93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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Alegria, e nos esforçamos por afastar ou destruir 
tudo o que imaginamos se opor a ela ou conduzir à Tristeza.
Demonstração
Nós nos esforçamos por imaginar tudo o que imaginamos conduzir à Alegria (pela Prop. 12), isto é (pela 
Prop. 17 P II), nos esforçamos, na medida em que podemos, por contemplar sua presença ou sua existência 
em ato. Mas o esforço da Mente, ou potência de pensar, é igual e simultânea em natureza ao esforço do Corpo, 
ou potência de agir (como se segue com clareza da Prop. 7 e do Cor. Prop. 11 P II). Logo, nos esforçamos 
de forma absoluta [para que aquilo que imaginamos conduzir à Alegria] exista, ou (o que é o mesmo pelo Esc. 
Prop. 11 P II), nós apetecemos ou intentamos [tal coisa], o que era o primeiro ponto.
Se imaginarmos destruído aquilo que cremos ser causa de Tristeza, isto é (pelo Esc. Prop. 13), aquilo que 
odiamos, nós nos alegraremos (pela Prop. 20). Portanto, nos esforçamos (pela primeira parte [desta 
demonstração]) por destruí-lo, ou (pela Prop. 13) afastá-lo de nós a fim de não contemplarmos sua presença, 
o que era o segundo ponto. Logo, nós nos esforçamos por promover tudo o que imaginamos conduzir à Alegria, 
etc. QED
PROPOSIÇÃO XXIX
Nós nos esforçaremos por fazer tudo o que imaginamos que os homens* vêem com Alegria, e, ao contrário, teremos 
aversão em fazer o que imaginamos ser visto pelos homens com aversão.
Tradução: Roberto Brandão
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. 
B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
* Nota: Entender aqui e na seqüência homens por quem não experimentamos nenhum afeto.
Demonstração
Pelo fato de imaginarmos que os homens amam ou odeiam algo, nós também o amamos ou odiamos (pela 
Prop. 27), isto é (pelo Esc. Prop. 13), nos alegraremos ou entristeceremos da presença de tal coisa. Logo, 
(pela Prop. precedente), nos esforçaremos por fazer tudo o que imaginamos que os homens amam ou 
vêem com Alegria, etc. QED
Escólio
Este esforço por fazer algo, ou de renunciar em fazê-lo, apenas para agradar aos homens, chama-se Ambição (Ambitio), 
sobretudo quando nos esforçamos a tal ponto por agradar o vulgo que fazemos ou renunciamos a fazer algo, 
mesmo causando dano a nós mesmos ou a outrem; mas quando não é este o caso chama-se de Cortesia 
(Humanitas). E chamo de Louvor (Laudem) a Alegria em imaginar a ação de alguém que se esforçou em nos deleitar e 
chamo de Censura (Vituperium) a Tristeza com que nos opomos a esta ação.
PROPOSIÇÃO XXX
Se alguém fez algo que imagina afetar os outros de Alegria, será afetado de Alegria concomitante à idéia de si mesmo 
como causa, ou, dito de outro modo, contemplará a si mesmo com Alegria. Ao contrário, se alguém fez algo que imagina 
afetar os outros de Tristeza, contemplará a si mesmo com Tristeza.
Demonstração
Quem imagina os outros afetados de Alegria ou de Tristeza (pela Prop. 27), também será afetado de Tristeza. 
Mas como o homem (pelas Props. 19 e 23 P II) é consciente de si através de suas afecções, pelas quais é também 
determinado a agir, logo, quem fez algo que imagina afetar os outros de Alegria, será afetado de Alegria com a 
consciência de si como causa, ou contemplará a si mesmo com Alegria, e vice-versa. QED
Escólio
Como o Amor (pelo Esc. Prop. 13) é a Alegria concomitante à idéia de uma causa externa e o Ódio é a Tristeza 
concomitante também à idéia de uma causa externa, a Alegria e a Tristeza [tratados por esta proposição] são 
espécies de Amor e de Ódio. Mas como o Amor e o Ódio se referem a objetos externos, chamaremos tais afetos 
por outros nomes. Chamaremos de Glória (Gloria) a Alegria concomitante à idéia de uma causa interna e Vergonha 
(Pudor) a Tristeza concomitante à idéia de uma causa interna, entendendo-se que a Alegria e a Tristeza aqui se originam 
em que o homem se crê louvado ou censurado. Se não for este o caso, chamarei de Auto-Estima (Acquiescentia in se 
ipso) a Alegria concomitante à idéia de uma causa interna e chamarei a Tristeza contrária de Arrependimento 
(Poenitentiam).
Mas, como (pelo Cor. Prop. 17 P II) pode ocorrer que a Alegria com que alguém imagina afetar os outros 
seja apenas imaginária, e como (pela Prop. 25) todos se esforçam por imaginar de si tudo o que imaginam 
afeta-los de alegria, pode ocorrer facilmente que o glorioso tenha na verdade Soberba e imagine que todos lhe 
sejam gratos, quando é na verdade é desagradável para todos. 
PROPOSIÇÃO XXXI
Se imaginarmos que alguém ama, deseja ou odeia algo que nós amamos, desejamos ou odiamos, por esta razão 
amaremos, etc. com maior constância. Mas se imaginarmos que ele tem aversão ao que amamos, ou ao contrário [que ele 
ama o que odiamos], padeceremos de uma flutuação da alma.
Demonstração
O simples fato de imaginarmos que alguém ama uma coisa nos faz amá-la também (pela Prop. 27). Se 
supomos que já a amávamos, temos uma nova causa que favorece a que amemos com mais constância aquilo 
que já amávamos. E pelo simples fato de imaginarmos que alguém tem aversão a algo, também teremos aversão 
(pela mesma Prop.), mas, se supusermos que ao mesmo tempo já amamos esta coisa, teremos a um só tempo 
amor e aversão, isto é (vide Esc. Prop 17) padeceremos de uma flutuação da alma. QED
Corolário
Daí e da Prop. 28 se segue que todos se esforçam, na medida em que podem, por fazer com que todos amem 
aquilo que amam e odeiam aquilo que odeiam. Donde as palavras do poeta:
Tradução: Roberto Brandão
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. 
B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
Amantes, esperam juntos e temem juntos;
De ferro é quem ama o que o outro permite.
Escólio
Este esforço por conseguir que todos aprovem o que se ama ou odeia é na verdade a Ambição (vide Esc. 
Prop. 29). E vemos assim que todos querem por natureza que os demais vivam segundo o seu próprio 
temperamento, e como todos querem o mesmo, acabam se opondo uns aos outros. E como todos querem ser 
amados e louvados por todos, acabam se odiando reciprocamente.
PROPOSIÇÃO XXXII
Se imaginamos que alguém desfruta de algo que apenas um pode possuir, nos esforçaremos para que ele não mais o 
possua.
Demonstração
Do simples fato de imaginarmos que alguém desfruta de uma coisa (pela Prop. 27 e por seu Cor. 1), 
amaremos e desejaremos desfrutar de tal coisa. Mas (por hipótese) imaginamos que sua alegria é um obstáculo a 
que também desfrutemos da coisa. Por esta razão (pela Prop 27), nos esforçaremos para que ele não mais a 
possua. QED
Escólio
Vemos, portanto, que a natureza do homem está constituída, em sua maior parte, de modo que temos 
compaixão pelos vão mal e invejamos os que vão bem e (pela Prop. precedente) com um ódio que é maior 
quanto mais amamos a coisa que imaginamos possuída por outro. Vemos que da mesma propriedade da 
natureza humana donde se segue que os homens são compassivos, segue-se também que são invejosos e 
ambiciosos.
Se quisermos consultar a experiência, veremos que ela ensina tudo isso, especialmente se refletirmos sobre os 
primeiros anos de nossas vidas. Pois as crianças, cujo corpo está sempre como que em equilíbrio, ora riem, ora 
choram apenas em ver outros rirem ou chorarem. Desejam imitar tudo o que vêem os outros fazer e desejam 
para si o que imaginam ser capaz de deleitar os outros \u2013 pois, como dissemos, as imagens das coisas são as 
próprias afecções do Corpo humano, ou modos pelos quais o Corpo humano é afetado por outros corpos e é 
disposto a fazer isto ou aquilo.
PROPOSIÇÃO XXXIII
Quando amamos uma coisa semelhante a nós mesmos, nos esforçamos, na medida em que podemos, por fazer com que 
ela nos ame também.
Demonstração
Nós nos esforçamos, na medida em que podemos, por imaginar a coisa que amamos mais do que as outras 
coisas (pela Prop. 12). Portanto, se esta coisa é semelhante a nós, nos esforçaremos para afetá-la de Alegria 
acima das demais coisas (pela Prop. 29) ou, nos esforçaremos, na medida em que pudermos, por fazer com 
que a coisa