Fundamentação da Metafísica dos Costume - Kant
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Fundamentação da Metafísica dos Costume - Kant


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efeito, como ele de nenhuma maneira se
produz a si mesmo, nem recebe o conceito que tem de si a priori, mas empiricamente, é
natural que não possa igualmente adquirir conhecimento de si mesmo senão pelo senso
íntimo, isto é, somente mediante a aparência fenomenal de sua natureza e pelo modo
como sua consciência é afetada. Ao. mesmo tempo, porém, deve admitir
necessariamente, acima desta modalidade de seu próprio sujeito composto unicamente
de fenômenos, alguma outra coisa que lhe sirva de fundamento, a saber o seu próprio
Eu, seja qual for a maneira como este possa ser constituído em si mesmo; por
conseguinte, no concernente à simples percepção e à capacidade de receber as
sensações, deve ele considerar-se como fazendo parte do mundo sensível, ao passo que
naquilo que pode ser atividade pura (isso é, naquilo que chega à consciência, não por
influxo exercido sobre os sentidos, senão imediatamente), deve considerar-se como
fazendo parte do mundo inteligível, do qual todavia ele nada mais conhece.
O homem que reflete deve chegar à mesma conclusão (452), relativamente todas as
coisas que se lhe possam apresentar: é presumível até que a inteligência mais vulgar seja
capaz de formular semelhante conclusão, pois é notório ser ela muito inclinada a supor,
por detrás dos objetos dos sentidos, alguma realidade invisível que age por si mesma.
Mas, por outro lado, ela corrompe esta tendência, pelo fato de o intelecto se representar
este invisível debaixo de uma forma sensível, isto é, querendo fazer dele um objeto de
intuição, e conseguintemente não tira daí nenhuma vantagem.
Mas o homem encontra realmente em si uma faculdade, por meio da qual se distingue
de todas as outras coisas sensíveis, até mesmo de si próprio, enquanto pode ser afetado
por objetos, e esta faculdade é a razão. Esta, como espontaneidade pura, é ainda
superior ao entendimento; porque, embora este seja também espontaneidade e não
contenha só, como a sensibilidade, representações que brotam apenas sob a influência
das coisas (conseguintemente, quando se é passivo), todavia ele não pode tirar de sua
atividade nenhuns outros conceitos, a não ser os que servem unicamente para submeter
o regras as representações sensíveis e, desse modo,,as reunir numa consciência; e sem
este uso da sensibilidade, ele nada poderia pensar; ao invés, a razão manifesta naquilo,
a que se dá o nome de idéias, uma espontaneidade tão pura, que por essa forma se alça
muito acima de tudo quanto a sensibilidade lhe pode subministrar, e manifesta sua
principal função, distinguindo um do outro, o mundo sensível do mundo inteligível, e
marcando assim ao próprio entendimento os seus limites.
Por tal motivo, um ser racional deve, enquanto inteligência (e, portanto, não por suas
faculdades inferiores), considerar-se como pertencente, não ao mundo sensível, mas ao
mundo inteligível; tem, por conseguinte, dois pontos de vista, desde os quais pode
considerar-se a si próprio e conhecer as leis do exercício de suas faculdades, isto é, de
todas as suas ações: de um lado. enquanto pertencente ao mundo sensível, ele está
sujeito a leis da natureza (heteronímia); do outro lado, enquanto pertencente ao mundo
inteligível, está sujeito a leis independentes da natureza, não empíricas, senão fundadas
unicamente na razão.
Na qualidade de ser racional, portanto pertencente ao mundo inteligível, o homem não
pode conceber a causalidade de sua própria vontade senão sob a idéia da liberdade; pois
a independência a respeito das causas determinantes do mundo sensível (independência,
que a razão deve sempre atribuir a si) é liberdade. Com a idéia, da liberdade está
inseparavelmente unido o conceito de autonomia, com este está unido o (453) princípio
universal da moralidade, que idealmente serve de fundamento a todas as ações dos seres
racionais,, da mesma maneira que a lei da natureza serve de fundamento a todos os
fenômenos.
Deste modo se desfaz a suspeita, acima insinuada, segundo a qual estaria contido
secretamente um círculo vicioso na nossa maneira de concluir da liberdade para a
autonomia e desta para a lei moral. Com efeito, podia julgar-se que propúnhamos como
fundamento a idéia da liberdade, só tendo em mira a lei moral, para em seguida concluir
novamente a lei moral, partindo da liberdade; que, por conseguinte, não podíamos dar
absolutamente nenhuma demonstração desta lei, e que esta era apenas como que a
imposição de um princípio, que as almas bem pensantes de bom grado nos concederiam,
mas que nós nunca poderíamos estatuir como proposição demonstrável. Agora vemos
bem que, quando nos consideramos como livres, nos transportamos para o mundo
inteligível como membros desse mundo, e que reconhecemos a autonomia da vontade
juntamente com a sua conseqüência, a moralidade; mas, se nos imaginamos como
sujeitos ao dever, consideramo-nos como pertencentes, a um tempo, ao mundo sensível
e ao mundo inteligível.
Como é possível um imperativo categórico ?
O ser racional pertence, como inteligência, ao mundo inteligível, e só enquanto causa
eficiente pertencente a este mundo, ele dá o nome de vontade à sua causalidade. Por
outro lado, ele tem ainda consciência de si mesmo, como fazendo parte cio mundo
sensível, no qual suas ações são consideradas como simples manifestações fenomenais
dessa causalidade; é-lhe todavia impossível compreender como são possíveis estas
ações provenientes de uma causalidade que não conhecemos; é, pois, forçado a encarar
suas ações, enquanto pertencentes ao mundo sensível, como determinadas por outros
fenômenos, a saber, por desejos e inclinações. Se eu fosse membro unicamente do
mundo inteligível, minhas ações seriam perfeitamente conformes ao princípio da
autonomia da vontade pura; se eu fosse apenas parte do mundo sensível, elas deveriam
ser encaradas como inteiramente conformes à lei natural dos desejos e das inclinações, e
por conseguinte à heteronímia da natureza. (No primeiro caso, as minhas ações
estribariam no princípio supremo da moral; no segundo caso, no princípio da
felicidade). Mas, dado que o mundo inteligível contém o fundamento do mundo sensível
e, conseqüentemente, também das leis do mesmo, e uma vez que relativamente à minha
vontade (que pertence inteiramente ao mundo inteligível), ele é um princípio imediato
de legislação e, portanto, deve (454) também ser pensado como tal, eu, como inteligível,
embora seja, por outra parte, um ser pertencente ao mundo sensível, deverei reconhecer-
me sujeito à lei do primeiro, isto é, a razão, que contém esta lei na idéia da liberdade, e
portanto sujeito igualmente à autonomia da vontade; conseqüentemente, deverei
considerar as leis do mundo inteligível como imperativos para mim, e, como deveres, as
ações conformes a este princípio.
Deste modo, são possíveis imperativos categóricos, pelo motivo de a idéia da liberdade
me fazer membro de um mundo inteligível. Donde resulta que, se eu fosse apenas isso,
todas as minhas ações seriam sempre conformes à autonomia da vontade; como porém,
ao mesmo tempo, me considero como membro do mundo sensível, é preciso dizer que
elas devem ser conformes; este "dever" categórico representa uma proposição sintética a
priori, pois que a uma vontade influenciada por desejos sensíveis acresce ainda a idéia
desta mesma vontade, mas enquanto pertencente ao mundo inteligível, ou seja, pura e
prática por si mesma, a qual contém a condição suprema da primeira segundo a razão;
pouco mais ou menos, do mesmo modo que às intuições do mundo sensível se
acrescentam os conceitos do entendimento, que por si mesmos nada mais significam do
que a forma de uma lei em geral, e que, por isso, tornam possíveis proposições sintéticas
a priori, sobre as quais repousa todo conhecimento de uma natureza.
O uso prático, que os homens comumente fazem da razão, confirma a exatidão desta
dedução. Não existe ninguém, nem sequer o pior celerado, contanto que esteja
habituado a servir-se da razão, que,