AFETOS EM JOGO NOS TRIBUNAIS DO JÚRI
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AFETOS EM JOGO NOS TRIBUNAIS DO JÚRI


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídicas II11 materiais133 seguidores
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São Paulo em Perspectiva, v. 21, n. 2, p. 70-79, jul./dez. 2007
Como traduzir em palavras o que nelas parece não caber e, por isso mesmo, se expressa através de olhares que se 
procuram e se evitam, de sutis movimentos de lábios, sobrancelhas que se arqueiam e se franzem, mãos que se 
esfregam, dedos que tamborilam, ombros que se curvam e se erguem, corpos que caminham, acomodam-se 
em cadeiras ou permanecem estáticos, tudo isso em interação ininterrupta com o ambiente? Como anotar 
entonações de voz interligadas a uma gestualidade que, por sua vez, relaciona-se a um texto e 
a um contexto de contínua troca de mensagens? Enfim, como registrar o que, como diria 
Lévi-Strauss, os homens, habitualmente, não pensam em fixar na pedra ou no papel? 
Schritzmeyer (2002, p. 152)
Estas questões aplicam-se a inúmeros contextos, se-jam estes jurídicos-judiciais ou não, tanto que o antropólogo norte-americano Clifford Geertz (1926-2006) levantou perguntas semelhantes, em 1958, ao estudar brigas de galos, em Bali, e ao tentar descrever a \u201cdinâmica 
precisa do movimento de apostas\u201d \u2014 as quais eram, segundo ele, o aspecto mais intrigante das lutas, mais 
complicado e, \u201cdadas as condições agitadas em que ocorrem, mais difícil de estudar\u201d. Sua conclusão foi a de 
que \u201cseria necessário, talvez, registrar a situação através de filmes, com múltiplos observadores, para ter uma 
noção precisa\u201d. Como não fez isso, considerou seu trabalho uma \u201cabordagem impressionista\u201d de um \u201cetnó-
grafo solitário\u201d (GEERTZ, 1978, p. 295, nota de rodapé n. 15).
Resumo: Neste artigo, afirmo a importância de realizarmos experimentos antropológico-etnográficos em espaços onde se desenvolvem dinâmicas jurídico-judiciais, 
tais como plenários de Tribunais do Júri. Exponho algumas percepções de julgamentos pelo Júri entendidos como rituais lúdicos, ou seja, \u201cjogos\u201d. 
Concluo que regras internalizadas pelos diversos participantes dos julgamentos são ativadas e vivenciadas no transcorrer das sessões e que 
essas vivências podem não só reiterar modelos como suscitar novos significados e compreensões do próprio jogo e de suas regras.
Palavras-chave: Etnografia. Lógicas interpretativas. Multiplicidade de significados. Jogos e suas regras. Tribunais do Júri.
Abstract: In this article, I affirm the importance of carrying out ethnographic-anthropological experiments in such spaces as plenary sessions of jury courts, 
where juridical-judiciary dynamics may be observed to develop. I will present some perceptions of jury hearings taken as ludic rituals, or games. 
In conclusion, one observes how rules internalized by the various participants are activated and experienced as sessions unfold. These 
experiences may not only reiterate existing models but also generate new meanings and understandings of the game and its rules.
Key words: Ethnography. Interpretative logical forms. Multiple meanings. Games and rules. Jury Courts.
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AnA LúciA PAstore schritzmeyer
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São Paulo em Perspectiva, v. 21, n. 2, p. 70-79, jul./dez. 2007
Me vi diante de um quadro semelhante quando, no 
início de meu trabalho de doutorado em antropologia 
social, comecei a freqüentar plenários dos Tribunais 
do Júri da cidade de São Paulo, na tentativa de perce-
ber como pessoas que ali atuavam \u2013 réus, seus advo-
gados, promotores, juízes, jurados, policiais militares, 
funcionários do fórum, expectadores \u2013 percebiam 
esse acontecimento e se percebiam nele.1 Várias ve-
zes, durante os quatro anos em que realizei o traba-
lho de campo (1997, 1998, 1999 e 2001), geralmente 
na posição de expectadora de sessões de julgamento 
pelo Júri, pensei no quanto seria enriquecedor regis-
trar sua dinâmica através de meios audiovisuais e plu-
rais, com imagens e sons advindos da perspectiva das 
várias pessoas presentes, como se câmeras fossem 
colocadas nas mãos de cada uma delas para capturar, 
simultaneamente, tanto em closes quanto em grande 
angular, diversas expressões. Mas, mesmo se esses re-
gistros ocorressem e se as mais diversas expressões 
ficassem registradas, há algo que palavras, imagens e 
sons, por si sós, não \u201crevelam\u201d: os afetos envolvidos. 
Ou eles são de algum modo experimentados, ou não 
há como, depois, registrá-los. 
Etnografias E afEtos
Afetos, de acordo com a antropóloga Jeanne Favret-
Saada, constituem uma rede particular de comunica-
ção, da qual só é possível participar quem se permite 
\u201cser afetado\u201d. Não se trata, segundo ela, de nos co-
locarmos no lugar do outro e muito menos de nos 
identificarmos com seu ponto de vista, mas de ser-
mos, do nosso próprio \u201clugar\u201d, capazes de nos co-
municar com o outro e participar de sua rede particu-
lar de comunicação. 
Aceitar ser afetado supõe, todavia, que se assuma o 
risco de ver seu projeto de conhecimento se desfazer. 
Pois se o projeto de conhecimento for onipresente, 
não acontece nada. Mas se acontece alguma coisa 
e se o projeto de conhecimento não se perde em meio 
a uma aventura, então uma etnografia é possível 
(FAVRET-SAADA, 2005, p. 160).
Ainda segundo Favret-Saada (2005), etnografias 
possuem quatro características:
devem al\u2022 cançar comunicações não verbais e invo-
luntárias, ou seja, ir além de questionários, formu-
lários e entrevistas prévia e tecnicamente prepara-
dos e passíveis de controle pelo pesquisador;
o pesquisador deve tolerar viver uma espécie de \u2022 
schize entre o que escapa a seu projeto científico 
(afetações) e o que precisa se adequar às teorias e 
modelos;
deve-se assumir que existem tempos distintos e \u2022 
de impossível sobreposição no fazer etnográfico, 
pois \u201cno momento em que somos mais afetados, 
não podemos narrar a experiência; no momento 
em que a narramos não podemos compreendê-la. 
O tempo da análise virá mais tarde\u201d;
\u201cos materiais recolhidos são de uma densidade \u2022 
particular, e sua análise conduz inevitavelmente 
a fazer com que as certezas científicas mais bem 
estabelecidas sejam quebradas\u201d. 
Nas sessões de julgamento pelo Júri, ficou claro, 
logo de início, que, enquanto eu percebia determi-
nados detalhes, outros eu perdia, e quando tentava 
acompanhar o conjunto, não captava os pormeno-
res. O que mais me pareceu assustador foi constatar 
que, quanto mais me sentia envolvida e pessoalmente 
afetada, menos eu conseguia registrar o que quer que 
fosse, pois o ato do registro soava como uma rup-
tura com aquele jogo de afetos desprovidos de re-
presentações, significava interromper aquele fluxo de 
comunicação não verbal e, portanto, não passível de 
transcrição imediata. 
Com o transcorrer do campo e o passar dos meses, 
reaprendi uma lição básica \u2013 e difícil \u2013 de qualquer 
vertente metodológica \u201cnão positivista\u201d: focalizar um 
objeto e nele destacar o que interessa a um determi-
nado recorte analítico é construir esse objeto. Seus 
limites, portanto, não são seus, mas os de quem obser-
va. Compete, portanto, ao observador que deseja não 
se iludir com suas próprias observações, observar-se 
ao observar. 
Em razão de toda essa reflexão, cabe esclarecer 
que entendi e entendo por \u201cetnografia de sessões de 
Júri\u201d, assim como por outras etnografias (de cartó-
rios, de audiências e de quaisquer contextos jurídicos-
judiciais), o conjunto de impressões, observações e 
registros acumulados em situações peculiares de in-
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serção simbólica. Creio que quanto menos solitárias 
forem essas etnografias e quanto mais pudermos 
compartilhá-las com outros colegas e mesmo com 
nossos próprios interlocutores, mais estaremos pró-
ximos de uma compreensão de sua densidade. 
Como, durante meu doutorado, pude trocar ape-
nas algumas poucas impressões com colegas e com 
meus entrevistados a respeito do que eu percebia