pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais132 seguidores
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porque sabem desde o 
início poder contar com outros?" Mas, se ocorrer um fato imprevisível (calamidade 
natural ou agressão exterior, por exemplo) que perturbe a ordem das coisas, então a 
tendência centrífuga de cada unidade de produção se afirma, o grupo doméstico tende 
a se fechar em si mesmo, a comunidade se "atomiza" até que passe o mau momento. 
Isso não significa, porém, que mesmo em condições normais se respeitem 
sempre de bom grado as obrigações do parentesco. Na sociedade maori, "o grupo 
doméstico é... constantemente confrontado com um dilema, constantemente forçado a 
manobrar, a transigir entre a satisfação de suas necessidades próprias e as obrigações 
mais gerais para com os parentes distantes que ele deve procurar satisfazer sem 
comprometer seu próprio bem-estar". E Sahlins cita alguns saborosos provérbios 
maori em que se manifestam claramente a irritação sentida diante de parentes muito 
exigentes e o mau humor que encobre um ato generoso feito sem alegria de coração, 
se o beneficiado possui apenas um pequeno grau de parentesco. 
O MPD assegura assim à sociedade primitiva uma abundância medida pela 
igualização da produção às necessidades, ele funciona tendo em vista a total 
satisfação delas e recusando ir mais além. Os selvagens produzem para viver, não 
vivem para produzir: "O MPD é uma produção de consumo cuja ação tende a frear os 
rendimentos e imobilizá-los num nível relativamente baixo". Tal "estratégia" implica 
evidentemente como que uma aposta no futuro, a saber: que ele será feito de 
repetição e não de diferença, que a terra, o céu os deuses cuidarão de manter o eterno 
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retorno do mesmo. E, em geral, é exatamente o que se passa: excepcional é a 
mudança que, como a catástrofe natural que vitimou os Tikopia, vem deformar as 
linhas de força da sociedade. Mas é também na raridade dessas circunstâncias que se 
põem a descoberto suas linhas de fraqueza: "A obrigação de generosidade inscrita na 
estrutura não resiste à prova do infortúnio". Incurável imprevidência dos selvagens, 
como dizem as crônicas dos viajantes? Nessa despreocupação lê-se, muito pelo 
contrário, a preocupação maior com sua liberdade. 
Pela análise do MPD, é realmente uma teoria geral da economia primitiva que 
Sahlins nos propõe. Do fato de a produção estar exatamente adaptada às necessidades 
imediatas da família, ele retira, com grande clareza, a lei que subjaz ao sistema: "... o 
MPD contém um princípio antiexcedente; adaptado à produção de bens de 
subsistência, ele tende a imobilizar-se quando atinge esse ponto". A constatação, 
etnograficamente fundada, de que as economias primitivas são, por um lado, 
subprodutivas (trabalho de uma parte apenas da sociedade em tempos curtos de baixa 
intensidade) e, por outro, satisfazem sempre as necessidades da sociedade 
(necessidades definidas pela própria sociedade e não por uma instância exterior), essa 
constatação impõe, portanto, em sua paradoxal verdade, a idéia de que a sociedade 
primitiva é de fato uma sociedade de abundância (a primeira, com certeza, e talvez 
também a última), pois todas as necessidades são satisfeitas. Mas Sahlins faz 
igualmente aflorar a lógica que opera no centro desse sistema social: estruturalmente, 
ele escreve, a "economia " não existe ali. Vale dizer que o econômico, como setor que 
se desenvolve de maneira autônoma no campo social, está ausente do MPD; este 
último funciona como produção de consumo (assegurar a satisfação das 
necessidades) e não como produção de troca (obter lucro comercializando os 
excedentes). O que se impõe, no final das contas (o que o grande trabalho de Sahlins 
impõe), é a descoberta de que as sociedades primitivas são sociedades da recusa da 
economia.4 
Os economistas formalistas se espantam que o homem primitivo não seja, como 
o capitalista, animado pelo gosto do lucro: num certo sentido, é exatamente disso que 
se trata. A sociedade primitiva atribui à sua produção um limite estrito que ela se 
proíbe franquear, sob pena de ver o econômico escapar do social e voltar-se contra a 
sociedade, abrindo a brecha da heterogeneidade da divisão entre ricos e pobres, da 
alienação de uns pelos outros. Sociedade sem economia, certamente, porém, mais 
ainda, sociedade contra a economia: tal é a incontestável verdade para a qual nos 
 
4
 Não podemos deixar de assinalar aqui as pesquisas, exemplares também, que Jacques Lizot vem realizado há vários anos na última 
grande etnia amazônica, os índios Yanomami da Venezuela. Procedendo a centenas de medidas de tempo de trabalho entre esses 
agricultores de queimadas, Lizot chegou a conclusões que coincidem exatamente com a análise de Sahlins sobre o MPD. Cf., em 
particular, J. Lizot, "Économie ou société? Quelques thèmes à propos de l'étude d'une communauté d'Amérindiens", Journal de la 
Société des Américanistes, IX, 1973. 
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conduz a reflexão de Sahlins sobre a sociedade primitiva. Reflexão rigorosa por seu 
movimento que nos ensina mais sobre os selvagens do que qualquer outra obra do 
mesmo gênero. Mas empreendimento também de verdadeiro pensamento, pois, livre 
de toda dogmática, ele se abre às mais essenciais questões: em que condições uma 
sociedade é primitiva? Em que condições a sociedade primitiva pode perseverar em 
seu ser indiviso? 
 
Sociedade sem Estado, sociedade sem classes: assim a antropologia enuncia as 
determinações que fazem que uma sociedade possa ser dita primitiva. Sociedade, 
portanto, sem órgão separado do poder político, sociedade que impede, de maneira 
deliberada, a divisão do corpo social em grupos desiguais e opostos: "A sociedade 
primitiva admite a penúria para todos, mas não a acumulação por alguns". Eis aqui 
toda a importância do problema colocado pela instituição da chefia numa sociedade 
não dividida: o que acontece com a vontade igualitária inscrita no núcleo do MPD 
diante do estabelecimento de relações hierárquicas? A recusa da divisão que regula a 
ordem econômica cessaria de operar no campo do político? De que maneira o estatuto 
supostamente superior do chefe se articula com o ser indiviso da sociedade? De que 
maneira se tecem, entre a tribo e seu líder, as relações de poder? Essa problemática 
percorre o trabalho de Sahlins, que a aborda mais diretamente em sua minuciosa 
análise dos sistemas melanésios de big-man, nos quais se conjugam, na pessoa do 
chefe, a política e a economia. 
Na maior parte das sociedades primitivas, exigem-se do chefe duas qualidades 
essenciais: talento oratório e generosidade. Não se reconhecerá como líder um 
homem inábil ao falar ou avarento. Não se trata, evidentemente, de traços 
psicológicos pessoais mas de propriedades formais da instituição: a posição de líder 
exclui a retenção de bens. Trata-se de uma verdadeira obrigação de generosidade, 
cuja origem e efeitos Sahlins examina em páginas penetrantes. No ponto de partida 
de uma carreira de big-man está "sua ambição desenfreada": gosto estratégico de 
prestígio, senso tático dos meios de adquiri-lo. É muito evidente que, para ser pródigo 
em bens, o chefe deve primeiro possuí-los. De que maneira irá obtê-los? Eliminado o 
caso, não pertinente do ponto de vista do problema colocado, dos objetos 
manufaturados que o líder recebe por exemplo de missionários ou de etnólogos para 
em seguida redistribuí-los aos membros da comunidade, levando em conta, por outro 
lado, que nessas sociedades faz-se sempre presente o princípio segundo o qual "a 
liberdade de ganhar em detrimento de outrem não está inscrita nas relações e 
modalidades da troca", resta que, para cumprir sua obrigação de generosidade, o big-
man deverá produzir sozinho os bens de que necessita: ele não pode contar com os 
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outros. Somente lhe fornecerão ajuda e assistência aqueles que, por diversas razões, 
consideram útil trabalhar para ele, como os parentes