pierre clastres - arqueologia da violência
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pierre clastres - arqueologia da violência


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais133 seguidores
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roupas de que eles não têm a menor necessidade, ao contrário 
dos instrumentos metálicos, da linha de pesca etc, que lhes prestam inegáveis 
serviços facilitando-lhes o trabalho. Essas roupas, que não demoram a ficar imundas, 
são para seus novos proprietários meros bens de prestígio.) Aliás, a crítica vai mais 
longe, quando nos oferecem comida: "Essa gente é selvagem! Servem a seus 
convidados peixes que eles não limparam!". 
Esmagada, depois dessecada e misturada a uma outra substância vegetal, a 
ebena, fino pó esverdeado, está pronta para o consumo: enche-se com ela um tubo de 
caniço e a pessoa ao lado, com uma forte expiração, lança-a no sínus nasal do 
vizinho. Todos os homens, agachados em círculo, experimentam-na. Eles espirram, 
tossem, fazem caretas, cospem, babam: a droga é boa, satisfaz a expectativa, todos 
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estão contentes. Bom começo para uma sessão xamanística. O irmão visitante, que 
em seu grupo ocupa uma posição de líder, é também xamã de média categoria. No 
grau inferior, os pequenos xamãs medicam sua família, ou os cães. Obtidos dos 
brancos há não muito tempo, esses animais ocupam na hierarquia das criaturas um 
estatuto próximo da humanidade: como as pessoas, eles são queimados quando 
morrem. Mas os índios têm poucas atenções com eles: praticamente não os 
alimentam. Os cães são forçados a se encarregar da lixeira dos chabuno. 
Os considerados grandes xamãs ultrapassam todos os outros em experiência, 
educação, número de cantos que conhecem e de espíritos que podem invocar. Entre 
os Bichaansiteri, há um dessa qualidade. Ele celebra seu ofício quase diariamente, 
mesmo quando ninguém está doente (tendo assim necessidade de muita droga). É que 
é preciso proteger sem descanso a comunidade de todos os males e espíritos ruins que 
os xamãs dos grupos inimigos não cessam de mobilizar contra ela. Ele próprio não se 
priva de enviar ao exterior todas as doenças capazes de aniquilar os outros. Entre os 
índios, um povo de fantasmas atormenta o mundo dos homens. 
Os cantos, repetição obsessiva da mesma linha melódica, permitem no entanto 
alguns efeitos de voz: então eles oscilam, às vezes, entre o gregoriano e a música pop. 
Belos de ouvir, combinam-se com exatidão ao movimento lento da dança \u2014 vaivém 
com os braços cruzados ou erguidos \u2014 ao longo do abrigo. Maldito seja quem 
duvidar da seriedade desses ritos! (Afinal, trata-se da vida e da morte.) No entanto, o 
xamã detém-se de quando em quando, para dizer à sua mulher: "Leva depressa 
bananas ao nosso parente fulano de tal! Esqueceram de lhe dar". Ou então, 
aproximando-se de nós: "Escuta, Lizot! Estou precisando de um pouco de linha de 
pesca". E, muito singelamente, retoma seu ofício. 
Subimos um pouco mais o Ocamo para uma caçada noturna, o que nos vale um 
encontro inesperado. Um pequeno grupo yanoma-mi acaba de instalar-se à beira do 
rio, o chabuno ainda não está terminado. Somos seus primeiros brancos, o exotismo 
está de nosso lado. Para nós não há surpresa, eles não são muito diferentes dos outros. 
Todas as tribos possuem agora instrumentos metálicos, mesmo aquelas com as quais 
não se estabeleceu nenhum contato. De modo que, entre os grupos da margem do 
Orinoco e os do interior, as diferenças são pequenas: entre os primeiros, destaca-se 
uma aparência de mendicidade (devido às roupas) mas não muito profunda, já que a 
vida social e religiosa não foi de modo algum afetada (pelo menos até agora) pelas 
vãs tentativas dos missionários. Em suma, não há yanomami "civilizados" (com tudo 
o que esse estado significa de degradação repugnante) a serem opostos a yanomami 
ainda "selvagens", todos sendo igualmente guerreiros orgulhosos e pagãos. 
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Quatro jovens gesticulam na ribanceira. Acostamos. Eles estão beatificados e 
não o dissimulam. Sua excitação diante dos Nabe é tão grande que têm dificuldade de 
se exprimir e estalos de língua freiam a torrente das palavras, enquanto, com grandes 
tapas nas coxas, ritmam pequenos saltos no mesmo lugar. É um verdadeiro prazer vê-
los e ouvi-los jubilar assim. Simpáticos Shiitari. Na volta, algumas horas mais tarde, 
oferecemos a eles um dos três jacarés que Lizot matou. 
No dia da partida, trocamos nossos bens por droga. Não para uso pessoal, mas 
para levá-la às tribos da Serra Parima, muito desprovidas dela. Para nós será um 
excelente passaporte. O líder está contente, fez bons negócios com os companheiros 
de seu irmão, que lhe promete uma visita mais tarde. Em troca de todas as suas 
roupas (que sabe poder substituir facilmente junto aos missionários), ele obtém uma 
boa quantidade de ebena. No momento de se afastar da margem, um incidente: um 
dos dois rapazes que nos acompanharam por ocasião da subida pelo rio (deve ter treze 
ou catorze anos), salta bruscamente para dentro da piroga. Quer ir embora conosco, 
quer viajar. Uma mulher, sua mãe, atira-se à água para retê-lo. Ele pega então um 
pesado remo e tenta golpeá-la. Outras mulheres acodem e conseguem tirá-lo, louco de 
raiva, do barco. Ele morde com violência a mãe. A sociedade yanomami é muito 
liberal em relação aos rapazes. Permitem-lhes fazer quase tudo o que querem. 
Inclusive os encorajam, desde a primeira infância, a se mostrar violentos e agressivos. 
Os pequenos praticam brincadeiras geralmente brutais, coisa rara entre os índios, e os 
pais evitam consolá-los quando, tendo recebido uma bordoada na cabeça, acorrem 
berrando: "Mãe! Ele me bateu!" - "Bate mais forte nele!". O resultado - visado - dessa 
pedagogia é a formação de guerreiros. 
Passamos facilmente pela corredeira. Desfile ao contrário dos mesmos espaços, 
não mais interessante. Acampamento para passar a noite. Dormimos já há algumas 
horas quando desaba um aguaceiro. A toda pressa, desmontamos as redes e buscamos 
um precário abrigo debaixo de grandes folhas. A chuva passa, voltamos a deitar e a 
dormir. Uma hora depois, tudo recomeça: chuva, despertar em sobressalto, buscar 
abrigo etc. Desagradável noite de Ano Novo. 
 
De volta a Mavaca, ficamos sabendo o resultado do combate que, duas semanas 
antes, opusera os Patanawateri aos Hasubueteri. Triste balanço: quatro mortos, ao que 
parece, entre estes últimos (para um efetivo de quarenta a cinqüenta homens), três 
deles por armas de fogo. O que aconteceu? Os primeiros se aliaram, para esse ataque, 
com um outro grupo, os Mahekodoteri. São homens muito belicosos, em guerra 
permanente com quase todas as tribos da região. (Matariam de bom grado Lizot, que 
é amigo de seus inimigos.) Junto do chabuno deles está estabelecida uma das três 
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missões salesianas. O que mostra bem o fracasso dos padres, que não conseguiram, 
em quinze anos, atenuar em nada o ardor combativo dos índios. Tanto melhor. Essa 
resistência é sinal de saúde. 
O fato é que esses ferozes Mahekodoteri possuem três ou quatro fuzis, presente 
dos missionários, sob promessa de utilizá-los somente para a caça, em hipótese 
alguma na guerra. Mas vá convencer guerreiros a renunciar a uma vitória fácil! Não 
são santos. Desta vez, guerrearam como os brancos, mas contra as flechas de outros 
Yanomami. Não era imprevisível. Os assaltantes \u2014 deviam ser em torno de oitenta - 
dispararam, ao amanhecer, saraivadas de flechas sobre o chabuno, para depois se 
recolher na floresta. Mas, em vez de tomar na corrida o caminho de seu território, 
esperaram os outros. Quando um grupo é atacado, os guerreiros não podem deixar de 
se lançar na contra-ofensiva, sob pena de passar por covardes. Todos logo ficariam 
sabendo disso e seu chabuno se tornaria o alvo de outros grupos (para raptar as 
mulheres, roubar os bens e, simplesmente, pelo prazer da guerra). Os Hasubueteri 
caíram portanto na emboscada. Os fuzis, que não esperavam de modo algum, 
trovejaram, um homem caiu. Logo foi atingido por flechas que acabaram de matá-lo. 
Atordoados, seus companheiros retrocederam em desordem, lançando-se no Orinoco