pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais133 seguidores
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que se estende do século XIII até a chegada dos espanhóis, é naturalmente mais bem 
conhecido: não só pela grande abundância de documentos arqueológicos, mas 
também pelas descrições dos cronistas e pelos inquéritos dos missionários que 
empreenderam extirpar sistematicamente as idolatrias a fim de cristianizar os índios. 
A fundação e a expansão do império inca modificaram, como era de esperar, a 
face religiosa dos Andes sem alterá-la em profundidade. Com efeito, o imperialismo 
político dos Incas era ao mesmo tempo cultural e particularmente religioso, já que os 
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povos submetidos deviam não apenas reconhecer a autoridade do imperador mas 
admitir a religião dos vencedores. De outro lado, porém, os Incas pouco buscaram 
substituir por seu próprio conjunto de crenças o das populações integradas ao 
império: não empreenderam nenhuma extirpação dos cultos e ritos locais. Por isso 
encontram-se nos Andes desse período dois grandes sistemas religiosos: o dos Incas 
propriamente ditos, cuja difusão ia de par com a expansão política, e o das religiões 
locais, em vigor bem antes do aparecimento do Estado inca. 
A RELIGIÃO POPULAR 
Ela exprime nitidamente a relação com o mundo dos índios andinos: é uma 
religião essencialmente de camponeses, uma religião agrária, quer se trate dos 
habitantes do litoral ou do planalto. Conciliar as forças que, presidindo à repetição 
regular do ciclo sazonal, asseguravam a abundância das colheitas e a fecundidade dos 
rebanhos de lhamas, tal era a preocupação principal dos índios andinos. E é 
certamente por isso que, para além de particularidades locais, pode-se falar de cultos 
e crenças pan-andinos, englobando o litoral e o planalto, ou os Quichua e os Aymara 
e os Mochica. 
Os deuses 
São elevados à condição de poderes divinos os elementos naturais que regulam a 
vida cotidiana desses povos camponeses: o Sol e a Lua, com freqüência pensados 
como irmão e irmã ao mesmo tempo que esposos; as estrelas do anoitecer e do 
amanhecer; o arco-íris; a Pacha-Mama, Terra-Mãe etc. Todas essas figuras divinas 
eram objeto de cultos e de imponentes cerimônias, como se verá adiante. A planta 
essencial da agricultura andina, o milho, é representada por numerosas imagens de 
espigas de ouro, prata ou pedra: são as sara-mama, mães do milho, das quais se 
espera abundância de colheita. Honram-se essas divindades com oferendas, libações 
(bebidas feitas de milho fermentado) ou sacrifícios: imolações de lhamas, em 
particular, com cujo sangue se aspergiam os campos de milho e se untava o rosto dos 
participantes do ritual. 
Os cultos dos antepassados e dos mortos 
Eles mostram toda a distância que separa as tribos "selvagens" dos povos 
andinos. Entre as primeiras, como foi visto, os antepassados não são os mortos 
contemporâneos dos vivos, mas os fundadores míticos da sociedade. Nos Andes, ao 
contrário, a vida sócio-religiosa da comunidade se apoiava em grande parte no culto 
dos antepassados e dos mortos ao mesmo tempo; estes eram os descendentes 
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daqueles, e o pensamento andino, contrariamente ao pensamento amazônico, esforça-
se por marcar a continuidade entre mundo dos vivos e mundo dos mortos: 
continuidade da comunidade camponesa que ocupa a mesma terra sob a proteção de 
seus deuses e de seus mortos. O antepassado mítico fundador era freqüentemente 
representado por uma rocha, markayok, venerada da mesma forma que o lugar, 
pakarina, por onde o antepassado havia surgido do mundo subterrâneo. Cada 
comunidade ou ayllu tinha assim seu antepassado e prestava-lhe um culto: markayok 
e pakarina, testemunhando a permanência e a identidade da ayllu ao longo do tempo, 
fundavam a solidariedade das famílias que compunham a comunidade. 
Enquanto os ritos funerários dos índios da floresta tendem sobretudo a abolir os 
mortos para lançá-los no esquecimento, os índios andinos, ao contrário, depositavam-
nos em verdadeiros cemitérios: os túmulos eram reunidos e protegidos em cavernas, 
ou em espécies de jazigos construídos em forma de torre, ou em aberturas feitas em 
falésias. Eles continuavam a participar da vida coletiva, pois os parentes vinham 
visitá-los para consultas, oferendas regulares mantinham sua benevolência, sacrifícios 
eram-lhes oferecidos. Portanto, longe de esquecer seus mortos, os índios dos Andes 
faziam o possível para que os mortos não esquecessem os vivos e zelassem por sua 
prosperidade: relação de aliança e inclusão, e não de exclusão e hostilidade como na 
floresta. Por isso, dizem os padres espanhóis encarregados de extirpar as idolatrias, os 
mortos reais \u2014 sob a forma de esqueletos ou de múmias (malqui) \u2014 eram, como os 
mortos míticos, objetos de culto e veneração: em algumas circunstâncias cerimoniais, 
eram ornados de plumas e tecidos preciosos. 
As guaca 
E o nome que os índios davam a todo ser ou objeto natural supostamente 
continha um poder sobrenatural. As pedras sagradas que representavam os 
antepassados eram guaca, assim como os mortos mu-mificados. Mas o eram também 
os ídolos ou os lugares onde estes se achavam, uma montanha ou uma planta, uma 
fonte ou uma gruta, um recém-nascido com uma malformação ou um templo, uma 
constelação ou um túmulo. Num trajeto, os lugares privilegiados, como um 
desfiladeiro na montanha ou um ponto de parada no caminho, eram marcados com 
montes de pedras, apachita, que os viajantes consideravam também como guaca: eles 
punham ali sua própria pedra e ofereciam em sacrifício um bocado de coca. O espaço 
era assim inteiramente marcado de sobrenatural e o sistema das guaca constituía uma 
espécie de codificação sagrada do mundo. 
Ao conjunto das guaca não pertenciam apenas os pontos de junção entre 
extensão espacial e esfera do sagrado, mas também objetos, estatuetas, amuletos que 
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representavam as forças tutelares de cada família. São as conopa, que podem ser 
tanto pedras de forma ou de cor estranhas quanto estatuetas talhadas ou moldadas em 
forma de lhama ou de espiga de milho. As conopa de família tinham um lugar nas 
casas, a fim de proteger seus habitantes contra doenças, ou então eram enterradas nos 
campos para garantir sua fecundidade. As conopa comunitárias (das ayllu) eram, em 
certos momentos do ano, tiradas dos esconderijos onde ficavam: a elas faziam-se 
homenagens, ofereciam-se sacrifícios de lhamas ou de coca e dirigiam-se preces. 
Havia, em cada comunidade, pelo menos um médico ou xamã. Era geralmente 
designado pelo deus Trovão, que o marcava com o raio. Além de suas funções 
terapêuticas, tinha o ofício de adivinho. Mas, diferentemente das tribos florestais, o 
xamanismo não era nos Andes o centro da vida religiosa. Esta desenvolvia-se num 
conjunto de práticas rituais que pediam aos deuses, aos antepassados, aos mortos, a 
todas as forças ditas guaca, para assegurar o bem-estar das ayllu garantindo a 
prosperidade da Terra-Mãe. Religião eminentemente agrária, que traduz o profundo 
envolvimento do camponês com sua terra, pela qual os divinos têm a missão de velar. 
A RELIGIÃO DOS INCAS 
Por sua origem e sua substância, ela não difere profundamente da religião dita 
popular. Por volta do século XIII de nossa era, os Incas são uma pequena tribo da 
região de Cuzco. Agricultores e pastores, sua vida religiosa e ritual enraíza-se, a 
exemplo de todas as comunidades camponesas do litoral e do planalto, num desejo de 
repetição da ordem cósmica, de retorno eterno do mesmo, e na esperança de que, 
graças aos ritos que os celebram e aos sacrifícios que lhes são oferecidos, os poderes 
divinos, os antepassados e os mortos garantirão aos humanos a fecundidade da terra e 
a permanência da sociedade. Por razões ainda misteriosas, a tribo dos Tncas inaugura 
no século XII uma marcha conquistadora que somente terá fim com a chegada dos 
espanhóis. Durante esse período relativamente breve, os Incas aumentaram 
desmedidamente as fronteiras de seu