Genealogia_da_Moral

Genealogia_da_Moral


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.825 seguidores
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deve desaparecer assim que o erro for
reconhecido - mas vejam! ela se recusa a desaparecer...) Esse desprazer dominante é
combatido, primeiro, através de meios que reduzem ao nível mais baixo o sentimento vital. Se
possível nenhum querer, nenhum desejo mais; evitar tudo o que produz afeto, que produz
"sangue" (não comer sal: higiene do faquir); não amar; não odiar; equanimidade; não se
vingar; não enriquecer; não trabalhar; mendigar; se possível nenhuma mulher, ou mulher o
menos possível; em matéria espiritual, o princípio de Pascal, "il faut s'abêtir" [é preciso
embrutecer-se]. Como resultado, em termos psicológico-morais, "renúncia de si",
"santificação"; em termos fisiológicos, hipnotização - uma tentativa de alcançar para o
homem algo aproximado ao que a hibernação representa para algumas espécies animais, a
estivação para muitas plantas de clima quente, um mínimo de metabolismo, no qual a vida
ainda existe, sem no entanto penetrar na consciência. Uma quantidade espantosa de energia
humana foi gasta para esse fim - em vão?... Não se pode duvidar que tais sportsmen
[esportistas da "santidade", de que todos os tempos e quase todos os povos são pródigos,
tenham de fato encontrado uma libertação real daquilo que com um tão rigoroso training
[treinamento] combatiam - em inúmeros casos eles realmente se livraram daquela profunda
depressão fisiológica com ajuda do seu sistema de meios de hipnose razão por que seu método
está entre os fatos etnológicos mais universais. Tampouco é lícito colocar tal intenção de
render pela fome o corpo e o desejo entre os sintomas de loucura (como ama fazer uma
espécie inepta de cavaleiros Cristóvãos e "livres-pensadores" comedores de rosbife). Mas não
é menos certo que ela pode abrir caminho para toda sorte de perturbações espirituais, para
"luzes interiores", por exemplo, como ocorre entre os hesicastas do monte Atos,23 para
alucinações de som e de forma, para voluptuosos transbordamentos e êxtases da sensualidade
(história da santa Teresa). A interpretação que para esses estados dão aqueles afetados por
eles sempre foi tão entusiástica e falsa quanto possível, é claro: mas não se deixe de ouvir o
tom de convencida gratidão que já ressoa na vontade de dar essa espécie de interpretação. O
estado supremo, a própria redenção, aquela hipnotização e quietude total enfim alcança da, é
para eles o mistério em si, para cuja expressão não bastam sequer os símbolos mais elevados,
sendo retorno e refúgio no fundo das coisas, sendo desprendimento de toda ilusão, sendo
"saber", "verdade", "ser", sendo libertação de todo fim, todo ato, todo desejo, sendo estar além
também do bem e do mal. "Bem e mal", diz o budista, "são ambos cadeias: de ambos o
Perfeito se tornou senhor"; "o feito e o não-feito", diz o crente do vedanta, "não lhe causam
dor; o bem e o mal sacode ele de si como um sábio; nenhum ato pode ferir seu reino; bem e
mal, a ambos ele superou": - uma concepção de toda a Índia, portanto; brâmane assim como
budista. (Nem a mentalidade indiana nem a cristã consideram esta "redenção" alcançável
através da virtude, do aperfeiçoamento moral, por mais que estimem t o valor hipnótico da
virtude: não nos esqueçamos disso - corresponde simplesmente aos fatos, aliás. Haver
permanecido veraz neste ponto pode ser visto como o melhor traço de realismo nas três
grandes religiões, de resto tão profundamente moralizadas. "Para aquele que sabe não existe
dever"... "Mediante o aumento de virtudes não se realiza a redenção: pois ela consiste no ser-
um com o Brahma, que não permite aumento de perfeição; tampouco na diminuição de erros:
pois o Brahma, com o qual ser um constitui a redenção, é eternamente puro" - passagens do
comentário de Shankara, citadas pelo primeiro verdadeiro conhecedor da filosofia indiana na
Europa, meu amigo Paul Deussen.)24 Honremos pois a "redenção", como aparece nas
grandes religiões; em compensação, para nós é um pouco difícil permanecer sérios ante a
estima em que o sono profundo é tido por esses cansados da vida, demasiado cansados até
mesmo para sonhar - sono profundo entendido como ingresso no Brahma, como efetivação da
unio mysticacom Deus. "Após haver adormecido inteiramente" - diz-se na mais antiga e
venerável "Escritura" - "e haver alcançado o repouso completo, de modo a não ver imagens de
sonho, então estará ele, ó Caro, unido ao Existente, terá penetrado em si mesmo - envolvi do
pelo 'eu' cognoscente, não terá consciência do que é interior ou exterior. Esta ponte não
cruzam o dia nem a noite, nem a idade, a morte, o sofrer, nem a boa, nem a má ação." "Em
sono profundo", dizem igualmente os crentes desta mais profunda das três grandes religiões,
"a alma se ergue deste corpo, penetra na luz suprema e aparece assim em sua forma própria:
ela é aqui o espírito supremo mesmo, que vagamundeia, brincando, pilheriando e se
deleitando, seja com mulheres, com carruagens ou amigos, aqui ela não mais pensa neste
apêndice de corpo, no qual o prâna(sopro vital) está atrelado como um animal à carroça."
Entretanto, assim como no caso da "redenção", tenhamos presente que nisto, embora com a
pompa do exagero oriental, expressa-se uma apreciação igual à do lúcido, frio, helenicamente
frio, porém sofredor Epicuro: o hipnótico sentimento do nada, o repouso no mais profundo
sono, ausência de sofrimento, em suma - para os sofredores e profundamente desgraçados é
lícito enxergar nisso o bem supremo, o valor entre os valores, isto tem de ser considerado
positivo por eles, sentido como o positivo mesmo. (Segundo a mesma lógica do sentimento,
em todas as religiões pessimistas chama-se ao nada Deus.)
18.
Bem mais freqüentemente que este hipnótico amortecimento geral da sensibilidade, da
capacidade de dor, o qual já pressupõe forças mais raras, sobretudo coragem, desprezo da
opinião, "estoicismo intelectual", emprega-se contra estados de depressão um outro
training, de todo modo mais fácil: a atividade maquinal. Está fora de dúvida que através
dela uma existência sofredora é aliviada num grau considerável: a este fato chama-se
atualmente, de modo algo desonesto, "a bênção do trabalho". O alívio consiste em que o
interesse do sofredor é inteiramente desviado do sofrimento - em que a consciência é
permanentemente tomada por um afazer seguido de outro, e em conseqüência resta pouco
espaço para o sofrimento: pois ela é peque na, esta câmara da consciência humana! A
atividade maquinal e o que dela é próprio - a absoluta regularidade, a obediência pontual e
impensada, o modo de vida fixado uma vez por todas, o preenchimento do tempo, uma certa
permissão, mesmo educação para a "impessoalidade", para o esquecimento de si, para a
"incuria sul" -: de que maneira completa e sutil o sacerdote ascético soube utilizá-la na luta
com a dor! Precisamente quando tinha de lidar com sofredores das camadas inferiores, com
trabalhadores escravos ou prisioneiros (ou com mulheres, que são geralmente ambos ao
mesmo tempo, escravas e prisioneiras), necessitava ele de pouco mais que a pequena arte de
mudar os nomes e rebatizar as coisas, para fazer com que vissem benefício e relativa
felicidade em coisas até então odiadas - a insatisfação do escravo com sua sorte não foi, de
qualquer modo, inventada pelos sacerdotes. - Um meio ainda mais apreciado na luta contra
a depressão é a prescrição de uma pequena alegria que seja de fácil obtenção e possa ser
tornada regra; esta medicação é freqüentemente usada em associação com a anterior. A
forma mais freqüente em que a alegria é assim prescrita como meio de cura é a alegria de
causar alegria (ao fazer benefício, presentear, aliviar, ajudar, convencer, consolar, louvar,
distinguir); no fundo, ao prescrever "amor ao próximo", o sacerdote ascético prescreve uma
estimulação, embora em dosagem prudente, do impulso mais forte e mais afirmador da vida
- da vontade de poder. A felicidade da "pequena superioridade", que acompanha todo ato de
beneficiar, servir, ajudar, distinguir,