pierre clastres - arqueologia da violência
223 pág.

pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais132 seguidores
Pré-visualização50 páginas
movimento necessário da humanidade 
ao longo das figuras do social que se engendram e se encadeiam mecanicamente. Mas 
digamos que se recuse essa neoteologia da história e seu continuísmo fanático: com 
isso as sociedades primitivas deixam de ocupar o grau zero da história, grávidas que 
estariam ao mesmo tempo de toda a história por vir, inscrita antecipadamente em seu 
ser. Liberada desse exotismo pouco inocente, a antropologia pode então tomar a sério 
a verdadeira questão do político: por que as sociedades primitivas são sociedades sem 
Estado? Como sociedades completas, acabadas, adultas e não mais como embriões 
infra-políticos, as sociedades primitivas não têm o Estado porque o recusam, porque 
recusam a divisão do corpo social em dominantes e dominados. Com efeito, a política 
dos selvagens é exatamente opor-se o tempo todo ao aparecimento de um órgão 
105 
separado do poder, impedir o encontro de antemão fatal entre instituição da chefia e 
exercício do poder. Na sociedade primitiva, não há órgão separado do poder porque o 
poder não está separado da sociedade, porque é ela que o detém, como totalidade una, 
a fim de manter seu ser indiviso, a fim de afastar, de conjurar o aparecimento em seu 
seio da desigualdade entre senhores e súditos, entre o chefe e a tribo. Deter o poder é 
exercê-lo; exercê-lo é dominar aqueles sobre os quais ele se exerce: eis aí, muito 
precisamente, o que as sociedades primitivas não querem (não quiseram), eis aí por 
que os chefes não têm poder, por que o poder não se separa do corpo uno da 
sociedade. Recusa da desigualdade, recusa do poder separado: mesma e constante 
preocupação das sociedades primitivas. Elas sabiam perfeitamente que, renunciando a 
essa luta, deixando de se opor às forças subterrâneas que se chamam desejo de poder 
e desejo de submissão, sem a liberação das quais não se poderia compreender a 
irrupção da dominação e da servidão, elas sabiam que perderiam sua liberdade. 
 
A chefia, na sociedade primitiva, é apenas o lugar suposto, aparente do poder. 
Qual é seu lugar real? É o corpo social ele próprio, que o detém e o exerce como 
unidade indivisa. Esse poder não separado da sociedade se exerce num único sentido, 
ele anima um único projeto: manter na indivisão o ser da sociedade, impedir que a 
desigualdade entre os homens instale a divisão na sociedade. Segue-se que tal poder 
se exerce sobre tudo o que é suscetível de alienar a sociedade, de nela introduzir a 
desigualdade: ele se exerce, entre outras coisas, sobre a instituição de onde poderia 
surgir a captação do poder, a chefia. O chefe está sob vigilância na tribo: a sociedade 
cuida para não deixar o gosto do prestígio transformar-se em desejo de poder. Se o 
desejo de poder do chefe torna-se muito evidente, o procedimento empregado é 
simples: ele é abandonado ou mesmo morto. O espectro da divisão talvez assombre a 
sociedade primitiva, mas ela possui os meios de exorcizá-lo. 
O exemplo das sociedades primitivas nos ensina que a divisão não é inerente ao 
ser do social, que, noutras palavras, o Estado não é eterno, que ele tem, aqui e ali, 
uma data de nascimento. Por que emergiu o Estado? A questão de sua origem deve 
ser assim precisada: em que condições uma sociedade deixa de ser primitiva? Por que 
as codificações que rechaçam o Estado falham, nesse ou naquele momento da 
história? Não resta dúvida que somente a interrogação atenta do funcionamento das 
sociedades primitivas permitirá esclarecer o problema das origens. E talvez a luz 
assim lançada sobre o momento do nascimento do Estado esclarecerá igualmente as 
condições de possibilidade (realizáveis ou não) de sua morte. 
107 
Capítulo 7 
LIBERDADE, MAU ENCONTRO, INOMINÁVEL 
108 
Liberdade, Mau encontro, Inominável* 
Pensamento mais livre que o de Étienne de La Boétie não é, com certeza, 
freqüente encontrar. Firmeza singular de um propósito de jovem ainda adolescente: 
mas por que não um Rimbaud do pensamento? Audácia e gravidade de uma 
interrogação evidentemente acidental: que irrisão tentar explicá-lo pelo século, 
rebaixar esse olhar altaneiro \u2014 insuportável \u2014 ao círculo fechado e sempre traçado 
dos acontecimentos! Quantos mal-entendidos, desde o Contra um** dos 
reformadores! Não é certamente a referência a qualquer determinismo histórico 
(circunstâncias políticas do momento, pertença a uma classe social) que conseguirá 
desarmar a virulência sempre ativa do Discurso, desmentir a afirmação essencial da 
liberdade que o fundamenta e o anima. A história local e momentânea mal chega a 
ser, para La Boétie, ocasião, pretexto: nele não há nada do panfletário, do publicista, 
do militante. Sua agressão tem um alcance muito maior: ele coloca uma questão 
totalmente livre porque absolutamente liberada de toda "territorialidade" social ou 
política, e é exatamente porque sua questão é trans-histórica que somos capazes de 
entendê-la. Como é possível, pergunta La Boétie, que a maioria obedeça a um só, não 
apenas lhe obedeça mas o sirva, não apenas o sirva mas queira servi-lo? 
A natureza e o alcance de tal questão excluem de saída que se possa reduzi-la a 
essa ou àquela situação histórica concreta. A possibilidade mesma de formular uma 
interrogação tão destrutiva remete, simples mas heroicamente, a uma lógica dos 
contrários: se sou capaz de me espantar que a servidão voluntária seja a invariante 
comum a todas as sociedades, a minha mas também aquelas sobre as quais me 
informam os livros (com exceção, talvez retórica, da Antigüidade romana), é 
evidentemente porque imagino o contrário de uma tal sociedade, é porque imagino a 
possibilidade lógica de uma sociedade que ignorasse a servidão voluntária. Heroísmo 
e liberdade de La Boétie: basta essa ligeira e fácil passagem da História à lógica, 
basta essa abertura no que é o mais naturalmente evidente, basta essa brecha na 
convicção geral de que não se poderia pensar a sociedade sem sua divisão entre 
dominantes e dominados. Ao espantar-se com isso, ao recusar a evidência natural, o 
jovem La Boétie transcende toda a história conhecida para dizer: uma outra coisa é 
possível. Não, certamente, como programa a realizar: La Boétie não é um prosélito. 
Pouco lhe importa, num certo sentido, o destino do povo, na medida em que este não 
se revolta: é por isso que ele, autor do Discurso sobre a servidão voluntária, pode ser 
 
*
 Publicado em "La Boétie et la question du politique", in La Boétie. Le Discours de 
la servitude volontaire (Paris: Payot, 1976). 
**
 Cf. La Boétie, Le Contr'un ou Discours de la servitude volontaire, 1574. [N.E.] 
109 
ao mesmo tempo funcionário do Estado monárquico (donde o ridículo de fazer dele 
um "clássico do povo"). O que ele descobre, ao sair da História, é precisamente que a 
sociedade na qual o povo quer servir o tirano é histórica, que ela não é eterna e não 
existiu sempre, que ela tem uma data de nascimento e que alguma coisa 
necessariamente deve ter se passado para que os homens caíssem da liberdade na 
servidão: "...que mau encontro foi esse, capaz de desnaturar tanto o homem, em 
verdade nascido apenas para viver abertamente, e de fazê-lo perder a lembrança de 
seu primeiro ser e o desejo de recuperá-lo?". 
Mau encontro: acidente trágico, infelicidade inaugural cujos efeitos não cessam 
de se amplificar a ponto de se abolir a memória de antes, a ponto de o amor à 
servidão substituir o desejo de liberdade. Que diz La Boétie? Mais que qualquer outro 
clarividente, ele afirma em primeiro lugar que foi sem necessidade essa passagem da 
liberdade à servidão, ele afirma acidental \u2014 e que trabalho a partir de então para 
pensar o impensável mau encontro! \u2014 a divisão da sociedade entre os que mandam e 
os que obedecem. O que é aqui designado é exatamente esse momento histórico do 
nascimento da História, essa ruptura fatal que jamais