pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais133 seguidores
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um exercício efetivo 
do poder por uma parte da sociedade sobre o resto, estamos confrontados com uma 
sociedade dividida, isto é, uma sociedade com Estado (mesmo se a {?} do Déspota 
não é muito grande). A divisão social em dominantes e dominados é, de uma ponta a 
outra, política, ela reparte os homens em Senhores do poder e Súditos do poder. A 
economia, o tributo, a dívida, o trabalho alienado aparecem como signos e efeitos da 
divisão política segundo o eixo do poder, conforme mostrei bem noutra parte (e 
Godelier não é o último a aproveitar-se do que escrevi, à p. 22 por exemplo, mas sem 
citar-me, o safado... Como dizia Kant, há quem não goste de pagar sua dívida). A 
sociedade primitiva é não dividida porque não possui órgão separado do poder 
político. A divisão social passa primeiramente pela separação entre a sociedade e o 
órgão {?} do poder. Logo, toda sociedade não primitiva (isto é, dividida) comporta, 
mais ou menos desenvolvida, a figura do Estado. Lá onde há senhores, lá onde há 
súditos que lhes pagam tributo, lá onde há dívida, também há poder, também há 
Estado. Obviamente, entre a figura mínima do Estado, tal como a encarnavam certas 
realezas polinésias, africanas ou outras, e as formas mais estabelecidas do Estado 
(ligadas, entre outras coisas, à demografia, ao fenômeno urbano, à divisão do 
trabalho, à escrita etc.) existem consideráveis graus na intensidade do poder exercido, 
na intensidade da opressão sofrida, o grau último sendo atingido pelo tipo de poder 
exercido por fascistas e comunistas: aí o poder do Estado é total, a opressão absoluta. 
Mas permanece, irredutível, este ponto central: assim como não se pode pensar a 
sociedade indivisa sem a ausência do Estado, tampouco se pode pensar a sociedade 
dividida sem a presença do Estado. E refletir sobre a origem da desigualdade, da 
divisão social, das classes, da dominação, é refletir no campo da política, do poder, 
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do Estado, e não no campo da economia, da produção etc. A economia engendra-se a 
partir do político, as relações de produção vêm das relações de poder, o Estado 
engendra as classes. 
 
Uma vez saboreado o espetáculo de toda essa farsa, abordemos agora a questão 
importante: o que vem a ser o discurso marxista em antropologia? Eu falava, ao 
iniciar este texto, da nulidade radical da etnologia marxista (leiam, leitores, as obras 
de Meillassoux, Godelier e companhia: é edificante). Radical, ou seja, desde o ponto 
de partida. E por quê? Porque esse discurso não é um discurso científico (isto é, 
preocupado com a verdade), mas um discurso puramente ideológico (isto é, 
preocupado com a eficácia política). Para ver com clareza, convém primeiro 
distinguir entre o pensamento de Marx e o marxismo. Marx foi, com Bakunin, o 
primeiro crítico do marxismo. O pensamento de Marx é uma grandiosa tentativa (às 
vezes bem, às vezes mal sucedida) de pensar a sociedade de seu tempo (o capitalismo 
ocidental) e a história que a fez surgir. O marxismo contemporâneo é uma ideologia a 
serviço de uma política. De modo que os marxistas nada têm a ver com Marx. E eles 
são os primeiros a reconhecer. Godelier e Meillassoux não se tratam de impostores 
pseudo-marxistas? É inteiramente verdade, estou de acordo com eles, ambos têm 
razão. Descaradamente, os dois se valem da barba de Marx para melhor impingir sua 
mercadoria. Belo exemplo de publicidade enganosa. Mas será preciso mais de um {?} 
para desonrar um Marx. 
O marxismo pós-marxiano, ao tornar-se uma ideologia dominante do movimento 
operário, tornou-se o inimigo principal do movimento operário, constituiu-se como a 
forma mais arrogante daquilo que o século XIX produziu de mais estúpido: o 
cientificismo. Em outras palavras, o marxismo contemporâneo auto-institui-se como 
o discurso científico sobre a história e a sociedade, como o discurso que enuncia as 
leis do movimento histórico, as leis de transformação das sociedades que se 
engendram umas a partir das outras. Logo, o marxismo pode falar de todo tipo de 
sociedade, uma vez que conhece, de antemão, seu princípio de funcionamento. Mas 
tem mais: o marxismo deve falar de todo tipo de sociedade possível ou real, pois a 
universalidade das leis que ele descobre não admite nenhuma exceção. Caso 
contrário, é a doutrina em bloco que vem abaixo. Conseqüentemente, a fim de manter 
não apenas a coerência mas a existência mesma desse discurso, é imperativo para os 
marxistas formular a concepção marxista da sociedade primitiva, constituir uma 
antropologia marxista. Sem o quê não haveria teoria marxista da história, mas apenas 
a análise de uma sociedade particular (o capitalismo do século XIX) elaborada por 
um homem chamado Marx. 
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Mas eis os marxistas pegos na armadilha de seu marxismo. De fato, eles não têm 
escolha: precisam submeter os fatos sociais às mesmas regras de funcionamento e 
transformação que regem as outras formações sociais. Não poderia haver aqui dois 
pesos e duas medidas: se há leis da história, elas devem se aplicar tanto a seu ponto 
de partida (a sociedade primitiva) quanto à continuação de seu curso. Logo, deve 
haver um só peso, uma só medida. Qual a medida marxista dos fatos sociais? É a 
economia.4 O marxismo é um economismo, ele reduz o corpo social à infraestrutura 
econômica, o social é o econômico. E por isso os antropólogos marxistas são 
obrigados a extrair do corpo social primitivo o que, segundo eles, funciona noutras 
partes: as categorias de produção, de relações de produção, de desenvolvimento das 
forças produtivas, de exploração etc. A fórceps, como diz Adler. E é assim que os 
mais velhos exploram os mais jovens (Meillassoux), que as relações de parentesco 
são relações de produção (Godelier). 
Mas não voltemos a essas tolices. Quero apontar apenas o obscurantismo 
militante dos antropólogos marxistas. Eles falsificam sem o menor pudor os fatos, 
espezinham-nos e trituram-nos até nada mais restar. Substituem a realidade dos fatos 
sociais pela ideologia de seu discurso. Meillassoux, Godelier e companhia são os 
Lissenko das ciências humanas, insaciáveis em seu frenesi ideológico, em sua 
vontade de devastação da etnologia: até o fim, isto é, até a supressão pura e simples 
da sociedade primitiva como sociedade específica, como ser social independente. Na 
lógica do discurso marxista, a sociedade primitiva não pode simplesmente existir, não 
tem o direito à existência autônoma, seu ser só se determina em função do que virá 
depois dela, do que é seu futuro obrigatório. Para os marxistas, as sociedades 
primitivas são apenas, eles proclamam doutamente, sociedades pré-capitalistas. Eis aí 
o modo de organização da sociedade que foi o de toda a humanidade durante dezenas 
de milênios, mas para os marxistas, {?}. Para eles, a sociedade primitiva só existe na 
medida em que se reduz à figura da sociedade aparecida no final do século XVIII, o 
capitalismo. Antes disso nada conta, tudo é pré-capitalista. Esses simplórios não 
complicam a existência, ser marxista é repousante. Tudo se explica a partir do 
capitalismo, pois eles possuem a boa doutrina, a chave que abre a sociedade 
capitalista e portanto todas as formações sociais históricas. Resultado: para o 
marxismo em geral, o que {mede} a sociedade é a economia, e para os etnomarxistas, 
que vão ainda mais longe, o que mede a sociedade primitiva é a sociedade capitalista. 
E ponto final. Mas os que não recuam diante de um pouco de fadiga colocam a 
questão à maneira de Montaigne ou de La Boétie ou de Rousseau, e julgam o que 
 
4
 E, sobre esse ponto, há realmente em Marx uma raiz de marxismo, seria ridículo querer salvá-lo aqui dos marxistas. De fato, não se 
deixou ele escrever, em O Capital, que: {falta a citação no original}. 
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veio depois em relação ao que havia antes: o que são sociedades primitivas? Por que 
apareceram a desigualdade,