93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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desejo de procriar, mas um tem desejo 
para procriar eqüino e outro tem uma desejo para procriar humano. E também devem ser diferentes entre si o 
Desejo de procriar e os Apetites dos Insetos, dos peixes e das aves.
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
Ainda que cada indivíduo viva contente com a natureza que tem e se alegre2 dela, esta vida com que cada um 
está contente e esta alegria são a própria idéia ou alma do indivíduo, e assim, a Alegria de um e a alegria do 
outro diferem em natureza tanto quanto a essência de um difere da essência do outro. Por fim, gostaria de 
ressaltar de passagem que se segue da Proposição precedente, por exemplo, que não é pequena a 
distância entre a alegria que move o Bêbado e a alegria do Filósofo.
Mas isto basta quanto aos afetos que se referem ao homem enquanto ele padece. Cabe ainda acrescentar algo no 
quanto [aos afetos] que se referem a ele enquanto ele age.
PROPOSIÇÃO LVIII
Além da Alegria e do Desejo que são paixões, há afetos de Alegria e desejo que se referem a nós enquanto agimos.
Demonstração
A Mente se alegra quando concebe a si mesma e a sua potência de agir (pela Prop. 53). Mas a Mente 
necessariamente contempla a si mesma quando concebe uma idéia verdadeira ou adequada (pela Prop. 43 P II). 
Como a Mente concebe algumas idéias adequadas (pelo Esc. 2 Prop. 40), então, ela se alegra enquanto concebe 
tais idéias adequadas, isto é (pela Prop. 1), enquanto age.
A Mente se esforça por perseverar no ser tanto quando tem idéias claras e distintas quanto quando tem idéias 
confusas (pela Prop. 9). Mas por esforço entendemos aqui o Desejo (pela Prop. 9) e, portanto, quando 
entendemos, ou (pela Prop. 1) quando agimos o Desejo também se refere a nós. QED
PROPOSIÇÃO LIX
Entre os afetos que se referem à Mente enquanto ela age, não há nenhum que não se refira ao Desejo ou à Alegria. 
Demonstração
Todos os afetos se referem ao Desejo, à Alegria ou à Tristeza, como mostram as definições que apresentamos. 
Por outro lado, entendemos por Tristeza aquilo que diminui ou limita a potência de agir da Mente (pela Prop. 
11 e seu Esc.). Portanto, quando a Mente se entristece, sua potência de entender ou de agir (pela Prop. 1) é 
diminuída ou limitada. Portanto, nenhum afeto de Tristeza pode ser referir à Mente quando ela age, mas apenas 
os afetos de Alegria e Desejo que, (pela Prop precedente) também se referem à Mente. QED
Escólio
Chamo de Força de Caráter (Fortitudinem) a todas as ações que se seguem dos afetos que se referem à Mente 
enquanto ela entende, dentre as quais distingo Firmeza (Animositatem) e a Generosidade (Generositatem). Entendo 
por Firmeza o Desejo de conservar o seu ser apenas segundo os ditames da razão e por Generosidade entendo o Desejo de 
ajudar os outros homens apenas segundo os ditames da razão e de uní-los a si por amizade. Portanto, as ações que têm 
como intenção apenas a utilidade do agente se referem à Firmeza e aquelas que tem como intenção a utilidade 
dos outros se referem à Generosidade. Assim, a Temperança (Temperantia), a Sobriedade (Sobrietas), a presença de 
espírito diante do perigo e etc. são espécies de Firmeza. Por outro lado, a Modéstia (Modestia) e a Clemência 
(Generositatis) e etc. são espécies de Generosidade. 
Com isto penso ter explicado e mostrado por suas causas primeiras os principais afetos e flutuações da alma 
originados dos três afetos primitivos, a saber, do Desejo, da Alegria e da Tristeza. E fica evidente que as causas 
externas nos agitam de muitos modos e que flutuamos como ondas do mar agitadas por ventos contrários, sem 
saber de nossa sorte ou nosso destino. Mas disse também que mostrei somente os principais conflitos da alma e 
não todos. Pois prosseguindo pela mesma via podemos facilmente mostrar que o Amor pode estar unido à 
Culpa, ao Desdém ao Pudor, etc. Creio que fica claro do que disse que os afetos podem se compor uns com os 
outros de tantos modos e originar tantas variações que não é possível atribuir-lhes um número definido. Mas 
2 Spinoza usa a palavra Gaudium. Quando Gaudium é utilizada para definir um afeto, traduzimos o termo 
como Grata Surpresa, que é \u201cAlegria originada da imagem de uma coisa que temíamos ou esperávamos\u201d 
(ver Esc. 2 Prop. 18). Entretanto, nesta passagem Spinoza não parece estar se referindo a coisas 
passadas. Aqui, como em outras passagens, Spinoza usa em um sentido livre ou comum um termo definido 
com rigor em outro lugar. Neste espírito traduzimos aqui Gaudium por alegria.
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
para meu intento, basta ter enumerado os principais, uma vez que os demais teriam mais curiosidade do que 
utilidade.
Resta notar a respeito do Amor que quando fruímos de uma coisa que nos apetece, frequentemente a própria 
fruição faz o Corpo adquirir um novo estado pelo qual ele é determinado de uma nova maneira, fazendo surgir 
imagens de outras coisas que a Mente começa a imaginar e a desejar. Por exemplo, quando imaginamos uma 
coisa cujo sabor habitualmente nos deleita, temos o desejo de fruí-la ou comê-la. Mas quando a fruímos, o 
estômago fica cheio e o Corpo se constitui de uma nova maneira. Se então, já com o corpo disposto da nova 
maneira, a presença [do alimento] fomenta sua imagem e consequentemente o esforço ou Desejo de comê-lo, 
este Desejo ou esforço repugna ao novo estado e, consequentemente, a presença da coisa que apetecemos se 
torna odiosa e é isto que chamamos de Fastio (Fastidium) ou Tédio (Taedium).
Além disso, não considerei as afecções externas do Corpo, que são observadas nos afetos, como o tremor, a 
lividez, os soluços, os risos, que se referem apenas ao Corpo, sem relação com a Mente. Finalmente, cabe notar 
algumas coisas sobre as definições dos afetos, que repetirei aqui em ordem, intercalando entre elas algumas 
observações.
DEFINIÇÕES DOS AFETOS
I. O Desejo (Cupiditas) é própria essência do homem, enquanto ela é concebida como determinada, por uma afecção 
qualquer dela mesma, a fazer algo.
Explicação
Dissemos acima, no Escólio da Proposição 9, que o Desejo é o apetite com consciência dele mesmo e que, 
por sua vez, o apetite é a própria essência do homem, enquanto é determinada a fazer algo para a sua 
conservação. Mas no mesmo Escólio eu adverti que não reconhecia nenhuma diferença entre apetite humano e o 
Desejo. Pois quer o homem seja consciente de seu apetite ou não, o apetite permanece sendo o mesmo. Assim, 
para não dar a impressão de cometer uma tautologia, não expliquei aqui o Desejo pelo apetite, mas procurei 
defini-lo de forma a compreender todos os esforços humanos que chamamos de apetite, vontade, desejo ou 
ímpeto. E poderia apenas ter dito aqui que o Desejo é a essência do homem enquanto ela é concebida como 
determinada a fazer algo, mas de tal definição (pela Prop. 23 P II) não se segue que o homem possa ser 
consciente de seu Desejo ou apetite. Portanto, para envolver a causa da consciência, foi necessário acrescentar 
(pela mesma Proposição), enquanto é determinada por uma afecção qualquer dela mesma, etc. Pois por afecção da 
essência humana entendemos qualquer estado desta essência, seja ele inata, seja concebido somente pelo 
Pensamento, ou somente pela Extensão, ou por ambos simultaneamente.
Portanto, pela palavra Desejo entendo quaisquer esforços, ímpetos, apetites e volições, que variam conforme 
varia o estado em que se encontra o homem e não raro são de tal modo opostos um ao outro, que o homem é 
puxado para diferentes direções e não sabe para onde se voltar.
II. A Alegria (Laetitia) é a transição do homem de uma perfeição menor a uma perfeição maior.
III. A Tristeza (Tristitia) é a transição do homem de uma perfeição maior para uma perfeição menor.
Explicação
Digo transição. Pois a Alegria não é a própria perfeição.