dessa última fixação no espaço que seria um 
túmulo: não subsiste mais nenhuma possibilidade de contato entre uns e outros, e o 
endocanibalismo cumpre da maneira mais radical a missão que se atribuem os ritos 
funerários. 
Vê-se assim o quanto é errônea a confusão entre culto dos antepassados e culto 
dos mortos. Não apenas não existe, nas tribos sul-americanas, nenhum culto dos 
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mortos, já que estes são destinados ao esquecimento definitivo, como também, por 
outro lado, o pensamento indígena tende a marcar tanto positivamente sua relação 
com o mundo dos antepassados míticos quanto negativamente sua relação com o 
mundo dos mortos reais. A sociedade busca, com os an-tepassados-fundadores, a 
conjunção, a aliança e a inclusão, ao passo que a comunidade dos vivos mantém a dos 
mortos na disjunção, na ruptura, na exclusão. Disso resulta que todo acontecimento 
suscetível de transformar a pessoa viva remete logicamente à transformação suprema, 
a morte como divisão da pessoa num cadáver e num fantasma hostil. A doença, como 
risco de morte, diz respeito não apenas ao destino individual da pessoa mas também 
ao futuro da comunidade. Eis por que o empreendimento terapêutico visa, para além 
da cura do doente, a proteção da sociedade, e também por isso o ato médico, pela 
teoria da doença que ele implica e põe em ação, é uma prática essencialmente 
religiosa. 
XAMANISMO E DOENÇA 
Enquanto médico, o