pierre clastres - arqueologia da violência
223 pág.

pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais133 seguidores
Pré-visualização50 páginas
0 que está acontecendo? 
24 
Um homem do grupo defronte veio raptar uma mulher casada. Os amigos do 
ofendido amontoara-se nas pirogas, atravessam o rio e vão reclamar justiça aos 
outros. E lá, durante pelo menos uma hora, o que se ouve é uma explosão de injúrias, 
vociferações histéricas, acusações aos berros. Dir-se-ia que vão se entrematar, no 
entanto a cena é antes divertida. As velhas dos dois campos, em particular, são 
verdadeiras provocadoras. Estimulam os homens a combater com uma irritabilidade e 
um furor terríveis. O marido enganado está imóvel, apoiado sobre sua borduna: ele 
desafia o outro a um combate singular. Mas o homem e sua amante fugiram, sem 
armas, para a floresta. Não há duelo, portanto. Aos poucos os clamores cessam e, 
muito singelamente, todos voltam para casa. Havia nisso muito de teatro, embora a 
sinceridade dos atores não pudesse ser posta em causa. Aliás, muitos homens exibem 
no crânio raspado grandes cicatrizes, adquiridas nesses duelos. Quanto ao marido 
traído, ele recuperará a mulher em poucos dias, quando ela, fatigada de fazer amor e 
jejuar, voltar ao domicílio conjugai. Então receberá um bom corretivo, pode estar 
certa disso. Os Yanomami nem sempre são ternos com suas esposas. 
 
Sem atingir o tamanho do Orinoco, o Ocamo é um grande rio. A paisagem é 
igualmente tediosa, floresta contínua, mas há menos monotonia na navegação: é 
preciso estar atento aos bancos de areia, às pedras à flor da água, às árvores enormes 
que barram a passagem. Estamos a caminho do Alto-Ocamo, território dos Shiitari, 
como são chamados pelos Yanomami do sul. Três índios estão conosco, entre eles 
Hebe-weeo líder dos Bichaansiteri da margem direita. No momento da partida, ele se 
apresentou vestido dos pés à cabeça, camisa comprida até os joelhos, calças e, o mais 
surpreendente, tênis de basquete. Normalmente anda nu, como quase todos, o pênis 
preso pelo prepúcio a um cordão atado em volta da cintura. Ele se explica: "Os 
Shiitari são grandes feiticeiros. Certamente vão colocar feitiços em todos os 
caminhos. Com isto protejo os pés". Quis vir conosco porque seu irmão mais velho, 
que ele não vê há pelo menos vinte anos, vive entre os Shiitari. Quanto a nós, 
queremos visitar grupos novos e fazer comércio com eles. Como a viagem toda se 
fará por água, podemos levar muitos objetos; não há limite de peso como quando se 
anda a pé. 
Aos poucos, a topografia muda. Uma cadeia de colinas domina a margem 
direita, a floresta cede lugar a uma espécie de savana com vegetação dispersa. 
Distingue-se nitidamente uma cascata que cintila aos raios do sol. No cardápio do 
jantar, um pato que Lizot matou na jornada. Exijo que ele seja assado e não fervido, 
como de hábito. Os índios consentem contra a vontade. Enquanto ele assa, afasto-me 
um pouco e deparo, a menos de duzentos metros, com um acampamento provisório. 
25 
Para um branco atento a toda a hostilidade da natureza, essa floresta pulula, na 
verdade, de uma vida humana secreta, ela é percorrida, sulcada, habitada em todos os 
cantos pelos Yanomami. É raro andar durante uma ou duas horas sem encontrar um 
vestígio de sua passagem: acampamentos de caçadores em expedição, de grupos em 
visita, de bandos ocupados com a coleta de frutos selvagens. 
O pato é assado, estorricado até, e comido. Mesmo sem sal é bom. Mas eis que, 
dez minutos mais tarde, nossos três companheiros põem-se a choramingar: "Estamos 
doentes! Ai, estamos doentes! \u2014 Mas o que aconteceu? \u2014 Vocês nos obrigaram a 
comer carne crua!". A má-fé deles é cínica, mas não há como deixar de rir desses 
rapagões que friccionam a pança e parecem prestes a chorar. Talvez chocados por 
nossas zombarias, eles decidem que, para se tratar, é preciso comer um pouco mais. 
Um vai pescar, outro (que sabe atirar) pega um fuzil e busca localizar uma perdiz de 
floresta que cantou nas proximidades... Um disparo e a perdiz é morta. Quanto ao 
pescador, não tarda a voltar com duas grandes piranhas. Os peixes-canibais pululam 
nessas águas. Mas, se a carne da perdiz é deliciosa, a desses peixes não vale nada. O 
que não impede os índios de ferver tudo junto no mesmo recipiente... Em breve, não 
restarão mais que ossos e espinhas. 
No dia seguinte, cruzamos com quatro pirogas. São Yanomami que descem o rio 
para comerciar com os grupos a jusante. Os barcos estão repletos de maços de droga. 
Todos os índios (pelo menos os homens) são grandes usuários de ebena, e os xamãs 
não saberiam operar sem absorvê-la (insuflada pelo nariz) em largas doses. Mas a 
árvore que produz essas sementes alucinógenas não cresce em toda parte, e alguns 
grupos, como os da Serra Parima, quase não as possuem. Já os Shiitari exercem um 
quase monopólio sobre a produção da droga, não tendo sequer necessidade de 
cultivar essas árvores, que brotam naturalmente nas savanas de sua região. Eles fazem 
a coleta e, de grupo para grupo, por trocas sucessivas, a ebena chega enfim aos que 
não a têm. 
Paramos alguns instantes para conversar com os índios. Três deles, dois jovens e 
um homem adulto, ao saber que vamos visitar sua tribo, saltam para nossa piroga e 
seguem viagem conosco. Pouco antes do meio-dia, chegamos a uma pequena 
enseada. É a corredeira de Aratapora. Segundo nossos passageiros, o chabuno ainda 
está bem distante. Portanto, é preciso descarregar a piroga, carregar as bagagens 
quinhentos metros acima e depois puxar a piroga nas águas espumosas. A correnteza 
é forte, mas somos muitos; mesmo assim, quase duas horas de esforço. Repousamos 
por um momento junto à enseada. É um lugar bonito, a floresta, menos sufocante, 
deixa livre uma praia de areia fina onde se destacam grandes pedras. Dezenas de 
estrias, algumas com profundidade de mais de dois centímetros, riscam a superfície 
26 
dessas pedras: elas servem para polir. Existe ali tudo o que é necessário à fabricação 
dos machados de pedra polida: a areia, a água, a pedra. Mas não são os Yanomami 
que ferem as rochas assim, eles não sabem trabalhar a pedra. De vez em quando, 
encontram na floresta ou à beira de um rio um machado polido, tido como obra dos 
espíritos do céu. Utilizam-no para esmagar as sementes de ebena num fundo de 
cerâmica. Quem foram esses pacientes polidores? Não se sabe. Em todo caso, antigos 
ocupantes do território atual dos Yanomami, provavelmente desaparecidos há 
séculos. Subsistem apenas, espalhados na região, vestígios de seu labor. 
Voltamos a carregar a piroga, partimos e, quinze minutos depois... chegamos! 
Na verdade, o chabuno fica muito próximo da corredeira, cujo rumor ainda se faz 
presente. Os índios mentiram para nós. O que eles queriam era apresentar-se aos seus 
acompanhados de brancos, num barco a motor. Deixaram que nos fatigássemos 
durante duas horas, quando podíamos facilmente concluir o percurso a pé. Agora, 
mais do que orgulhosos, eles sentem-se importantes. Os habitantes (uns cinqüenta) 
chamam da margem. Entre eles, um sujeito de barbicha, o irmão de nosso 
companheiro bichaansiteri. Os dois logo se reconhecem. O mais velho está muito 
excitado, agita-se, fala muito ao nos conduzir à sua casa. O mais moço não está 
menos feliz, mas, como convém a um visitante, não deixa transparecer. Estendido na 
rede, com a mão cobrindo a boca e uma fingida expressão de descontentamento no 
rosto, ele deixa passar um tempo. Depois, é servido o purê de bananas e pode-se 
relaxar. Tais são as regras da educação. Para celebrar o acontecimento, o irmão mais 
velho organiza uma sessão de droga e prepara a ebena. Vários homens se retiraram a 
seus abrigos e reaparecem mais ou menos vestidos. Dois rapazes robustos cobriram-
se de longos vestidos: eles não conhecem a diferença entre roupas masculinas e 
femininas. Nossos companheiros, mais acostumados ao comércio dos brancos, não se 
constrangem de zombar desses ignorantes. (É uma mania imbecil dos missionários 
distribuir aos índios