93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.825 seguidores
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claramente que não entendem o que eles 
mesmos dizem. Quanto a mim, demonstrei com clareza, a meu juízo pelo menos (vide Corol Prop. 6 e Esc. 
2 Prop. 8), que nenhuma substância pode ser produzida ou criada por outra coisa. Em seguida, na Prop. 
14, mostramos que afora Deus não pode haver ou ser concebida nenhuma substância, donde concluímos que a 
substância extensa é um dos infinitos atributos de Deus. Mas para uma explicação mais completa, refutarei os 
argumentos dos adversários que recaem no seguinte.
Primeiramente, a substância corpórea, enquanto substância, é composta de partes, pensam eles. Por esta razão 
negam que ela possa ser infinita e que possa pertencer a Deus. E explicam isto por múltiplos exemplos, dos 
quais mencionarei um ou outro. Se a substância corpórea é infinita, dizem, conceba-se sua divisão em duas 
partes. Cada uma delas será ou finita ou infinita. Se for finita, o infinito seria composto de duas partes finitas, o 
que é absurdo. Se for infinita, haveria um infinito duas vezes maior que outro, o que também é absurdo. Além 
disso, se uma quantidade infinita for medida em partes de um pé, deve ser composta de infinitas de tais partes, 
da mesma forma como se for medida em partes de uma polegada, e assim um número infinito será doze vezes 
maior que outro número, o que é não menos absurdo. Finalmente, se concebemos que de um ponto de certa 
quantidade infinita, duas linhas, sejam AB e AC, que têm no início uma distância determinada, se projetam ao 
infinito. É certo que a distância entre B e C aumentará continuamente, até se transformar, de determinada que 
era, em indeterminada. E como tais absurdos se seguem, pensam eles, de que se supõe uma quantidade infinita, 
concluem que a substância corpórea deve ser finita e, consequentemente, que ela não deve pertencer à essência 
de Deus.
FALTA UMA ILUSTRAÇÃO
Um segundo argumento aponta para a suma perfeição de Deus. Deus sendo o ente sumamente perfeito, dizem 
eles, não pode ser passivo. Mas a substância corpórea, que é divisível, pode ser passiva, donde se segue que ela 
não pertence à essência de Deus. Estes são argumentos que encontro nos escritores que se esforçam por mostrar 
que a substância corpórea é indigna da natureza divina e não pode a ela pertencer. Mas em verdade, quem 
prestar atenção verá que já lhes respondi, pois tais argumentos estão fundados na suposição de que a substância 
corpórea é composta de partes, o que (pela Prop. 12 e Corol. Prop 13) mostrei ser absurdo. Em seguida, 
quem quiser corretamente examinar a coisa verá que todos estes absurdos (se forem todos absurdos, o que por ora 
não discuto), através dos quais procuram concluir que a substância extensa é finita, não seguem nem um pouco 
da suposição de uma quantidade infinita, e sim da suposição de uma quantidade infinita mensurável e 
composta de partes finitas. E, portanto, os absurdos que disso se seguem podem apenas concluir que uma 
quantidade infinita não é mensurável e que não pode ser composta de partes finitas. Mas isso é justamente o que 
nós (Prop. 12, etc.) já demonstramos. E assim a arma que nos apontaram na verdade se volta contra eles. Se, 
portanto, deste absurdo pretendem concluir que a substância extensa deve ser finita, fazem como aquele que, 
tendo imaginado que o círculo tem as propriedades do quadrado, conclui não ter o círculo não um centro a 
partir do qual as linhas tiradas com relação à circunferência são iguais. Pois a substância corpórea, que só pode 
ser concebida como infinita, única e indivisível (veja Props. 8, 5 e 12), eles a concebem composta de partes 
finitas, múltiplas e divisíveis, para poder então concluir que ela é finita. Igualmente, é assim que outros, após 
terem imaginado que uma linha é composta de pontos, souberam inventar numerosos argumentos para mostrar 
que uma linha não pode ser infinitamente dividida. Com efeito, não é menos absurdo supor que a substância 
corpórea seja composta de corpos ou partes, do que supor um corpo composto de superfícies, superfícies 
compostas de linhas e linhas compostas de pontos. E isto, todos os que sabem que uma razão clara é infalível 
devem reconhecer \u2013 e, em primeiro lugar, os que negam a existência do vácuo. Pois se a substância corpórea 
pudesse ser dividida de forma que suas partes fossem realmente distintas, não poderia uma parte ser eliminada 
enquanto as partes remanescentes mantivessem suas conexões anteriores? E por que todas as partes devem se 
ajustar de forma que não haja vácuo? Certamente, se as coisas são realmente distintas entre si, uma pode ser e 
manter sua condição sem as outras. Mas como não há vácuo na natureza (ver sobre isso alhures), devendo todas as 
partes dela concorrer para que não haja vácuo, segue-se que estas partes não podem ser realmente distintas, isto 
é, que a substância corpórea, enquanto substância, não pode ser dividida.
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
Se, entretanto, perguntarmos por que razão somos naturalmente propensos a fazer divisões de quantidade, 
responderei que podemos conceber a quantidade de dois modos: seja abstratamente (ou superficialmente) na 
medida em que imaginamos, seja como substância, o que só pode ser feito pelo intelecto. Se atentamos para a 
quantidade como ela é na imaginação, o que fazemos frequentemente e com facilidade, vemos que ela é finita, 
divisível e composta de partes. Mas se a atentamos a ela como ela é no intelecto e a concebemos como 
substância, o que acontece raramente e com grande dificuldade, vemos, e isso já demonstramos, como infinita, 
única e indivisível. Por exemplo, podemos conceber que a água, enquanto água, pode ser dividida e que suas 
partes se separam umas das outras. Mas a água, enquanto substância corpórea não ser separada nem dividida. E 
isto é evidente para todos os que saibam distinguir entre imaginação e intelecto, particularmente ao atentar que 
a matéria é a mesma em todo lugar, e as partes são distintas apenas na medida em que concebemos a matéria 
como sendo afetada de diferentes maneiras \u2013 as partes, portanto, são distintas modalmente e não realmente. Por 
exemplo, podemos conceber que a água, enquanto água, seja divisível e suas partes possam ser separadas umas 
das outras. Mas a água, enquanto substância corpórea não pode ser separada nem dividida. E novamente, a 
água, enquanto água, pode ser gerada e corrompida, mas enquanto substância não pode ser nem gerada nem 
corrompida.
Com isso julgo ter respondido ao segundo argumento, posto que ele está fundado na suposição de que a 
matéria, como substância, é divisível e composta de partes. E mesmo que assim não fosse, ignoro por que [a 
matéria] seria indigna da natureza divina, pois (pela Prop. 14) fora de Deus não pode haver nenhuma 
substância que o tornasse passivo. Eu digo que todas as coisas são em Deus e que tudo o se que acontece, 
acontece somente através das leis da natureza infinita de Deus e se segue (mostrarei em seguida) da necessidade 
de sua essência. Então, não há razão alguma para dizer que Deus possa ser passivo ou que a sustância extensa 
(ainda que seja suposta como divisível, mas concedendo ser ela eterna e infinita) seja indigna da natureza 
divina. Mas a este propósito basta pelo momento.
PROPOSIÇÃO XVI
Da necessidade na natureza divina devem se seguir infinitas coisas de infinitos modos (isto é, tudo o que possa ser cair 
sob um intelecto infinito).
Demonstração
Esta proposição deve ser evidente para qualquer um, bastando para isso atentar para que o intelecto conclui, da 
definição de uma coisa (isto é, da própria essência da coisa), diversas propriedades que dela se seguem 
necessariamente, e que estas são em maior número quanto mais realidade a definição da coisa exprimir, isto é 
quanto mais realidade a essência da coisa envolver. E como a natureza divina tem absolutamente infinitos 
atributos (pela Def. 6),