pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais132 seguidores
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eficazmente o meio natural. Trata-se de um redondo engano, e grande é o mérito de 
Sahlins de reabilitar o caçador primitivo, restabelecendo, contra a deturpação teórica 
(teórica!), a verdade dos fatos. Com efeito, resulta de sua análise que não apenas a 
economia primitiva não é uma economia da miséria, mas que ela permite, ao 
contrário, determinar a sociedade primitiva como a primeira sociedade de 
abundância. Expressão provocadora, que perturba o torpor dogmático dos pseudo-
cientistas da antropologia, mas expressão justa: se em tempos curtos de baixa 
intensidade a máquina de produção primitiva assegura a satisfação das necessidades 
materiais das pessoas, é que ela funciona, como escreve Sahlins, aquém de suas 
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possibilidades objetivas, é que ela poderia, se quisesse, funcionar por mais tempo e 
mais depressa, produzir excedentes, constituir estoques. Se, portanto, podendo fazê-
lo, a sociedade primitiva não o faz, é que ela não quer fazê-lo. Australianos e 
Bochiman, tão logo julgam ter recolhido suficientes recursos alimentares, cessam de 
caçar e de coletar. Por que se fatigariam coletando mais do que podem consumir? Por 
que nômades se esgotariam transportando inutilmente de um ponto a outro pesadas 
provisões, quando, diz Sahlins, "os estoques estão na própria natureza"? Os selvagens 
não são tão loucos quanto os economistas formalistas que, não podendo descobrir no 
homem primitivo a psicologia de um chefe de empresa industrial ou comercial, 
preocupado em aumentar incessantemente sua produção a fim de aumentar seu lucro, 
deduzem disso, os tolos, a inferioridade intrínseca da economia primitiva. 
Empreendimento salutar, portanto, o de Sahlins, ao desmascarar, tranqüilamente, essa 
"filosofia" que faz do capitalismo contemporâneo o ideal e a medida de todas as 
coisas. Mas quantos esforços, no entanto, para demonstrar que, se o homem primitivo 
não é um empreendedor, é porque o lucro não o interessa; que, se ele não 
"rentabiliza" sua atividade, como gostam de dizer os pedantes, não é porque não sabe 
fazê-lo, mas porque não tem vontade de fazê-lo! 
Sahlins não se limita ao caso dos caçadores. Na categoria do Modo de Produção 
Doméstico (MPD), ele examina a economia das sociedades "neolíticas", dos 
agricultores primitivos tais como ainda podem ser observados na África ou na 
Melanésia, no Vietnã ou na América do Sul. Nada em comum, aparentemente, entre 
nômades do deserto ou da floresta e sedentários que, sem negligenciar a caça, a pesca 
e a coleta, são essencialmente tributários do produto de suas plantações. Poder-se-ia 
esperar, ao contrário, em função da mudança considerável que é a conversão de uma 
economia de caça numa economia agrária, a eclosão de atitudes econômicas 
inteiramente novas, sem falar, é claro, de transformações na própria organização da 
sociedade. 
Baseando-se numa massa muito importante de estudos feitos em diversas regiões 
do globo, Sahlins submete a um exame detalhado as figuras locais (melanésias, 
africanas, sul-americanas etc.) do MPD, cujas propriedades recorrentes ele destaca: 
predominância da divisão sexual do trabalho; produção segmentar com fins de 
consumo; acesso autônomo aos meios de produção; relações centrífugas entre as 
unidades de produção. Ao explicar uma realidade econômica (o MPD), Sahlins põe em 
jogo, com razão, categorias propriamente políticas no sentido de tocarem o núcleo da 
organização social primitiva: segmentação, autonomia, relações centrífugas. 
Impossibilidade essencial de pensar o econômico primitivo no exterior do político. O 
que deve por ora reter a atenção é que os traços pertinentes com que se descreve o 
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modo de produção dos agricultores que praticam queimadas, permitem igualmente 
compreender a organização social dos povos caçadores. Desse ponto de vista, um 
bando nômade, assim como uma tribo sedentária, compõe-se de unidades de 
produção e de consumo \u2014 os "lares" ou os "grupos domésticos" \u2014 no interior dos 
quais prevalece de fato a divisão sexual do trabalho. Cada unidade funciona como um 
segmento autônomo do conjunto, e, mesmo se a rede de trocas estrutura solidamente 
o bando nômade, nem por isso o jogo das forças centrífugas está ausente. Para além 
das diferenças no estilo de vida, nas representações religiosas, na atividade ritual, o 
arcabouço da sociedade não varia da comunidade nômade à aldeia sedentária. Que 
máquinas de produção tão diferentes como a caça nômade e a agricultura com 
queimadas sejam compatíveis com formações sociais idênticas, eis um ponto cuja 
importância convém avaliar. 
Toda comunidade primitiva aspira, do ponto de vista de sua produção de 
consumo, à autonomia completa; ela aspira a excluir toda relação de dependência 
com os grupos vizinhos. Expresso numa fórmula condensada, este é o ideal 
autárquico da sociedade primitiva: produz-se um mínimo suficiente para satisfazer 
todas as necessidades, mas dá-se um jeito de produzir a totalidade desse mínimo. Se o 
MPD é "um sistema intrinsecamente hostil à formação de excedente", ele não é menos 
hostil a deixar a produção cair abaixo do limiar que garante a satisfação das 
necessidades. O ideal de autarquia econômica é, na realidade, um ideal de 
independência política, a qual é assegurada enquanto não se tem necessidade dos 
outros. Esse ideal, naturalmente, não se realiza sempre, nem em toda parte. As 
diferenças ecológicas, as variações climáticas, os contatos ou empréstimos podem 
levar uma sociedade a sentir falta de determinado alimento ou de determinado 
material, ou de um objeto que outros sabem fabricar, sem poder satisfazê-la. Por isso, 
como mostra Sahlins, grupos vizinhos ou mesmo afastados vêem-se envolvidos em 
relações mais ou menos intensas de troca de bens. Mas, ele esclarece também, ao 
longo de sua paciente análise do "comércio" melanésio, que "as sociedades 
melanésias não conhecem 'mercados', e certamente isso vale para todas as sociedades 
arcaicas". O MPD tende assim, em virtude do desejo de independência de cada 
comunidade, a reduzir o máximo possível o risco que se corre na troca determinada 
pela necessidade: "A reciprocidade entre parceiros comerciais é não apenas um 
privilégio mas também um dever. Especificamente, ela cria tanto a obrigação de 
receber quanto a de restribuir". O comércio entre tribos nada tem a ver com 
importação e exportação. 
Ora, a vontade de independência \u2014 o ideal autárquico \u2014 imanente ao MPD, na 
medida em que ela concerne à comunidade como tal em sua relação com as outras 
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comunidades, essa vontade está presente também, num certo sentido, no interior da 
comunidade, onde as tendências centrífugas levam cada unidade de produção, cada 
"grupo doméstico", a proclamar: cada um por si! Naturalmente, um tal princípio, 
feroz em seu egoísmo, só raramente tem ocasião de se exercer: para tanto é preciso 
circunstâncias excepcionais, como a fome cujos efeitos foram observados por Firth 
sobre a sociedade tikopia, vítima de devastadores furacões em 1953-54. Essa crise, 
escreve Sahlins, "revelou a fragilidade do célebre 'nós' \u2014 Nós, os Tikopia \u2014 ao 
mesmo tempo que demonstrava com evidência a força do grupo doméstico. A família 
mostrou-se como a fortaleza do interesse privado, do grupo doméstico, uma fortaleza 
que, em caso de crise, isola-se do mundo exterior, recolhe suas pontes levadiças 
sociais \u2014 quando não sai a pilhar as plantações de seus parentes". Enquanto nada de 
grave vem alterar o curso normal da vida cotidiana, a comunidade não deixa as forças 
centrífugas ameaçar a unidade de seu Si, continua-se a respeitar as obrigações do 
parentesco. Eis por que, ao cabo de uma análise bastante técnica do caso de Mazulu, 
aldeia de Valley Tonga, Sahlins pensa poder explicar a subprodução de certos grupos 
domésticos por sua certeza de que a solidariedade dos mais abastados virá a seu 
favor: "Pois, se alguns deles fracassam, não é precisamente