pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais132 seguidores
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"se pensem entre si", 
como diz o próprio Lévi-Strauss. Os mitos têm portanto relação uns com os outros, 
eles são pensáveis. Muito bem. Mas o mito (tal mito particular) limita-se a pensar 
seus vizinhos para que o mitólogo possa pensá-los todos juntos? Seguramente não. 
Aqui também, a concepção estruturalista abole, de uma maneira particularmente 
clara, a relação com o social: é a relação dos mitos entre si que é desde o início 
privilegiada, por elisão do lugar de produção e invenção do mito, a sociedade. Que os 
mitos se pensam entre si, que sua estrutura seja analisável, não há dúvida, e Lévi-
Strauss oferece uma prova brilhante; mas isso, de certo modo, é secundário: pois eles 
pensam primeiramente a sociedade que se pensa neles, e aí reside sua função. Os 
mitos constituem o discurso da sociedade primitiva sobre si mesma, eles envolvem 
uma dimensão sociopolítica que a análise estrutural evita, naturalmente, levar em 
conta, sob pena de entrar em pane. O estruturalismo só é operatório à condição de 
separar os mitos da sociedade, de apreendê-los, etéreos, flutuando a uma boa 
distância de seu espaço de origem. E por isso quase nunca fala daquilo que, no 
entanto, impõe-se como experiência privilegiada da vida social primitiva, a saber: o 
rito. Com efeito, que há de mais coletivo, de mais social do que um ritual? O rito é a 
mediação religiosa entre o mito e a sociedade: mas, para a análise estrutural, a 
dificuldade provém de que os ritos não se pensam entre si. Impossível pensá-los. 
Logo, retira-se o rito e, com ele, a sociedade. 
Quer se aborde o estruturalismo por seu cume (a obra de Lévi-Strauss), quer se 
considere esse cume segundo suas duas encostas principais (análise do parentesco; 
análise dos mitos), uma constatação se impõe, a constatação de uma ausência: esse 
discurso elegante, com freqüência muito rico, não fala da sociedade. O estruturalismo 
é como uma teologia sem deus: é uma sociologia sem sociedade. 
 
Conjugando-se a um maior poder das ciências humanas, manifestou-se portanto 
uma forte \u2014 e legítima \u2014 demanda entre os pesquisadores e estudantes: queremos 
falar da sociedade, falem-nos da sociedade! É então que a cena muda. Ao gracioso 
minueto dos estruturalistas, polidamente dispensados, sucede um novo balé, o dos 
marxistas (como eles próprios se chamam): estes dançam uma robusta bourrée e, com 
seus tamancos guarnecidos de pregos, batem com rudeza o solo da pesquisa. Por 
diversas razões (políticas e não científicas), o público, numeroso, aplaude. E que o 
marxismo, de fato, como teoria da sociedade e da história, está por natureza 
habilitado a estender seu discurso ao campo da sociedade primitiva. Melhor: a lógica 
da doutrina marxista a obriga a não negligenciar nenhum tipo de sociedade, faz parte 
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de sua natureza dizer a verdade a propósito de todas as formações sociais que balizam 
a história. E por isso que, imanente ao discurso marxista global, há um discurso 
antecipadamente pronto a ser feito sobre a sociedade primitiva. 
Os etnólogos marxistas constituem uma falange obscura mas numerosa. Em vão 
procuramos, nesse corpo disciplinado, uma individualidade marcante, um espírito 
original: devotos da mesma doutrina, todos professam a mesma crença e salmodiam o 
mesmo credo; cada um zelando para que o vizinho respeite na ortodoxia a letra dos 
cânticos entoados por esse coro pouco angélico. No entanto, objetar-me-ão, 
tendências ali se enfrentam, e duramente. De fato: cada um deles passa o tempo a 
tratar o outro de impostor pseudo-marxista, cada um reivindica como sua a boa 
interpretação do Dogma. Naturalmente, não me compete descobrir quem merece o 
título de marxista autêntico (que resolvam entre si). Em troca, posso tentar mostrar 
(isso não é um prazer, é um dever) que suas querelas de seitas agitam a mesma 
paróquia e que o marxismo de um não vale mais que o do outro. 
Tome-se, por exemplo, Meillassoux. Ele seria, dizem, uma das cabeças 
pensantes (pensantes!) da antropologia marxista. Nesse caso preciso, esforços 
penosos me são poupados graças à análise detalhada que A. Adler dedicou a uma 
obra recente desse autor.1 Que o leitor se reporte portanto à referida obra e à sua 
crítica: o trabalho de Adler é sério, cerrado, mais do que atento (Adler, como 
Meillassoux \u2014 ou melhor, não como ele \u2014, é de fato um especialista da África). O 
pensador marxista deveria orgulhar-se de ter que lidar com um leitor tão 
consciencioso, testemunhar-lhe reconhecimento: mas não é o que acontece. Às 
objeções muito razoáveis de Adler (que destrói, como era de se esperar, o 
empreendimento do autor), Meillassoux opõe uma resposta2 que se pode resumir sem 
dificuldade: os que não estão de acordo com a antropologia marxista são partidários 
de Pinochet. Ponto final. É sumário, mas claro. Malditas sejam as nuanças, quando se 
é protetor austero da doutrina. Ele é uma espécie de integrista, há algo de Monsenhor 
Lefebvre nesse homem: o mesmo fanatismo estreito, a mesma alergia incurável à 
dúvida. Dessa madeira fazem-se bonecos inofensivos. Mas, quando esse boneco está 
no poder, ele torna-se inquietante e chama-se, por exemplo, Vichinsky: Ao Gulag os 
descrentes! Lá aprenderão a não mais duvidar que as relações de produção dominam 
a vida social primitiva. 
Mas Meillassoux não é o único, e seria injusto para os outros fazer pensar que 
ele detém o monopólio do marxismo antropológico. Por um cuidado de eqüidade, 
convém dar a seus colegas o lugar que merecem. 
 
1
 Claude Meillassoux, Femmes, greniers et capitaux (Paris: Maspero, 1976); Alfred Adler, "L'Étlinologie marxiste: vers un nouvel 
obscurantisme?". L'Homme, XVI, n. 4. 
2
 Meillassoux, "Sur deux critiques de Femmes, greniers et capitaux ou Fahrenheit 450,5".L'Homme, XVII, n.1. 
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Tome-se, por exemplo, Godelier. Ele adquiriu uma considerável reputação (na 
parte baixa da rua de Tournon) de pensador marxista. Seu marxismo chama a 
atenção, pois parece menos áspero, mais ecumênico que o de Meillassoux. Há algo de 
radical-socialista nesse homem (vermelho por fora, branco por dentro). Seria então 
um oportunista? Nada disso. E um atleta do pensamento, que empreendeu fazer a 
síntese entre estruturalismo e marxismo. É preciso vê-lo saltitar de Marx a Lévi-
Strauss. (Saltitar? Como se fosse um passarinho? São guinadas de um elefante!) 
Folheemos seu último livro3 e especialmente o prefácio à segunda edição: 
ocupação que, diga-se de passagem, é pouco prazerosa. O estilo, de fato, é o homem, 
e este não é exatamente proustiano (vê-se bem que o rapaz não está de olho na 
Academia francesa). Enfim. A conclusão desse prefácio é um tanto confusa. Com 
efeito, Godelier explica que Lefort e eu colocamos a questão da origem do Estado em 
nosso trabalho sobre La Boétie (não é em absoluto disso que se trata), que Deleuze e 
Guattari já haviam respondido a ela em O Anti-Édipo, mas que suas idéias "eram 
provavelmente inspiradas em Clastres" (p. 25, n. 3). Vá compreender-se. Em todo 
caso, Godelier é honesto: reconhece que não compreende nada do que lê (ele enfeita 
suas citações com pontos de exclamação e de interrogação). Godelier não gosta da 
categoria de desejo, que aliás também o repele. Eu perderia meu tempo \u2014 pois ele 
não compreenderia \u2014 em tentar explicar-lhe que o que Lefort e eu identificamos por 
esse termo pouco tem a ver com o uso que dele fazem Deleuze e Guattari. Deixemos 
isso de lado. De todo modo, essas idéias são suspeitas a seus olhos porque a 
burguesia as aplaude, e ele faz o que for preciso "para que a burguesia seja a única a 
aplaudi-las". 
Já ele, Godelier, é aplaudido pelo proletariado. A suas altivas declarações, 
quantas ovações da periferia! Reconheçamos que há algo de comovente (e de 
inesperado) nessa ruptura ascética: ele renuncia à Universidade da burguesia, a suas 
pompas e carreiras, a suas obras e promoções.