Genealogia_da_Moral

Genealogia_da_Moral


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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coração". Do mesmo modo: quem poderia agora censurar os
agnósticos, quando, adoradores do desconhecido e do misterioso em si, veneram o ponto de
interrogação mesmo como Deus? (Xaver Doudan37 fala dos ravages [estragos] produzidos
por l'habitude d'admirer l'inintelligible au lieu de rester tout simplement dans l'inconnu [o
hábito de admirar o ininteligível em vez de ficar simplesmente no desconhecido]; segundo
ele, os antigos prescindiram desse hábito.) Posto que nada do que o homem "conhece" satis-
faz seus desejos, antes os contradiz e amedronta, que divina escapatória, poder buscar a culpa
disso não no "desejar", mas no "conhecer"!... "Não existe conhecer: logo - existe um Deus":
que nova elegantia syllogismi[elegância do silogismo]! que triunfo do ideal ascético!
26.
- Ou quem sabe a moderna historiografia demonstrasse uma maior certeza de vida, certeza
de ideal? Sua pretensão mais nobre está em ser espelho; ela rejeita qualquer teleologia;
nada mais deseja "provar"; desdenha fazer de juiz, vendo nisto seu bom gosto - ela não
afirma, e tampouco nega, ela constata, "descreve",.. Tudo isso é ascético em alto grau; ao
mesmo tempo, que não haja engano, é niilísta em grau ainda mais elevado! Vemos um
olhar triste, duro, porém decidido - um olho que olha para longe, como faz um explorador
polar desgarrado (para não olhar para dentro? não olhar para trás?..,). Há apenas neve, a
vida emudeceu; as últimas gralhas que se fazem ouvir dizem "Para quê?", "Em vão!",
"Nada!"38 - nada mais cresce ou medra, no máximo metapolítica petersburguense e
"compaixão" tolstoiana, Quanto àquela outra espécie de historiadores, ainda mais
"moderna" talvez, espécie folgazã, voluptuosa, que flerta simultaneamente com a vida e
com o ideal ascético, que usa a palavra "artista" como uma luva e que hoje monopolizou
inteiramente o elogio da contemplação: oh, que saudade até mesmo de ascetas e paisagens
invernais despertam esses doces espirituosos! Não! esses "contemplativos" que vão para o
Diabo! Preferiria mil vezes vagar com aqueles niilistas históricos através da mais densa,
cinza e fria névoa! - não me importaria sequer, tendo que escolher, dar ouvidos a um
espírito completamente a-histórico, anti-histórico (como esse Dühring cujas modulações,
na Alemanha de hoje, inebriam uma espécie até agora tímida e inconfessa de "almas
belas", a species anarchistica no interior do proletariado culto). Muito piores são os
"contemplativos" - nada conheço de mais nauseante que um desses "objetivos" de cátedra,
um desses cheirosos hedonistas da história, meio pároco, meio sátiro, paifum Renan,39
que já com o elevado falsete do seu aplauso revela o que lhe falta, ondelhe falta, onde,
nesse caso, a cruel tesoura das Parcas foi manuseada de maneira oh! tão cirúrgica! Isso
contraria meu gosto, e também minha paciência: que conserve sua paciência ante tais
visões quem nada tem a perder a mim me enfurece uma tal visão, tais "espectadores" me
indispõem contra o "espetáculo", mais ainda que o espetáculo (a história mesma, entenda-
se), de súbito me vêm humores anacreônticos, Essa natureza que deu ao touro os chifres,
ao leão o µ [abismo de dentes),4° para que me deu ela os pés?... Para pisar,
por santo Anacreonte! não só para correr; para pisotear essas cátedras podres, a
contemplatividade covarde, o lúbrico "eunuquismo" diante da história, o flerte com ideais
ascéticos, a tartufesca equanimidade da impotência. Todo o meu respeito ao ideal ascéti-
co, na medida em que é honesto! enquanto crê em si mesmo e não nos prega peças! Mas
eu não suporto todos esses percevejos coquetes, cuja ambição é insaciável em farejar o
infinito, até por fim o infinito cheirar a percevejos; não gosto desses túmulos caiados que
parodiam a vida; não gosto desses fatigados e consumidos que se revestem de sabedoria e
olham "objetivamente"; não gosto dos agitadores fantasiados de heróis que usam o capuz
mágico do ideal em suas cabeças de palha; não gosto dos artistas ambiciosos que posam
de sacerdotes e ascetas e no fundo não passam de trágicos bufões; tampouco me agradam
esses novos especuladores em idealismo, os anti-semitas, que hoje reviram os olhos de
modo cristão-ariano-homem-de-bem, e, através do abuso exasperante do mais barato meio
de agitação, a afetação moral, buscam incitar o gado de chifres que há no povo (o fato de
que toda espécie de charlatanismo espiritual obtenha sucesso na Alemanha de hoje tem
relação com o inegável e já evidente definhamento do espírito alemão, cuja causa eu vejo
em uma dieta demasiado exclusiva, composta de jornais, política, cerveja e música
wagneriana, juntamente com o pressuposto para essa alimentação: a clausura e a vaidade
nacionais, o forte, porém estreito, princípio de "Deutschland, Deutschland über alles" ,41
e também a para lysis agitans [paralisia que agita, isto é, doença de Parkinson] das "idéias
modernas"). A Europa de hoje é rica e inventiva sobretudo em meios de excitação, parece
nada mais necessitar senão estimulantes e aguardentes: daí também a imensa falsificação
de ideais, essas fortíssimas aguardentes do espírito, daí também o ar repugnante,
malcheiroso, mendaz, pseudo-alcoólico, que em toda parte se encontra. Quisera saber
quantos carregamentos de arremedo de idealismo, de atavios de heróis e matracas de
ressonantes palavras, quantas toneladas de licorosa compaixão (nome da firma: Ia religion
de Ia souffrance [a religião do sofrimento], quantas muletas de "nobre indignação" para
socorro dos pés-chatos do espírito, quantos comediantes do ideal cristão-moral deveriam
ser exportados hoje da Europa, para que seu ar se tornasse novamente respirável...
Evidente que com esta superprodução abre-se uma nova possibilidade de comércio,
evidentemente há um novo "negócio" a fazer com pequenos ídolos de ideais e
correspondentes "idealistas" não se deixe de ouvir esta clara alusão! Quem tem coragem
bastante para isso? - está em nossas mãos "idealizar" a Terra inteira!... Mas por que falo
de coragem: aí se faz necessária uma só coisa, precisamente a mão, uma mão sem
prevenções, inteiramente livre de prevenções...
27.
- Basta! Basta! Deixemos essas curiosidades e complexidades do espírito moderno, nas quais
há tanto para rir quanto para aborrecer-se: pois nosso problema, o problema da significação
do ideal ascético, pode dispensá-las - que tem ele a ver com o hoje e o ontem! Tais coisas
serão por mim tratadas em outro contexto, com maior profundidade e severidade (sob o título
de "História do niilismo europeu"; numa obra que estou preparando: A vontade de poder.
Ensaio de tresvaloração de todos os valores). O que me interessa deixar aqui indicado é isto:
também na esfera mais espiritual o ideal ascético continua encontrando, no momen to, apenas
um tipo de inimigo verdadeiro capaz de prejudicá-lo: os comediantes desse ideal- porque
despertam desconfiança. Em toda outra parte onde o espírito esteja em ação, com força e
rigor, e sem falseamentos, ele dispensa por completo o ideal - a expressão popular para essa
a6stinência é "ateísmo" -: excetuada a sua vontade de verdade. Mas essa vontade, esse resto
de ideal, é, se me acreditam, esse ideal mesmo em sua formulação mais estrita e mais
espiritual, esotérico ao fim e ao cabo, despojado de todo acréscimo, e assim não tanto resto
quanto âmago. O ateísmo incondicional e reto (- e somente seu ar é o que respiramos, nós, os
homens mais espirituais dessa época!) não está, portanto, em oposição a esse ideal, como
parece à primeira vista; é, isto sim, uma das últimas fases do seu desenvolvimento, uma de
suas formas finais e conseqüências internas - é a apavorante catástrofe'" de uma educaçào
para a verdade que dura dois milênios, que por fim se proíbe a mentira de crer em Deus. (O
mesmo desenvolvimento na Índia, em completa independência e por isso com algum valor de
prova; o mesmo ideal levando ao mesmo fim; o ponto decisivo alcançado cinco séculos antes
do calendário europeu, com