93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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afetos, chamando 
assim alguns de intrépidos, outros de tímidos e outros de outros nomes. Por exemplo, eu chamarei de intrépido 
(intrepidum) quem desconsidera um mal que eu estou acostumado a temer. Além disso, eu o chamarei de 
audacioso (audacem) se atentar que seu Desejo de fazer o mal a quem odeia e o bem a quem ama não é contido 
pelo temor de um mal que usualmente me contém. Por outro lado, considerarei medroso (timidus) quem teme um 
mal que tenho o hábito de desconsiderar. E eu o chamarei de covarde (pulsillaniem) se atentar que seu Desejo [de 
fazer o mal a quem odeia e o bem a quem ama] é contido pelo temor de um mal que não é capaz de me conter. E 
assim julgarei a todos.
Finalmente, por causa desta inconstância na natureza e no juízo do homem, como ele comummente julga as 
coisas somente por seu afeto e como as coisas que ele julga levarem à Alegria e à Tristeza, e que, portanto (pela 
Prop. 28), ele se esforça por promover ou evitar, são frequentemente imaginárias \u2013 para não mencionar o que 
mostramos na Parte II sobre a incerteza das coisas \u2013 concebemos facilmente que o homem pode ser causa tanto 
de sua tristeza e de sua alegria, ou seja, que ele é afetado tanto de Tristeza, como de Alegria, concomitante a 
idéia de si mesmo como causa. Donde entendemos facilmente o que são a Culpa (Poenitentia) e a Auto-Estima 
(Acquiescentia in se ipso), pois a Culpa é a Tristeza concomitante à idéia de si como causa, e a Auto-Estima é a Alegria 
concomitante à idéia de si como causa. E estes afetos são veementes ao extremo, porque os homens se crêem livres 
(vide Prop. 49).
* Mostramos que isto pode acontecer mesmo sendo a Mente humana parte do intelecto divino no Esc. Prop. 
13 P II.
PROPOSIÇÃO LII
Nós não contemplamos por tanto tempo um objeto que vimos anteriormente juntamente com outros, ou em que só 
imaginamos o que é comum a ele e a muitos outros, quanto aquele que imaginamos ter algo de singular.
Demonstração
Quando imaginamos um objeto que vimos com outros, imediatamente nos recordamos dos outros (pela Prop 
18 P II, e também por seu Esc.), e assim da contemplação de um passamos imediatamente à contemplação 
dos outros. E o raciocínio é o mesmo com relação o objeto em que só imaginamos aquilo que é comum a muitos, 
pois supomos então que só contemplamos nele aquilo que anteriormente vimos ao vê-lo junto com outros. Mas 
quando supomos que imaginamos ver no objeto algo de singular, que nunca vimos antes, dizemos então que a 
Mente não tem nada capaz de fazê-la passar da contemplação deste objeto à contemplação de um outro. Por 
conseguinte, ela é determinada a contemplar apenas este objeto. Logo, nós não contemplamos, etc. QED
Escólio
Esta afecção da Mente, ou seja, a imaginação de uma coisa singular que permanece sozinha na mente, chama-se 
Admiração (Admiratio), mas se ela é suscitada por um objeto que tememos, chama-se Consternação (Consternatio), pois a 
Admiração de um mal mantém o homem de tal forma suspenso em contemplá-la que ele sequer consegue 
pensar em outras coisas capazes de evitar este mal. Mas se o que admiramos é a prudência, ou a indústria de um 
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
homem, ou qualquer outra coisa similar em que este homem se nos ultrapasse, então a Admiração se chama Veneração 
(Veneratio); chama-se, porém, Horror (Horror) se admiramos da ira ou da inveja de um homem. Além disso, se 
amamos um homem cuja prudência e indústria admiramos, este Amor (pela Prop. 12) será por isto mesmo 
maior, de sorte que chamaremos de Devoção (Devotionem) este Amor unido à Admiração ou à Veneração. Deste 
mesmo modo podemos conceber o Ódio, a Esperança, a Segurança e outros afetos unidos à Admiração e 
poderíamos assim deduzir mais Afetos do que é possível designar com a linguagem comum. Donde vemos que 
os nomes dos Afetos foram inventados mais a partir do uso vulgar do que do conhecimento acurado.
À admiração se opõe o Desprezo (Contemptus), cuja causa mais freqüente é a seguinte. Pelo fato de vermos que 
alguém admira, ama, teme, etc. algo, ou por que algo parece-nos semelhante a uma coisa que admiramos, 
amamos, tememos, etc., somos (pela Prop. 15 com seu Cor. e pela Prop. 27) determinados a admirar, 
amar, temer, etc. esta coisa. Mas se a presença desta coisa, ou uma contemplação mais acurada, nos força a 
negar-lhe tudo o que possa ser causa de Admiração, Amor, Medo, etc., então a Mente é determinada pela 
presença da coisa a pensar no que não existe no objeto e não naquilo que nele existe \u2013 ao contrário do que ocorre 
habitualmente, pois a presença do objeto normalmente leva a Mente a pensar naquilo que existe no objeto. 
Assim como a Devoção se origina da admiração à coisa que amamos, o Escárnio (Irrisio) se origina do Desprezo 
com relação à coisa que odiamos ou tememos e o Desdém (Dedignatio) se origina no Desprezo pela tolice, assim 
como a Veneração se origina na da Admiração pela prudência. Podemos assim conceber o Amor, a Esperança, a 
Glória e outros afetos, unidos ao Desprezo para deduzir outros afetos aos quais não temos, porém, o hábito de 
distinguir por meio de vocábulos específicos.
PROPOSIÇÃO LIII
A Mente se alegra quando contempla a si mesma e a sua potência de agir, e tanto mais quanto mais distintamente 
imagina a si mesma e a sua potência de agir.
Demonstração
O Homem só conhece a si mesmo através das afecções de seu Corpo e das idéias delas (pelas Props. 19 e 23 P 
II). Quando, pois, a Mente pode contemplar a si mesma, supõe-se que por isso ele passe a uma perfeição maior, 
isto é (pelo Esc. Prop. 11), se alegre, e tanto mais quanto mais distintamente possa imaginar a sua potência 
de agir. QED
Corolário
Esta alegria é tanto mais favorecida, quanto mais o homem se imagina elogiado pelos outros.
Pois quanto mais ele se imagina elogiado pelos outros, maior é a Alegria concomitante à idéia dele mesmo que 
ele imagina afetando os outros (pelo Esc. Prop. 29). Logo, (pela Prop. 27) ele próprio é afetado por uma 
Alegria maior, concomitante à idéia dele mesmo.
PROPOSIÇÃO LIV
A Mente se esforça por imaginar apenas as coisas que põe a sua potência de agir.
Demonstração
O esforço da Mente, ou sua potência, é a própria essência da Mente (pela Prop. 7). Por outro lado, a essência 
da Mente (como é evidente) só afirma o que a mente é e pode, e não o que ela não é ou não pode. Logo, ela se 
esforça apenas por imaginar o que afirma, ou põe, a sua potência de agir. QED
PROPOSIÇÃO LV
A Mente se entristece quando imagina sua impotência.
Demonstração
A essência da Mente afirma o que a Mente é e pode, ou seja, é da natureza da Mente imaginar o que põe a sua 
potência de agir (pela Prop. precedente). Assim, quando dizemos que a Mente ao contemplar a si mesma 
imagina sua impotência, dizemos apenas que a Mente, ao se esforçar por imaginar o que põe a sua potência de 
agir, tem este esforço limitado, ou (pelo Esc. Prop. 11) que ela se entristece. QED.
Tradução: Roberto Brandão
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Corolário I
Esta tristeza é fomentada sem cessar quando em quem se imagina objeto da censura dos outros; como foi 
demonstrado no Cor. Prop. 53.
Escólio
Esta Tristeza, concomitante à idéia de nossa fraqueza chama-se Humildade (Humilitas). Por outro lado, a Alegria que se 
origina na contemplação de nós mesmos chama-se Amor-Próprio (Philautia) ou Auto-Estima (Aquiescentia in se ipso). E 
como estas se repetem sempre que o homem contempla a suas virtudes ou sua potência de agir, a conseqüência 
é que todos se aprazem em narrar seus feitos e ostentar a força de seu corpo ou de sua alma, e assim os homens 
acabam incomodando uns aos outros. Disso se segue que os homens são por natureza invejosos (ver Esc. 
Prop. 24 e Esc. Prop. 32), ou que eles se alegram da fraqueza de seus iguais e se entristecem