93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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Benedictus Spinoza
Ética demonstrada em ordem geométrica e dividida em cinco partes que tratam
I. Sobre Deus
II. Sobre a Natureza e a Origem da Mente
III. Sobre a Origem e a Natureza dos Afetos
IV. Sobre a Servidão Humana, ou sobre a Força dos Afetos
V. Sobre a Potência do Intelecto, ou sobre a Liberdade Humana.
Tradução Roberto Brandão
B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
Primeira Parte
Sobre Deus
DEFINIÇÕES
I. Por causa de si entendo aquilo cuja essência envolve existência, dito de outro modo, aquilo cuja natureza só pode ser 
concebida como existente.
II. É dita finita em seu gênero uma coisa que só pode ser limitada por outra de mesma natureza. Por exemplo, um corpo 
é dito finito, pois sempre concebemos outro maior. Igualmente, um pensamento é limitado outro pensamento. Mas um 
corpo não é limitado por um pensamento, nem um pensamento por um corpo.
III. Por substância entendo o que é em si e se concebe por si: isto é, aquilo cujo conceito não precisa do conceito de outra 
coisa para se formar.
IV. Por atributo entendo aquilo que o intelecto percebe como constituindo a essência da substância.
V. Por modo entendo as afecções da substância, isto é, aquilo que é em outro e se concebe por outro.
VI. Por Deus entendo o ser absolutamente infinito, isto é, uma substância composta de infinitos atributos, cada um deles 
exprimindo uma essência eterna e infinita.
Explicação
Digo absolutamente infinito, não infinito em seu gênero. Com efeito, podemos negar infinitos atributos ao que é 
infinito em seu gênero, mas ao que é absolutamente infinito, pertence a sua essência tudo o que a exprime e não 
envolve nenhuma negação.
VII. Diz-se livre a coisa que existe somente pela necessidade de sua natureza e que é determinada a agir somente por ela: 
e necessária, ou compelida, aquela que é determinada por outras coisas a existir e operar de certa e determinada 
maneira.
VIII. Por eternidade entendo a própria existência concebida como o que se segue necessariamente da simples definição 
de coisa eterna.
Explicação
Pois tal existência, da mesma forma como a essência de uma coisa, é concebida como uma verdade eterna e, por 
isso, não pode ser explicada pela duração ou pelo tempo, mesmo que por uma duração sem início ou fim.
AXIOMAS
I. Tudo o que é, ou é em si, ou é em outro.
II. O que não pode ser concebido por outro, deve ser concebido por si.
III. Dada uma causa determinada, segue-se necessariamente um efeito, e, ao contrário, se não há nenhuma causa 
determinada, é impossível que se siga um efeito.
IV. O conhecimento do efeito depende do conhecimento da causa e o envolve.
V. Coisas que não tem nada em comum entre si, também não podem ser entendidas uma pela outra, dito de outro modo, 
o conceito de uma não envolve o conceito da outra.
VI. A idéia verdadeira deve convir com seu ideado.
VII. Qualquer coisa que pode ser concebida como não existente, tem uma essência que não envolve a existência.
PROPOSIÇÃO I
Uma substância é por natureza primeira com relação a suas afecções.
Demonstração
É evidente das Definições 3 e 5.
PROPOSIÇÃO II
Duas substâncias com atributos diversos não têm nada em comum entre si.
Tradução: Roberto Brandão
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Demonstração
Também é evidente da Def. 3. Pois cada uma deve ser em si, e deve ser concebida por si, isto é, o conceito de 
uma não envolve o conceito da outra.
PROPOSIÇÃO III
Coisas que não têm nada em comum entre si não podem ser causa uma da outra.
Demonstração
Se elas não têm na em comum, então (pelo Axioma 5) não podem ser entendidas uma pela outra e (pelo 
Axioma 4) não podem ser causa uma da outra. QED
PROPOSIÇÃO IV
Duas ou mais coisas distintas, distinguem-se entre si, seja por que os atributos das substâncias são diversos, seja por que 
as afecções destas substâncias são diversas.
Demonstração
Tudo o que é ou, é em si ou é em outro (pelo Axioma 1), isto é, (pelas Defs. 3 e 5), fora do intelecto só existem 
as substâncias e suas afecções. Então, fora do intelecto não existe nada que possa distinguir diversas coisas que 
não as substâncias, ou, o que é o mesmo (pela Def. 4), seus atributos ou suas afecções. QED
PROPOSIÇÃO V
Na natureza não podem existir duas ou mais substâncias com a mesma natureza ou atributo.
Demonstração
Se existissem várias [substâncias] distintas, deveriam distinguir-se entre si, seja pela diversidade dos atributos, 
seja pela diversidade das afecções (pela Prop. precedente). Se for somente pela diversidade dos atributos 
que se distinguem, conceder-se-á então que existe apenas uma do mesmo atributo. Mas se for pela diversidade 
das afecções, como uma substância é por natureza anterior às afecções (pela Prop. 1), então, se a 
despojarmos das afecções e a considerarmos em si, isto é (pela Def. 3 e pelo Axioma 6), se a considerarmos 
verdadeiramente, não poderemos concebê-la distinta de outra, isto é (pela Prop. precedente) não existirão 
várias [substâncias com mesmo atributo], mas apenas uma. QED
PROPOSIÇÃO VI
Uma substância não pode ser produzida por outra substância.
Demonstração
Na natureza não podem existir duas substâncias de mesmo atributo (pela Prop. precedente), isto é (pela 
Prop. 2), que tenham algo em comum entre si. Portanto (pela Prop. 3), uma não pode ser causa da outra, 
dito de outro modo, uma não pode ser produzida pela outra. QED
Corolário
Disso se segue que uma substância não pode ser produzida por outra coisa.
Pois na natureza não existe nada além de substâncias e suas afecções, como fica patente pelo Axioma 1 e 
pelas Defs. 3 e 5. Ora ela não pode ser produzida por outra substância (pela Prop. precedente). Logo, uma 
substância não pode absolutamente ser produzida por outra coisa. QED
Outra demonstração
Isto se demonstra ainda mais facilmente pelo absurdo do contraditório. Pois se uma substância pudesse ser 
produzida por outra coisa, seu conhecimento dependeria do conhecimento de outra coisa (pelo Axioma 4) e, 
por conseguinte, ela não seria substância.
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
PROPOSIÇÃO VII
À natureza da substância pertence o existir.
Demonstração
Uma substância não pode ser produzida por outra coisa (pelo Cor. Prop preced); portanto ela deve ser 
causa de si, isto é (pela Def. 1), sua essência envolve necessariamente a existência, ou, dito de outro modo, 
pertence a sua natureza o existir. QED
PROPOSIÇÃO VIII
Toda substância é necessariamente infinita.
Demonstração
Uma substância com um atributo não pode existir se não for única (pela Prop. 5), e pertence a sua natureza o 
existir (pela Prop. 7). Portanto, por natureza ela existirá, seja como finita ou infinita. Mas não como finita, pois 
(pela Def. 2) ela deveria ser limitada por outra coisa de mesma natureza, que também deveria existir 
necessariamente (pela Prop. 7); e, por conseguinte, existiriam duas substâncias de mesmo atributo, o que é 
absurdo (pela Prop. 5). Logo ela existe como infinita. QED
Escólio I 
Como ser finito é em parte uma negação, e como ser infinito é uma afirmação absoluta da existência de uma 
certa natureza, segue-se da Prop. 7 que toda substância deve ser infinita
Escólio II
Não duvido que a demonstração da Prop. 7 seja difícil de conceber para todos os que julgam confusamente as 
coisas e que não costumam buscar conhecê-las por suas causas primeiras. Pois eles não distinguem entre as 
modificações das substâncias e as próprias substâncias, nem sabem como as coisas se produzem. Donde 
atribuem erroneamente às substâncias os princípios que vêem nas coisas. Pois os que ignoram as verdadeiras 
causas das coisas confundem tudo e, sem repugnar a mente, forjam árvores que falam como homens e homens 
que nascem, não de sêmen, mas de pedras