Genealogia_da_Moral

Genealogia_da_Moral


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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caso, não foi
necessariamente um "homem inestético". Tenhamos uma opinião mais alta da inocência
de nossos estetas que é refletida em tais argumentos; creditemos em honra de Kant, por
exemplo, o que nos ensina sobre a peculiarida de do tato, com a ingenuidade de um pastor
de aldeia! \u2013 E aqui voltamos a Schopenhauer, que teve com as artes uma aproximação
maior do que Kant, e no entanto permaneceu na órbita da definição kantiana: como
aconteceu isto? O fato é bem curioso: ele interpretou a expressão "sem interesse" da
maneira mais pessoal, a partir de uma experiência que para ele devia ser das mais
regulares. Sobre poucas coisas Schopenhauer fala de modo tão seguro como sobre o efeito
da contemplação estética: para ele, ela age precisamente contra o interesse sexual, assim
como lupulina e cânfora; ele nunca se cansou de exaltar esta libertação da "vontade"
como a grande vantagem e utilidade do estado estético. Seríamos mesmo tentados a
perguntar se a sua concepção básica de "vontade e representação", o pensamento de que
uma salvação da "vontade" é possível somente através da "representação", não teve
origem numa generalização dessa experiência sexual. (Em todas as questões relativas à
filosofia de Schopenhauer, diga-se de passagem, não se deve perder de vista que ela é
concepção de um jovem de 26 anos; de sorte que não participa apenas do que é específico
de Schopenhauer, mas também do que é específico dessa idade da vida.) Escutemos, por
exemplo, uma das mais explícitas passagens, entre as muitas que escreveu em louvor do
estado estético (O mundo como vontade e representação, m, seção 38), escutemos o tom,
o sofrimento, a felicidade, a gratidão com que foram ditas estas palavras: "Esse é o estado
sem dor que Epicuro louvava como bem supremo e estado dos deuses; por um momento
nos subtraímos à odiosa pressão da vontade, celebramos o sabá da servidão do querer, a
roda de Íxion se detém...". Que veemência das palavras! Que imagens de tormenta e de
longo desgosto! Que contraposição quase patológica entre "um momento" e a "roda de
Íxion", a "servidão do querer", a "odiosa pressão da vontade"! - Mas supondo que
Schopenhauer tivesse mil vezes razão no que toca à sua pessoa, que se ganharia com isso
para a compreensão da natureza do belo? Schopenhauer descreveu um efeito do belo, o
efeito acalmador da vontade - será ele regular? Stendhal, como vimos, natureza não
menos sensual, mas de constituição mais feliz que Schopenhauer, destaca outro efeito do
belo: "o belo promete felicidade"; para ele, o que ocorre parece ser precisamente a
excitação da vontade ("do interesse") através do belo. E não se poderia, por fim, objetar a
Schopenhauer mesmo que ele errou em se considerar kantiano neste ponto, que de modo
algum compreendeu kantianamente a definição kantiana do belo - que também a ele lhe
agrada o belo por "interesse", inclusive pelo mais forte e mais pessoal interesse, o do
torturado que se livra de sua tortura?... E, para voltar à nossa primeira questão, "que
significa um filósofo render homenagem ao ideal ascético?", eis aqui ao menos uma
primeira indicação: ele quer livrar-se de uma tortura.
7.
Guardemo-nos de fazer uma expressão sombria, ao ouvir a palavra "tortura": precisamente
neste caso há muito a descontar, muito a subtrair - há inclusive do que rir. Sobretudo não
subestimemos o fato de que Schopenhauer, que tratava realmente como inimigo pessoal a
sexualidade (incluindo seu instrumento, a mulher, este instrumentum diaboli [instrumento do
diabo]), necessitava de inimigos para ficar de bom humor; o fato de que amava as palavras
furiosas, biliosas e de cor escura; de que se enraivecia por se enraivecer, por paixão; de que
teria ficado doente, teria se tornado um pessimista (- O que não era, por mais que o
desejasse) sem os seus inimigos, sem Hegel, sem a mulher, a sensualidade e toda a vontade
de existência, de permanência. De outro modo ele não teria permanecido, pode-se apostar,
ele teria escapado: mas seus inimigos o retiveram, seus inimigos sempre o seduziram à
existência, sua cólera era, como para os cínicos da Antigüidade, seu bálsamo, seu descanso,
sua compensação, seu remédio contra o nojo, sua felicidade. Isto quanto ao mais pessoal no
caso de Schopenhauer; por outro lado, encontra-se nele também algo típico - e aqui
voltamos ao nosso problema. Existe incontestavelmente, desde que há filósofos na terra, e
em toda parte onde houve filósofos (da Índia à Inglaterra, para tomar os dois pólos opostos
da aptidão para a filosofia), peculiar irritação e rancor dos filósofos contra a sensualidade -
Schopenhauer é apenas a sua mais eloqüente e, tendo-se ouvidos para isso, a sua mais
cativante e arrebatadora erupção -; existe igualmente uma peculiar parcialidade e afeição dos
filósofos pelo ideal ascético, sobre isso e diante disso não há como se iludir. Ambas as
coisas pertencem, como se disse, ao tipo; se faltam num filósofo, ele é apenas - tenha-se a
certeza - um "por assim dizer". Que significa isto? Pois é preciso interpretar este fato: em si
ele está aí, estúpido em toda a eternidade, como toda "coisa em si". Todo animal, portanto
também Ia bête philosophe [besta filósofo], busca instintivamente um optimum de condições
favoráveis em que possa expandir inteiramente a sua força e alcançar o seu máximo de
sentimento de poder; todo animal, também instintivamente e com uma finura dos sentidos
que está "acima de toda razão", tem horror a toda espécie de intrusões e obstáculos que se
colocam ou poderiam colocar-se em seu caminho para o optimum (- não falo do caminho
para a "felicidade", mas do caminho para o poder, para o ato, para a mais poderosa
atividade, na maioria dos casos, realmente, seu caminho para a infelicidade). De tal maneira
o filósofo tem horror ao casamento, e a tudo o que a ele poderia conduzir - o casamento
como obstáculo e fatalidade em seu caminho para o optimum. Qual grande filósofo foi casa-
do? Heráclito, Platão, Descartes, Spinoza, Leibnitz, Kant, Schopenhauer não o foram; mais
ainda, não podemos sequer imaginá-loscasados. Um filósofo casado é coisa de comédia, eis
minha tese; e aquela exceção, Sócrates \u2013 o malicioso Sócrates parece ter-se casado
ironice[por ironia], justamente para demonstrar essa tese. Qualquer filósofo falaria como
Buda certa vez, ao lhe anunciarem o nascimento de um filho: "Nasceu-me Râhula, um
grilhão foi forjado para mim" (Râhula significa aí "um pequeno demônio"); para todo
"espírito livre" deveria chegar uma hora de reflexão, supondo que tivesse tido antes uma
hora irrefletida, como uma vez ocorreu ao próprio Buda - "estreita e opressiva", pensou
consigo, "é a vida no lar, local de impureza; a liberdade consiste em abandonar o lar": "e,
assim pensando, abandonou-o". No ideal ascético são indicadas tantas pontes para a
independência, que um filósofo não consegue ouvir sem júbilo e aplauso interior a história
desses homens resolutos que um dia disseram Não a toda servidão e foram para um deserto
qualquer: mesmo supondo que tenham sido apenas grandes asnos e o inteiro oposto de um
grande espírito. Que significa então o ideal ascético para um filósofo? Minha resposta é - já
se terá percebido: o filósofo sorri ao seu encontro, como a um optimum das condições da
mais alta e ousada espiritualidade - ele não nega com isso "a existência", antes afirma a sua
existência, apenas a sua existência, e isso talvez ao ponto de não lhe ser estranho este desejo
perverso: pereat mundus, fiat philosophia, fiat philosophus, fiam!... [pereça o mundo, faça--
se a filosofia, faça-se o filósofo, faça-se eu!].
8.
Vê-se que não são juízes e testemunhas imparciais do valor do ideal ascético, esses
filósofos! Eles pensam em si que lhes importa "o santo"! Pensam no que lhes é mais indis-
pensável: estar livre de coerção, perturbação, barulho, de negócios, deveres, preocupações;
lucidez na cabeça; dança, salto e vôo do pensamento; um bom ar, fino, claro, livre, seco,
como