pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais132 seguidores
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e práticas religiosas dos povos sul-americanos. 
Nesse quadro, a religiosidade das sociedades florestais revela-se ao mesmo tempo 
extrovertida e coletiva: ela é cantada, dançada, manifestada em ação; se o sagrado, 
dizíamos, atravessa o social de ponta a ponta, inversamente o social penetra 
totalmente o religioso. Dizer que o "sentimento" religioso existe principalmente em 
sua expressão pública não põe em causa de modo algum a intensidade da adesão 
individual. Como todos os povos primitivos, os índios da América do Sul mostraram, 
e mostram ainda, uma firmeza exemplar na fidelidade a seus mitos e a seus ritos. 
Ainda assim é verdade que a "equação pessoal" do fato religioso se apaga 
amplamente em benefício de seu componente coletivo, o que explica a enorme 
importância da prática ritual. Com isso, as exceções a essa situação geral ganham 
ainda mais relevo. De fato, diversos pesquisadores recolheram, na segunda metade do 
século XIX, entre as populações (hoje extintas) estabelecidas ao longo do curso 
inferior e médio do Amazonas, um conjunto de textos muito diferente do corpus 
"clássico" de mitos. A inquietude religiosa e mesmo mística que neles se manifesta, 
sugere nessas sociedades a existência, não mais de narradores de mitos, mas de 
filósofos ou de pensadores entregues a um trabalho de reflexão pessoal, em forte 
contraste com a exuberância ritual das outras sociedades florestais. Essa 
particularidade rara, repetimos, na América do Sul, desenvolveu-se a um ponto 
extremo entre os Tupi-Guarani. 
O termo reúne um número considerável de tribos de mesma filiação lingüística e 
de grande homogeneidade cultural. Essas populações ocupavam um território muito 
vasto: ao sul, os Guarani estendiam-se do rio Paraguai, a oeste, até o litoral atlântico, 
a leste; quanto aos Tupi, eles povoavam esse mesmo litoral até a foz do Amazonas, 
ao norte, e penetravam no interior do país numa profundidade imprecisa. Esses índios 
contavam-se em vários milhões. Do ponto de vista da vida econômica e da 
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organização social, os Tupi-Guarani conformavam-se ao modelo em vigor em toda a 
área florestal: agricultura com queimadas, caça, pesca; aldeias constituídas de várias 
grandes casas coletivas. Um fato notável entre esses índios: sua densidade 
demográfica era nitidamente mais elevada que a das populações vizinhas, as 
comunidades podiam reunir até dois mil indivíduos ou mais. Embora todas essas 
tribos tenham há muito desaparecido, com exceção de uns cinco mil Guarani que 
sobrevivem no Paraguai, elas figuram entre as mais bem conhecidas do continente 
sul-americano. De fato, foi com os Tupi do litoral que se estabeleceram os primeiros 
contatos entre europeus e índios na aurora do século XVI. Viajantes e missionários de 
diversas nacionalidades deixaram sobre esses povos uma abundante literatura, rica 
em observações de todo tipo, particularmente no que se refere às crenças e aos 
costumes. 
Como em todas as sociedades primitivas do continente, a vida religiosa dos 
Tupi-Guarani centrava-se no xamanismo. Os pajés, xamãs-médicos, cumpriam as 
mesmas tarefas que noutras partes, e a vida ritual se efetuava, quaisquer que fossem 
as circunstâncias (iniciação, execução de um prisioneiro de guerra, enterros etc), 
sempre em referência às normas que o tempo todo asseguravam a coesão social, 
normas e regras de vida impostas aos homens pelos heróis culturais (Maíra, Monan, 
Sol, Lua etc.) ou os antepassados míticos. Até aí, portanto, os Tupi-Guarani não 
diferem em nada das outras sociedades florestais. No entanto, as crônicas dos 
viajantes franceses, portugueses e espanhóis testemunham uma diferença tão 
considerável que ela confere aos Tupi-Guarani uma posição absolutamente original 
no horizonte dos selvagens sul-americanos. Com efeito, os recém-chegados 
depararam com fenômenos religiosos de uma dimensão e de uma natureza tais que 
eram rigorosamente incompreensíveis para os europeus. 
Que fenômenos eram esses? Além das guerras incessantes que opunham as 
diversas tribos umas às outras, essa sociedade era agitada em profundidade por um 
forte movimento de origem e intenção propriamente religiosas. Claro que os europeus 
puderam ver nisso apenas a manifestação paga do demônio e, nos artífices desse 
movimento, os sequazes de Satanás. É o estranho fenômeno do profetismo tupi-
guarani, que deu motivo a numerosos erros de avaliação. Até uma data recente, ele 
era interpretado como um messianismo, como a resposta, comum entre muitos povos 
primitivos, a uma situação de grave crise consecutiva ao contato com a civilização 
ocidental. Um messianismo é assim uma reação a um choque cultural. Mas reduzir o 
profetismo tupi-guarani ao campo do messianismo seria desconhecer sua natureza 
radicalmente diferente, pela simples e irrevogável razão de que ele se originou entre 
esses índios bem antes da chegada dos brancos, talvez por volta de meados do século 
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XV. Trata-se portanto de um fenômeno autóctone, que nada deve ao contato com o 
Ocidente, e que não estava, por isso mesmo, de modo algum orientado contra os 
brancos; trata-se claramente de um profetismo selvagem, do qual a etnologia não 
assinalou nenhum equivalente noutros lugares. 
OS PROFETAS 
Com poucas condições de compreender esse fenômeno, os primeiros cronistas 
souberam no entanto não confundir com os xamãs alguns personagens enigmáticos 
que haviam surgido da sociedade, os karai. Com efeito, estes nada tinham a ver com 
a prática terapêutica, que cabia somente aos pajés. Tampouco cumpriam uma função 
ritual especializada, não eram nem os ministros de um culto tradicional nem os 
fundadores de um culto novo. Nem xamãs nem sacerdotes, que eram então os karai? 
Esses homens situavam-se, total e exclusivamente, no campo da fala, falar era sua 
única atividade: homens do discurso (cujo conteúdo se determinará a seguir), que se 
diziam confiados a proferir em todos os lugares. Em todo lugar, de fato, e não apenas 
no seio de sua própria comunidade. Os karai deslocavam-se incessantemente, indo de 
aldeia em aldeia discursar aos índios atentos. Essa vocação de nomadismo dos 
profetas é tanto mais surpreendente quanto os grupos locais, às vezes reunidos em 
federações de várias aldeias, guerreavam-se sem piedade. Ora, os karai podiam 
circular impunemente de um campo a outro; não corriam risco algum e, pelo 
contrário, eram acolhidos em toda parte com fervor, as pessoas chegavam a cobrir de 
folhas os caminhos de acesso à aldeia e a correr ao encontro deles para conduzi-los 
em cortejo: de onde quer que viessem, os karai nunca eram considerados inimigos. 
Como isso era possível? Na sociedade primitiva, o indivíduo se define 
primeiramente por sua pertença a um grupo de parentesco e a uma comunidade local. 
Portanto, uma pessoa se acha de saída inscrita numa cadeia genealógica de parentes e 
numa rede de aliados. Entre os Tupi-Guarani, sendo a descendência patrilinear, 
pertencia-se à linhagem do pai. No entanto, eis o discurso muito estranho que 
proferiam a respeito de si mesmos os karai: eles afirmavam não ter pai, mas ser 
filhos de uma mulher e de uma divindade. Trata-se aqui de deter-se menos na fantasia 
megalômana que fazia os profetas autodivinizarem-se, do que na denegação e na 
recusa do pai. Com efeito, enunciar a ausência do pai equivalia imediatamente a 
afirmar sua não-pertença a uma linhagem de parentes e, por conseguinte, à própria 
sociedade. Por ser enunciado nesse tipo de sociedade, tal discurso adquire uma carga 
subversiva incomparável, pois nega o arcabouço mesmo da sociedade primitiva, o 
que até recentemente era chamado de laços de sangue. 
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Percebe-se facilmente que o nomadismo dos karai resultava não de seu capricho 
ou de um gosto excessivo pelas viagens, mas sim do fato de não pertencerem a 
nenhuma comunidade. Eles não pertenciam, literalmente, a parte alguma e não 
podiam, por definição,