Genealogia_da_Moral

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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.825 seguidores
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essa vontade de poder precisamente dos mais fracos! A mulher doente em
especial: ninguém a supera em refinamento para dominar, oprimir, tiranizar. Nisso a mulher
doente nada poupa, vivo ou morto, ela desenterra de novo as coisas mais profundamente
enterradas (os bogos dizem: "a mulher é uma hiena"),20 Olhe-se o interior de cada família,
de cada corporação, de cada comunidade: em toda parte a luta dos enfermos contra os sãos -
uma luta quase sempre silenciosa, com pequenos venenos, com agulha das, com astuciosa
mímica de mártir, por vezes também com esse farisaísmo de doente de gestos estrepitosos,
que ama mais que tudo encenar a "nobre indignação". Até nos espaços consagrados da
ciência gostaria de fazer-se ouvir esse rouco latido de indignação dos cães doentes, a mordaz
fúria e falsidade de tais "nobres" fariseus (- aos leitores que têm ouvidos torno a lembrar
aquele apóstolo da vingança berlinense, Eugen Dühring, que na Alemanha de hoje faz o uso
mais indecente e repugnante dos "tambores" da moral: Dühring, o maior fanfarrão da moral
que existe atualmente, mesmo entre seus iguais, os anti-semitas). Estes são todos homens do
ressentimento, estes fisiologicamente desgraçados e carcomidos, todo um mundo fremente
de subterrânea vingança, inesgotável, insaciável em irrupções contra os felizes, e também em
mascaramentos de vingança, em pretex tos para vingança: quando alcançariam realmente o
seu último, mais sutil, mais sublime triunfo da vingança? lndubitavelmente, quando
lograssem introduzir na consciência dos felizes sua própria miséria, toda a miséria, de modo
que estes um dia começassem a se envergonhar da sua felicidade, e dissessem talvez uns aos
outros: "é uma vergonha ser feliz! existe muita miséria!"... Mas não poderia haver erro maior
e mais fatal do que os felizes, os bem logrados, os poderosos de corpo e alma começarem a
duvidar assim do seu direito à felicidade. Fora com esse "mundo ao avesso"! Fora com esse
debilitamento do sentimento! Que os doentes não tornem os sadios doentes - isto seria o
debilitamento - deveria ser o ponto de vista supremo na Terra - mas isto requer, acima de
tudo, que os sadios permaneçam apartados dos doentes, guardados inclusive da vista dos
doentes, para que não se confundam com os doentes. Ou seria por acaso sua tarefa serem
enfermeiros e médicos?... Não poderia haver pior maneira de desconhecer e negar a sua
tarefa - o superior não deve rebaixar-se a instrumento do inferior, o pathos da distância deve
manter também as tarefas eternamente afastadas! Seu direito de ser o privilégio do sino de
plena ressonância diante daquele falho, dissonante, é afinal mil vezes maior: eles somente
são os fiadores do futuro, eles somente estão comprometidos com o futuro db homem. O que
eles podem, o que eles devem, jamais poderiam poder e dever os enfermos: mas para que
eles possam o que apenas eles devem, como poderiam ainda fazer-se de médicos, con-
soladores, "salvadores" dos enfermos?... Ar puro, portanto! Ar puro! E afastamento de todos
os hospícios e hospitais da cultura! E portanto boa companhia, nossa companhia! Ou solidão,
se tiver de ser! Mas afastamento dos maus odores da degradação interna e da oculta carcoma
da doença!... Para que nós mesmos, meus amigos, ao menos por algum tempo ainda nos
defendamos das duas mais terríveis pragas que podem estar reservadas para nós
precisamente - o grande nojo do homem e a grande compaixão pelo homem!...
15.
Compreendendo-se em toda a profundidade - e eu exijo que precisamente aqui se
apreenda fundo, se vá ao fundo - o quanto não pode ser tarefa dos sãos assistir
doentes, tornar sãos doentes, compreende-se assim uma necessidade mais - a
necessidade de médicos e enfermeiros que sejam eles mesmos doentes: e agora temos e
apreendemos com ambas as mãos o sentido do sacerdote ascético. A ele! devemos
considerar o salvador, pastor e defensor predestinado dá rebanho doente: somente
então entenderemos a , sua tremenda missão histórica. A dominação sobre os que
sofrem é o seu reino, para ela o dirige seu instinto, nela encontra ele sua arte mais
própria, sua mestria, sua espécie) de felicidade. Ele próprio tem de ser doente, tem de
ser aparentado aos doentes e malogrados desde a raiz, para entendê-los - para com eles
se entender; mas também tem de ser forte, ainda mais senhor de si do que dos outros,
inteiro em sua vontade de poder, para que tenha a confiança e o temor dos doentes,
para que lhes possa ser amparo, apoio, resistência, coerção, instrução, tirano, deus. Ele
tem que defendê-lo, ao seu rebanho - contra quem? Contra os sãos, não há dúvida, e
também contra a inveja que têm dos sãos; ele tem que ser o opositor e desprezador
natural de toda saúde e toda potência tempestuosa, dura, desenfreada, violenta e
rapace. O sacerdote é a primeira forma do animal mais delicado, que despreza mais
facilmente do que odeia. Não lhe será poupado fazer guerra aos animais de rapina, uma
guerra de astúcia (de "espírito") mais que de violência, está claro - para isto lhe será
necessário, em certas circunstâncias, desenvolver-se quase que em um novo tipo de
animal de rapina, ou ao menos representá-lo - uma nova ferocidade animal, na qual o
urso polar, a elástica, fria, expectante pantera, e também a raposa, parecem juntados
numa unidade tão atraente quanto aterradora. Supondo que a necessidade o obrigue,
ele andará entre os outros animais de rapina, sério como urso, venerável, prudente,
frio, superior-enganador, como arauto e porta-voz de poderes misteriosos, decidido a
semear nesse terreno, onde puder, sofrimento, discórdia, contradição, e, seguro
bastante de sua arte, fazer-se a todo instante senhor dos sofredores. Ele traz ungüento e
bálsamo, sem dúvida; mas necessita primeiro ferir, para ser médico; e quando acalma a
dor que a ferida produz, envenena no mesmo ato a ferida - pois disso entende ele mais
que tudo, esse feiticeiro e domador de animais de rapina, em volta do qual tudo o que é
são torna-se necessariamente doente, e tudo doente necessariamente manso. De fato,
ele defende muito bem o seu rebanho enfermo, esse estranho pastor - ele o defende
também de si mesmo, da baixeza, perfídia, malevolência que no próprio rebanho arde
sob as cinzas, e do que mais for próprio de doentes e combalidos; ele combate, de
modo sagaz, duro e secreto, a anarquia e a autodissolução que a todo momento
ameaçam o rebanho, no qual aquele mais perigoso dos explosivos, o ressentimento, é
continuamente acumulado. Descarregar este explosivo, de modo que ele não faça saltar
pelos ares o rebanho e o pastor, é a sua peculiar habilidade, e suprema utilidade;
querendo-se resumir numa breve fórmula o valor da existência sacerdotal, pode-se
dizer simplesmente: o sacerdote é aquele que muda a direção do ressentimento. Pois
todo sofredor busca instintivamente uma causa para seu sofrimento; mais
precisamente, um agente; ainda mais especificamente, um agente culpado suscetível de
sofrimentoem suma, algo vivo, no qual possa sob algum pretexto descarregar seus
afetos, em ato ou in eifigie [simbolicamente]: pois a descarga de, afeto é para o
sofredor a maior tentativa de alívio, de entorpecimento, seu involuntariamente ansiado
narcótico para tormentos de qualquer espécie. Unicamente nisto, segundo minha
suposição, se há de encontrar a verdadeira causação fisiológica do ressentimento, da
vingança e quejandos, ou seja, em um desejo de entorpecimento da dor através do
afeto - de ordinário ela é procurada, muito erroneamente, me parece, em um
contragolpe defensivo, uma simples medida protetora, um "movimento reflexo" em
resposta a uma súbita lesão ou ameaça, do tipo que ainda executa uma rã sem cabeça,
para livrar-se de um ácido corrosivo. Mas a diferença é fundamental: em um caso quer-
se prevenir mais lesões, no outro caso quer-se entorpecer, mediante uma emoção mais
violenta de qualquer espécie, uma dor torturante, secreta, cada vez mais insuportável, e
retirá-la da consciência