93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
76 pág.

93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
Pré-visualização37 páginas
nem pôr nem tolher a existência de Deus. Já que a razão ou causa que poderia tolher a existência de 
Deus não pode estar fora da natureza divina, ela deveria, se Deus não existe, se encontrar necessariamente 
dentro de sua própria natureza, que, por isso, envolveria contradição. Ora, afirmar isto do Ente absolutamente 
infinito e sumamente perfeito é absurdo. Logo, não há nem em Deus nem fora de Deus nenhuma causa ou razão 
que lhe tolha a existência e, portanto, Deus existe necessariamente. QED
Alternativamente
Poder não existir é uma impotência, e, ao contrário, poder existir é uma potência (como é evidente). Se, portanto, 
existissem agora necessariamente apenas entes finitos, então os entes finitos seriam mais potentes do que o Ente 
absolutamente infinito: e isto (como é evidente) é um absurdo; e, portanto, ou nada existe, ou o Ente 
absolutamente infinito existe também. Ora nós existimos, seja em nós ou em outra coisa que exista 
necessariamente (veja Axioma 1 e Prop. 7). Portanto, o Ente absolutamente infinito, isto é (pela Def. 6), 
Deus, existe necessariamente. QED
Escólio
Nesta última demonstração, quis mostrar a existência de Deus a posteriori para que a demonstração fosse mais 
fácil de perceber, o que não quer dizer que a existência de Deus não se siga a priori do mesmo fundamento. Pois 
uma vez que poder existir é uma potência, segue-se que, quanto mais realidade compete à natureza de uma 
coisa, mais força ela tem de existir. E, precisamente, o ser absolutamente infinito, ou Deus, tem uma potência 
absoluta e infinita de existir e, portanto, existe absolutamente.
Mas talvez muitos não tenham facilidade de ver a evidência desta demonstração, acostumados que estão a só 
contemplar coisas que são determinadas por causas externas. Eles vêem nelas que as coisas que são feitas 
rapidamente, isto é, as que existem facilmente, também perecem facilmente. Inversamente, julgam que coisas às 
quais muitas coisas se relacionam, são mais difíceis de fazer, isto é, não existem facilmente. Mas para livrá-los 
destes preconceitos, não tenho necessidade de mostrar aqui a razão por que é verdadeiro dito o que é feito rápido, 
rápido perece, nem de mostrar que com relação à natureza inteira todas as coisas são igualmente fáceis. É 
suficiente notar que não falo aqui de coisas que existem devido a causas externas, mas apenas da substância, que 
(pela Prop. 6) não pode ser produzida por nenhuma causa externa. Pois as coisas que existem devido a causas 
externas, quer sejam compostas de muitas ou poucas partes, devem toda sua perfeição ou realidade à potência 
(virtus) da causa externa, e, por conseguinte, sua existência se origina da perfeição da causa externa e da 
perfeição delas mesmas. Ao contrário, a perfeição da substância não se deve a nenhuma causa externa, pois sua 
existência só deve se seguir de sua própria natureza, que é sua própria essência.
Portanto, a perfeição de uma coisa não lhe tolhe a existência, mas, ao contrário, a estabelece, enquanto que a 
imperfeição esta sim tolhe a existência. Donde não podemos estar mais certos da existência algo do que da 
existência do Ente absolutamente infinito, ou perfeito, isto é Deus. Pois sua essência exclui toda imperfeição e 
envolve a perfeição absoluta, fato que dá à sua existência a mais alta certeza e suprime toda razão para dela 
duvidar, o que, acredito, ficará claro para quem preste mediana atenção.
PROPOSIÇÃO XII
Não se pode conceber verdadeiramente nenhum atributo do qual se siga que a substância possa se dividir.
Demonstração
As partes em que a substância se dividiria, ou guardariam a natureza da substância, ou não. No primeiro caso, 
cada parte deveria ser (pela Prop. 8) infinita (pela Prop. 6), causa de si e (pela Prop. 5) consistir em um 
atributo diferente, donde, de uma substância se poderia constituir várias, o que (pela Prop. 6) é absurdo. 
Acrescente-se a isso que (pela Prop. 2) as partes não teriam nada em comum com o todo, e o todo (pela Defin. 
Tradução: Roberto Brandão
6
. 6
B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
4 e Prop. 10) poderia ser e ser concebido sem as suas partes, o que é um absurdo para além de qualquer 
dúvida. No segundo caso, a saber, em que as partes não guardariam a natureza da substância, a substância 
perderia sua natureza e deixaria de existir, o que (pela Prop. 7) é absurdo.
PROPOSIÇÃO XIII
Uma substância absolutamente infinita é indivisível.
Demonstração
Se fosse divisível, as partes em que se dividiria, ou guardariam a natureza da substância absolutamente infinita, 
ou não. No primeiro caso, haveria várias substâncias de mesma natureza, o que (pela Prop. 5) é absurdo. No 
segundo caso, a substância absolutamente infinita (como vimos acima) deixaria de existir, o que (pela Prop. 11) é 
absurdo.
Corolário
Segue-se que nenhuma substância, e consequentemente, nenhuma substância corpórea, pode, enquanto 
substância, ser divisível.
Escólio
Compreende-se mais simplesmente que a substância é indivisível, tendo em vista que a natureza da substância 
só pode ser concebida como infinita, mas uma parte da substância só pode ser entendida como uma substância 
finita, implicando (pela Prop. 8) em contradição evidente.
PROPOSIÇÃO XIV
Afora Deus não pode haver nem ser concebida nenhuma substância.
Demonstração
Como Deus é o ente absolutamente infinito, que não pode ser negado por nenhum atributo exprimindo a 
essência da substância (pela Def. 6) e que existe necessariamente (pela Prop. 11), se houvesse alguma 
substância além de Deus, ela deveria se explicar por algum atributo de Deus e existiriam duas substâncias de 
mesmo atributo, o que (pela Prop. 5) é absurdo. Donde não pode haver, nem consequentemente ser concebida, 
nenhuma substância afora Deus. Pois se fosse possível conceber tal substância, ela deveria ser necessariamente 
ser concebida como existente, o que (pela primeira parte desta Demonstr.) é absurdo. Logo, afora Deus não pode 
haver nem ser concebida nenhuma substância. QED
Corolário I
Segue-se de forma claríssima (I) Que Deus é único, isto é (pela Def. 6), que na natureza só há uma substância, 
que é absolutamente infinita, como indicamos no Esc. Prop 10.
Corolário II
Segue-se (II) que a coisa extensa e a coisa pensante ou são atributos de Deus ou (pelo Axioma 1) são afecções 
dos atributos de Deus.
PROPOSIÇÃO XV
Tudo que é, é em Deus e sem Deus nada pode ser nem ser concebido.
Demonstração
Afora Deus não pode haver nem ser concebida nenhuma substância (pela Prop. 14), isto é (pela Def. 3) 
nenhuma coisa que é em si e é concebida por si. E os modos (pela Def. 5) não podem ser nem ser concebidos 
sem a substância e, portanto, só podem ser na natureza divina e só podem ser concebidos por ela. Ora, nada 
existe além de substâncias e modos (pelo Axiom. 1). Logo, nada pode ser nem ser concebido sem Deus. QED
Escólio
Há quem imagine que Deus, à semelhança do homem, é composto de corpo e mente e está sujeito às paixões. 
Mas o quão eles se afastam da verdadeiro conhecimento de Deus já foi suficientemente estabelecido pelo que 
Tradução: Roberto Brandão
7
. 7
B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
demonstramos. Mas os deixo de lado, pois todos os que contemplaram de algum modo a natureza divina negam 
que Deus seja corpóreo. Eles o provam muito bem partindo de que entendemos por corpo algo dotado de 
quantidade, comprimento, largura e profundidade e limitado por alguma figura e isto não pode ser dito de 
Deus, o ente absolutamente infinito, sem recair no maior dos absurdos. E, no entanto, por outros argumentos 
que acrescentam no esforço por demonstrar a mesma coisa, mostram claramente que removem por completo a 
substância corpórea ou extensa da natureza divina, estabelecendo que ela foi criada por Deus. Mas por qual 
potência divina ele pôde criá-la, eles mesmos ignoram, mostrando