Genealogia_da_Moral

Genealogia_da_Moral


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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ao menos por um instante para isto necessita-se de um afeto,
um afeto o mais selvagem possível, e, para sua excitação, um bom pretexto qualquer.
"Alguém deve ser culpado de que eu esteja mal" \u2013 esta maneira de raciocinar é comum
a todos os doentes, tanto mais quanto lhes for desconhecida a verdadeira causa do seu
mal-estar, a fisiológica (- ela pode encontrar-se, digamos, numa enfermidade do nervus
sympathicus, numa anormal secreção de bílis, numa pobreza de sulfato e fosfato de
potássio no sangue, em estados de tensão do baixo ventre que impedem a circulação do
sangue, ou ainda numa degeneração dos ovários etc.). Os sofredores são todos hor-
rivelmente dispostos e inventivos, em matéria de pretextos para seus afetos dolorosos;
eles fruem a própria desconfiança, a cisma com baixezas e aparentes prejuízos, eles
revolvem as vísceras de seu passado e seu presente, atrás de histórias escuras e
questionáveis, em que possam regalar-se em uma suspeita torturante, e intoxicar-se do
próprio veneno de maldade - eles rasgam as mais antigas feridas, eles sangram de
cicatrizes há muito curadas, eles transformam em malfeitores o amigo, a mulher, o
filho e quem mais lhes for próximo. "Eu sofro: disso alguém deve ser culpado" - assim
pensa toda ovelha doente. Mas seu pastor, o sacerdote ascético, lhe diz: "Isso mesmo,
minha ovelha! Alguém deve ser culpado: mas você mesma é esse alguém - somente
você é culpada de si!".", Isto é ousado bastante, falso bastante: mas com isto se alcança
uma coisa ao menos, com isto, como disse, a direção do ressentimento é \u2013 mudada.
16.
Percebe-se agora o que, segundo minha concepção, o instinto-curandeiro da vida ao menos
tentou através do sacerdote ascético, e para que lhe serviu a tirania temporária de conceitos
paradoxais e paralógicos como "culpa", "pecado", "pecaminosidade", "corrupção",
"danação": para tornar os doentes inofensivos até certo ponto, para fazer os incuráveis se
destruírem por si mesmos, para com rigor orientar os levemente adoentados de volta a si
mesmos, voltando para trás seu ressentimento ("uma só coisa é necessária" _),21 e desta
maneira aproveitar os instintos ruins dos sofredores para o fim de autodisciplinamento,
autovigilância, auto-superação.]á se vê que uma 'tal "medicação", uma simples medicação de
afeto, não pode significar uma verdadeira cura de doentes no sentido fisiológico; não se
pode ria sequer afirmar que o instinto de vida teve aí a intenção e a perspectiva de cura. De
um lado uma espécie de concentração e organização dos doentes (- a palavra "Igreja" é o
nome mais popular para isso), de outro lado uma espécie de salvaguarda provisória dos mais
sadiamente constituídos, dos mais plenamente forjados, criando-se assim um abismo entre
doentes e sãos - durante muito tempo isto foi tudo! E era muito! Era muitíssimo!... (Nesta
dissertação, como se vê, parto de um pressuposto que não tenho primeiro de justificar, em
vista de leitores tal como os necessito: o de que a "natureza pecaminosa" do homem não é
um fato, mas apenas a interpretação de um fato, ou seja, uma má disposição fisiológica -
vista sob uma perspectiva moral-religiosa que para nós nada mais tem de imperativo. - Que
alguém se sinta "culpado", "pecador", não demonstra absolutamente que tenha razão para
sentir-se assim; tampouco alguém é são apenas por sentir-se são. Recorde-se os célebres
processos contra as bruxas: os mais perspicazes e humanos juízes não duvidavam da
existência de culpa; as "bruxas" mesmas não duvidavam- e no entanto não havia culpa. -
Expressando esse pressuposto de uma forma mais ampla: a própria "dor da alma" não me
parece em absoluto um fato, mas apenas uma interpretação (interpretação causal) de fatos
que até agora não puderam ser formulados com exatidão: portanto, algo ainda inteiramente
no ar, e que não se impõe cientificamente - apenas uma palavra obesa, em lugar de um seco
ponto de interrogação. Se alguém não dá conta de sua "dor da alma", isto não vem, falando
cruamente, de sua "alma"; mais provavelmente, de seu ventre (falando cruamente, como
disse: o que de modo algum expressa o desejo de ser ouvido e compreendido cruamente...).
Um homem forte e bem logrado digere suas vivências (feitos e malfeitos incluídos) como
suas refeições, mesmo quando tem de engolir duros bocados. Se não "dá conta" de uma
vivência, esta espécie de indigestão é tão fisiológica quanto a outra e muitas vezes, na
verdade, apenas uma conseqüência da outra. Uma tal concepção, seja dito entre nós, não
impede que se continue sendo o mais rigoroso adversário de todo materialismo...).
17.
Mas é realmente um médico, este sacerdote ascético? Já notamos que dificilmente podemos
chamá-lo de médico, por mais que lhe agrade sentir-se "salvador", ser venerado como
"salvador". Apenas o sofrimento mesmo, o desprazer do sofredor, é por ele combatido, não a
sua causa, não a doença propriamente - esta deve ser nossa objeção mais radical à medicação
sacerdotal. Mas, colocando-se uma só vez naquela perspectiva, a única que o sacerdote possui
e conhece, não há limites para a admiração por tudo o que ele viu, buscou e achou sob tal
perspectiva. A mitigação do sofrimento, o "consolo" de toda espécie - isto se revela como o
seu gênio mesmo; com que inventividade compreendeu ele sua tarefa de consolador, de que
modo irrefletido e ousado soube escolher os meios para ela! O cristianismo, em especial, pode
ser considerado um grande tesouro dos mais engenhosos meios de consolo, pelo tanto de
aliviador, mitigador, narcotizante que há nele acumulado, pelo tanto de perigoso e temerário
que arriscou para esse fim, pelo modo sutil, refinado, meridional-refinado com que intuiu
sobretudo os afetos estimulantes com que pode ser vencida a funda depressão, o cansaço de
chumbo, a negra j tristeza dos fisiologicamente travados. Pois falando em termos gerais: em
todas as grandes religiões, a questão principal sempre foi combater uma certa exaustão e
gravidade tornada epidemia. Podemos de antemão ter como verossímil que de tempos em
tempos, em determinados lugares da terra, um sentimento de obstrução fisiológica deve quase
que necessariamente apossar-se de vastas massas, o qual, no entanto, por falta de saber
fisiológico não penetra como tal na consciência, de modo que seu "motivo", seu remédio,
pode ser procurado e experimentado tão-somente no domínio psicológico-moral (- e esta é
minha fórmula mais geral para o que comumente é chamado de "religião"). Tal sentimento de
obstrução pode ser de origem a mais diversa: seja como resultado do cruzamento de raças
demasiado heterogêneas (ou de classes - classes sempre expressam também diferenças de
origem ou de raça: o "Weltschmerz' [dor do mundo] europeu, o "pessimismo" do século XIX,
é essencialmente resultado de uma mistura de classes absurdamente súbita); ou determinado
por uma emigração equivocada uma raça chegada a um clima para o qual sua capacidade de
adaptação não basta (o caso dos hindus na Índia); ou conseqüência de velhice e cansaço da
raça (pessimismo parisiense de 1850 em diante); ou de uma dieta errada (alcoolismo na Idade
Média; o absurdo dos vegetarianos, que, é verdade, têm a seu favor a autoridade do junker
Cristóvão,22 de Shakespeare); ou de denegeração do sangue, malária, sífilis e semelhantes
(depressão alemã após a Guerra dos Trinta Anos, que infectou metade da Alemanha com
doenças ruins, preparando assim o terreno para a servilidade alemã, a mesquinhez alemã). Em
tal caso, uma grande luta contra o sentimento de desprazer é tentada a cada vez; informemo-
nos brevemente sobre suas mais importantes formas e práticas. (Deixo aqui de lado, como é
natural, a luta dos filósofos contra o sentimento de desprazer, que costuma se dar simulta-
neamente - ela é interessante, mas demasiado absurda, demasiado indiferente à prática,
demasiado ociosa e artificiosa, quando, por exemplo, pretende-se demonstrar que a dor é um
erro, na pressuposição ingênua de que a dor