93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.825 seguidores
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e imaginam formas quaisquer se transformarem em quaisquer outras. 
Igualmente, aqueles que confundem a natureza divina com a humana, atribuem facilmente a Deus afetos 
humanos, sobretudo por também ignorarem como os afetos se produzem na mente.
Mas se os homens refletissem sobre a natureza da substância, não teriam a menor dúvida sobre a Prop. 7. 
Mais ainda, esta Proposição seria um axioma para todos e seria contada entre as noções comuns. Pois 
entenderiam como substância o que é em si e se concebe por si, aquilo cujo conhecimento não depende do 
conhecimento de outras coisas. E por modificações entenderiam o que é em outro, modificações cujo conceito se 
forma a partir do conceito da coisa em que elas são. Eis por que podemos ter idéias verdadeiras de coisas não 
existentes: ainda que elas não existam em ato fora do intelecto, sua essência pode ser compreendida em outra 
coisa, de sorte que podemos concebê-la por esta outra. Mas, fora do intelecto a verdade das substâncias existe 
nelas mesmas, pois elas se concebem por si. Se, portanto, alguém disser ter de uma substância uma idéia clara e 
distinta, isto é, verdadeira, e ainda assim duvidar da existência de tal substância, é como se dissesse ter uma 
idéia verdadeira e suspeitasse ao mesmo tempo que ela seja falsa (o que é evidente para qualquer um 
suficientemente atento); ou então, se alguém supor que uma substância é criada, supõe ao mesmo tempo que 
uma idéia falsa tornou-se verdadeira, o que é dos maiores absurdos que se pode conceber. Assim, é necessário 
confessar que a existência de uma substância, bem como a de sua essência, é uma verdade eterna.
E, desta forma, pudemos concluir, de uma outra maneira, que existe somente uma substância de mesma 
natureza e julguei valer a pena mostrá-lo aqui. Mas, para fazê-lo de forma ordenada, cabe notar:
(I) que a definição verdadeira de cada coisa envolve e exprime apenas a natureza da coisa definida.
Do que se segue (II) que nenhuma definição envolve ou exprime um número preciso de indivíduos, pois ela 
exprime somente a natureza da coisa definida. Por exemplo, a definição de triângulo exprime somente a simples 
natureza do triângulo; e não um número preciso de triângulos.
(III) Cabe notar que necessariamente há, para cada coisa existente, uma causa certa e precisa que faz com que ela 
exista.
(IV) Note-se enfim que esta causa que faz com que certa coisa exista deve, ou estar contida na natureza ou 
definição da coisa existente (à sua natureza pertence o existir), ou estar fora dela. Segue-se daí que se na natureza 
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
existe um número certo e preciso de indivíduos, deve necessariamente haver uma causa fazendo com que 
existam estes indivíduos e que não existam nem mais nem menos. Se, por exemplo, existem na natureza vinte 
homens (que, para maior clareza, suponho existirem juntos, sem que outros tenham existido antes), não bastará (para dar 
razão a que existam vinte homens) apontar como causa a natureza humana em geral. Será preciso também mostrar 
a causa que faz com que não existam nem menos nem mais que vinte; pois (pela nota III), para cada um deve 
haver uma causa que o faça existir. Ora, esta causa (pelas notas II e III) não pode estar contida na natureza 
humana, pois a verdadeira definição de homem não envolve o número vinte. Então (pela nota IV), a causa com 
que faz que existam estes vinte homens, e por conseguinte faz com que cada um exista, deve necessariamente 
estar fora de cada um. Donde se deve concluir de forma absoluta que todas as coisas, cuja natureza é tal que 
possam existir diversos indivíduos, devem precisam necessariamente de uma causa externa para existir. Agora, 
já que à natureza da substância pertence o existir (pelo que já mostramos neste Escólio), sua definição deve envolver 
a existência necessária, e, por conseguinte, sua própria existência deve ser concluída apenas de sua definição. 
Ora, de sua própria definição (como mostramos nas notas II e III) não se pode seguir a existência de várias 
substâncias. Logo, segue-se necessariamente que existe uma única [substância] de mesma natureza, como havia 
sido proposto.
PROPOSIÇÃO IX
Quanto mais uma coisa tem de realidade ou de ser, mais atributos lhe competem.
Demonstração
É evidente pela Def. 4.
PROPOSIÇÃO X
Cada atributo de uma substância deve ser concebido por si.
Demonstração
Atributo é o que o intelecto percebe de uma substância como constituindo sua essência (pela Def. 4) e, por 
conseguinte (pela Def. 3), deve se conceber por si. QED
Escólio
Daqui se torna claro que, embora dois atributos sejam concebidos como realmente distintos, isto é, que um seja 
concebido sem ajuda do outro, não podemos concluir que constituam dois entes, ou duas substâncias diversas. 
Pois é da natureza da substância que cada um de seus atributos seja concebido por si. E, no entanto, todos os 
seus atributos sempre nela existiram simultaneamente e não foram produzidos um pelo outro, mas cada um 
exprime a realidade ou o ser da substância. Longe está de ser absurdo atribuir vários atributos a uma mesma 
substância. Assim é evidente que na natureza cada ente deve ser concebido em algum atributo, e que, quanto 
mais realidade ou ser ele tiver, mais atributos terá, e que [os atributos] exprimem necessidade, ou eternidade, e 
infinidade. E, por conseguinte, nada é mais claro que o fato de que o ente absolutamente infinito deve se definir 
(como ensinamos em Def. 6) como um ente composto de infinitos atributos, cada um exprimindo certa essência 
eterna e infinita. E se alguém perguntar por que sinal podemos reconhecer a diferença entre as substâncias, leia 
as Proposições seguintes, que mostrarão que na natureza existe apenas uma única substância e que ela é 
absolutamente infinita. Portanto este sinal será procurado em vão.
PROPOSIÇÃO XI
Deus, ou, dito de outro modo, uma substância composta de infinitos atributos, cada um deles exprimindo uma essência 
eterna e infinita, existe necessariamente.
Demonstração
Se o negas, conceba se puder que Deus não existe e que (pelo Axioma 7) sua essência não envolve existência. 
Ora, isto (pela Prop. 7) é absurdo: logo Deus existe necessariamente. QED
Alternativamente
Para toda coisa devemos assinalar uma causa ou razão tanto para que ela exista como para não exista. Por 
exemplo, se um triângulo existe, deve haver uma causa ou razão para que ele exista; e se ele não existe, deve 
igualmente haver uma causa que o impeça de existir ou que suprima sua existência. Além disso, a verdadeira 
razão ou causa, ou está contida na natureza da coisa, ou lhe é externa. Por exemplo, a razão da não existência de 
Tradução: Roberto Brandão
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um círculo quadrado está indicada por sua própria natureza, pois ela envolve uma contradição. E, 
inversamente, a existência da substância se segue de sua natureza, que envolve a existência (ver Prop. 7). Mas 
a razão que faz com que um círculo ou um triângulo exista ou não, se segue, não de sua natureza, mas da ordem 
da natureza corpórea inteira. Dela deve se seguir que exista agora necessariamente um triângulo ou que seja 
impossível que ele exista agora. Estas coisas são evidentes. Donde se segue que existe necessariamente aquilo 
que nenhuma razão ou causa impede de existir. Se, portanto, não pode haver nenhuma razão ou causa que 
impeça Deus de existir, ou que seja capaz de tolher sua existência, então Ele existe necessariamente. Ora, se 
houvesse tal razão ou causa, ela deveria estar, ou na própria natureza de Deus, ou fora dela, isto é, em uma 
outra substância de outra natureza. Pois se ela fosse de mesma natureza, por isso mesmo teríamos que conceder 
que Deus existe. Ora, uma substância de outra natureza não teria nada em comum com Deus (pela Prop. 2) e 
não poderia