pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais132 seguidores
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sociedade. Birnbaum pode, depois disso, perorar sobre a 
natureza opressiva da sociedade primitiva; ou ainda sobre minha concepção 
organicista da sociedade. Será que ele não compreende o que lê? A metáfora da 
colméia (metáfora e não modelo) não é minha, mas dos índios Guayaki: com efeito, 
esses irracionalistas permitem-se, contra toda a lógica, comparar-se a uma colméia 
quando celebram a festa do mel! Birnbaum não faria isso; afinal, não é poeta, mas um 
cientista que tem a seu favor a fria Razão. Que ele a conserve.2 
Na página 10 de seu ensaio, Birnbaum me declara "na impossibilidade de dar 
uma explicação sociológica do nascimento do Estado". Mas eis que, na página 19, 
parece que esse nascimento "pode agora explicar-se por um rigoroso determinismo 
demográfico...". Em suma, a escolha é do leitor. Alguns esclarecimentos poderão 
guiar essa escolha. Efetivamente, eu até agora nunca disse nada sobre a origem do 
Estado, isto é, sobre a origem da divisão social, sobre a origem da dominação. Por 
quê? Porque se trata de uma questão (fundamental) de sociologia, e não de teologia 
ou de filosofia da História. Em outras palavras, colocar a questão da origem pertence 
à analítica do social: em que condições a divisão social pode surgir na sociedade 
indivisa? Qual a natureza das forças sociais que levariam os selvagens a aceitar a 
divisão em Senhores e Súditos? Quais as condições de morte da sociedade primitiva 
como sociedade indivisa? Genealogia do mau encontro, pesquisa do clinâmen social 
que só podem evidentemente desenvolver-se na interrogação do ser social primitivo: 
o problema da origem é estritamente sociológico, e nem Condorcet nem Hegel, nem 
Comte nem Engels, nem Durkheim nem Birnbaum são, nesse ponto, de alguma valia. 
Para compreender a divisão social, é preciso partir da sociedade que existia para 
impedi-la. Quanto a saber se posso ou não articular uma resposta à questão da origem 
do Estado, ainda nada sei a respeito, e Birnbaum muito menos. Esperemos, 
trabalhemos, não há pressa. 
Duas palavras agora a propósito de minha teoria da origem do Estado: "um 
rigoroso determinismo demográfico" explica seu aparecimento, faz-me dizer 
Birnbaum com um senso consumado da gag. Seria um verdadeiro alívio se 
pudéssemos, com um único salto, passar do crescimento demográfico à instituição do 
Estado, teríamos tempo para nos ocupar de outra coisa. Infelizmente, as coisas não 
são tão simples. Substituir o materialismo econômico por um materialismo 
 
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 Se Birnbaum se interessa pelas concepções organicistas da sociedade, deveria ler Leroi-Gourhan (Le Geste et la parole); vai adorar. 
Por outro lado, uma adivinha. Na América do Sul, os brancos chamam-se a si próprios racionais: em relação a quem? 
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demográfico? A pirâmide ainda continuaria apoiada em sua ponta. O que é certo, em 
contrapartida, é que etnólogos, historiadores e demógrafos durante muito tempo 
partilharam uma certeza falsa, a saber: que a população das sociedades primitivas era 
necessariamente pequena, estável, inerte. Pesquisas recentes demonstram o contrário: 
a demografia primitiva evolui e, o mais das vezes, no sentido do crescimento. De 
minha parte, tentei mostrar que, em certas condições, o demográfico não pode deixar 
de ter efeitos sobre o sociológico, e que esse parâmetro deve, de modo igual aos 
outros (não mais, mas não menos), ser levado em conta se quisermos determinar as 
condições de possibilidade de mudança na sociedade primitiva. Daí a uma dedução 
do Estado... 
Como todo mundo, Birnbaum acolhia placidamente o que ensinava a etnologia: 
as sociedades primitivas são sociedades sem Estado \u2014 sem órgão separado do poder 
político. Muito bem. Tomando a sério, de um lado, as sociedades primitivas e, de 
outro, o discurso etnológico sobre essas sociedades, pergunto-me por que elas são 
sem Estado, por que nelas o poder não está separado do corpo social. E aos pouco 
descubro que essa não-separação do poder, que essa não-divisão do ser social devem-
se não a um estado fetal ou embrionário das sociedades primitivas, não a um 
inacabamento ou a uma incompletude, mas se relacionam com um ato sociológico, 
com uma instituição da sociedade como recusa da divisão, como recusa da 
dominação: se as sociedades primitivas são sem Estado, é porque elas são contra o 
Estado. De repente, Birnbaum, e com ele muitos outros, não entendem mais o que 
digo. Ficam perturbados. Admitem o sem Estado, mas contra o Estado, alto lá! É uma 
provocação. E Marx, então? E Durkheim? E nós? Não se pode mais digerir 
tranqüilamente? Não podemos mais continuar contando nossas historinhas? Ah, não! 
Isso não ficará assim! Em suma, eis aí um caso interessante do que a psicanálise 
chama resistência. Percebe-se muito bem a quê resistem todos esses doutores, e que a 
terapêutica será longa. 
Os leitores de Birnbaum poderão talvez se cansar de ter a todo momento que 
escolher. Pois o autor fala, na página 9, de meu "voluntarismo que descarta toda 
explicação estrutural do Estado", para constatar, na página 20, que abandono "a 
dimensão voluntarista que anima o Discurso de La Boétie...". Parece que pouco 
habituado a pensar logicamente, Birnbaum confunde dois planos distintos de 
reflexão: um plano teórico e um plano prático. O primeiro articula-se em torno de 
uma questão histórica e sociológica: qual é a origem da dominação? O segundo 
remete a uma questão política: que devemos fazer para abolir a dominação? Não é 
aqui o lugar de abordar este último ponto. Voltemos portanto ao primeiro. Parece-me 
que Birnbaum simplesmente não leu meu breve ensaio sobre La Boétie: claro que 
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nada o obriga a isso, mas por que diabos resolve ele então escrever a propósito de 
coisas das quais não faz a menor idéia? Citar-me-ei, portanto, quanto ao caráter 
voluntário da servidão e à questão propriamente antropológica do Discurso de La 
Boétie: "E, embora não deliberada, essa vontade adquire então sua verdadeira 
identidade: ela é o desejo" (p. 162, supra). Um aluno de pré-vestibular já sabe tudo 
isto: que o desejo remete ao inconsciente, que o desejo social remete ao inconsciente 
social e que a vida sociopolítica não se manifesta apenas na contabilidade das 
vontades conscientemente expressas. Para Birnbaum, cujas concepções psicológicas 
devem datar da metade do século XIX, a categoria de desejo é certamente o pornô, 
enquanto a vontade é a Razão. De minha parte, tento circunscrever o campo do desejo 
como espaço do político, estabelecer que o desejo de poder não pode se realizar sem 
o desejo inverso e simétrico de submissão, procuro mostrar que a sociedade primitiva 
é o lugar de repressão desse duplo mau desejo, e me pergunto: Em que condições 
esse desejo é mais poderoso que sua repressão? Por que a comunidade dos Iguais 
divide-se em Senhores e Súditos? Como pôde o respeito à Lei ser suplantado pelo 
amor ao Um? 
 
Não nos aproximamos da verdade? Parece que sim. O sistema de análise último 
de tudo isso não seria a questão do que chamam o marxismo? É exato que utilizei, 
para descrever a antropologia que invoca esse sistema, a expressão (que parece 
incomodar Birnbaum) "pântano marxista". Foi num momento de excessiva 
benevolência.O estudo e o pensamento de Karl Marx é uma coisa, o exame de tudo 
que se afirma "marxista" é outra bem diferente. No que se refere ao "marxismo" 
antropológico \u2014 a antropologia marxista \u2014, uma evidência começa lentamente a 
manifestar-se: a dita "antropologia" constitui-se por meio de uma dupla impostura. 
Impostura, de um lado, em sua afirmação descarada de uma relação qualquer com a 
letra e o espírito do pensamento marxiano; impostura, de outro, em seu fanático 
projeto de dizer "cientificamente" o ser social da sociedade primitiva. Eles 
desdenham, os "antropólogos marxistas", as sociedades primitivas! Elas nem sequer 
existem para esses teólogos