93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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pois se uma coisa que não é determinada por Deus pudesse determinar-se por si mesma, a 
primeira parte da proposição seria falsa, o que, como mostramos, é absurdo.
PROPOSIÇÃO XXVII
Uma coisa que é determinada por Deus a operar algo, não pode se tornar indeterminada por si mesma.
Demonstração
Esta proposição é evidente pelo Axioma 3.
PROPOSIÇÃO XXVIII
Toda coisa singular, isto é, toda coisa que é finita e tem uma existência determinada, só pode existir e ser determinada a 
operar se for determinada a existir e a operar outra causa, que, por sua vez, também deve ser finita e ter uma existência 
determinada. E esta causa, a seu turno, só pode existir e ser determinada a operar se for determinada por outra, também 
ela finita e com existência determinada, e assim ao infinito.
Demonstração
Tudo o que é determinado a existir e a operar é assim determinado por Deus (pela Prop. 26 e Cor. Prop 
24). Ora, o que é finito e tem uma existência determinada não pode ter sido produzido pela natureza absoluta 
de um atributo de Deus, pois tudo o que se segue da natureza absoluta de um atributo de Deus é infinito e 
eterno (pela Prop. 21). Logo, deve ter se seguido de Deus ou de um atributo de Deus, enquanto considerado 
como afetado de certo modo, pois nada existe além da substância e dos modos (pelo Axioma 1 e Defs. 3 e 5) e 
os modos (pelo Cor. Prop. 25) são as afecções dos atributos de Deus. Ora, [algo que é finito e tem uma 
existência determinada,] não pode ter se seguido nem de Deus nem de um atributo de Deus, enquanto afetado 
de uma modificação que é eterna e infinita (pela Prop. 22). Deve, portanto, ter se seguido, ou ter sido 
determinado a existir e a operar, de Deus ou de um atributo de Deus, enquanto modificado de uma modificação 
que é finita e tem uma existência determinada. O que era o primeiro ponto. Em seguida, esta causa, a seu turno, 
ou este modo (pelo mesmo raciocínio com que demonstramos a primeira parte), deve ter se seguido de um outro, que 
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
também deve ser finito e ter sua existência determinada, e este último (pela mesma razão), por outro, e assim 
sempre (pela mesma razão), ao infinito. QED
Escólio
Como algumas coisas devem ter sido produzidas por Deus imediatamente, a saber, as que se seguem 
necessariamente de sua natureza absoluta, e outras (que, todavia, não podem ser nem ser concebidas sem Deus) 
[devem ter sido produzidas] mediante estas primeiras, segue-se:
(I) Que Deus é causa absolutamente próxima das coisas por ele produzidas imediatamente e não [causa 
próxima] em seu gênero, como dizem, pois os efeitos de Deus não podem ser nem ser concebidos sem ele, que é 
sua causa (pela Prop. 15 e Cor. Prop 24).
(II) Que Deus não pode ser dito propriamente causa remota das coisas singulares, senão, talvez, para distinguir 
estas das que ele produziu imediatamente, ou melhor, das que seguem de sua natureza absoluta. Pois por causa 
remota entendemos uma causa tal que não está de forma alguma conectada a seu efeito. Ora, tudo o que é, é em 
Deus, e é de tal forma dependente de Deus que não pode sem ele nem ser nem ser concebido.
PROPOSIÇÃO XXIX
Na natureza não há nada contingente, mas tudo é determinado pela necessidade da natureza divina a existir e a operar 
de certo modo.
Demonstração
Tudo o que é, é em Deus (pela Prop. 15) e Deus não pode ser dito coisa contingente. Pois (pela Prop. 11) 
existe necessariamente e não de forma contingente. Além disso, os modos da natureza divina também se 
seguem dela necessariamente e não de forma contingente (pela Prop. 11), e isto, quer enquanto consideramos 
a natureza divina absolutamente (pela Prop. 21), quer enquanto a consideramos determinada a agir certo 
modo (pela Prop. 27). Além disso, Deus não é causa dos modos apenas enquanto simplesmente existem (pelo 
Cor. Prop. 24), mas também (pela Prop. 26) enquanto os consideramos como determinados a operar algo. 
Pois se não forem determinados por Deus (pela mesma Prop) é impossível, e não contingente, que eles se 
determinem a si próprios. E, ao contrário (pela Prop. 27), se Deus não os determinar, é impossível, e não 
contingente, que eles se tornem indeterminados por si próprios. Tudo, portanto, é determinado pela necessidade 
da natureza divina, não apenas a existir, mas a existir e a operar de certo modo e não há nada que seja 
contingente. QED
Escólio
Antes de prosseguir, gostaria de explicar, ou melhor, lembrar [ao leitor], o que nós entendemos por Natureza 
naturante e Natureza naturada. Estimo que do já exposto ficou estabelecido que por Natureza naturante 
entendemos o que é em si e se concebe por si, ou, em outras palavras, os atributos da substância, que exprimem 
uma essência eterna e infinita, isto é (por Cor 1 Prop. 14 e Cor 2 Prop. 17), Deus enquanto considerado 
como causa livre. E por [Natura] naturada entendo tudo o que se segue da natureza de Deus, ou, de outro 
modo, [o que se segue] de cada um dos atributos de Deus, isto é, todos os modos de todos os atributos de Deus, 
enquanto são considerados como coisas que são em Deus e que sem Deus não podem nem ser nem ser 
concebidas.
PROPOSIÇÃO XXX
Um intelecto, seja finito em ato ou infinito em ato, deve compreender os atributos de Deus e as afecções dos atributos e 
nada mais.
Demonstração
Uma idéia verdadeira deve convir com seu ideado (pelo Axioma 6), isto é, como é evidente, o que o intelecto 
contém objetivamente deve necessariamente estar dado na natureza. Ora, na natureza (pelo Cor. 1 Prop 14) 
só existe uma substância, Deus, certamente, assim como só existem as afecções (pela Prop. 15) que são em 
Deus e que (pela mesma Prop.) sem Deus não podem nem ser nem serem concebidas. Portanto, um 
intelecto, seja finito em ato ou infinito em ato, deve compreender os atributos de Deus e as afecções dos 
atributos e nada mais. QED 
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
PROPOSIÇÃO XXXI
Um intelecto em ato, seja ele finito ou infinito, assim como a vontade, o desejo, o amor, etc., deve ser referido à Natureza 
naturada e não à Natureza naturante.
Demonstração
Por intelecto entendemos (como é evidente) não o pensamento absoluto, mas apenas certo modo do 
pensamento, que difere de outros modos como o desejo, o amor, etc. e que, portanto (pela Def. 5), deve ser 
concebido pelo pensamento absoluto, a saber (pela Prop. 15 e Def. 6), por um atributo de Deus que exprime 
a essência eterna e infinita do pensamento, e deve se concebido de tal sorte que sem ele não possa nem ser nem 
ser concebido. Logo, [o intelecto,] como os demais modos do pensamento, deve (pelo Esc. Prop. 29) ser 
referido à Natureza naturada e não à Natureza naturante. QED
Escólio
A razão que me faz falar aqui de um intelecto em ato, não é que eu conceda a existência de um intelecto em 
potência, mas sim que, desejando evitar toda confusão, quis falar apenas da coisa percebida por nós da maneira 
mais clara do mundo, isto é, da própria intelecção. Pois não há nada que possamos compreender pelo intelecto 
que não conduza a um conhecimento mais perfeito da intelecção.
PROPOSIÇÃO XXXII
A vontade não pode ser chamada de causa livre, mas apenas [causa] necessária.
Demonstração
A vontade é apenas um certo modo do pensamento, assim como o intelecto. Por conseguinte, cada volição só 
pode existir e ser determinada a operar se for determinada por outra causa, e esta por outra, ao infinito. Mesmo 
que a vontade seja suposta infinita, ela também deve ser determinada a existir e operar por Deus, não enquanto 
é substância absolutamente infinita, mas enquanto tem um atributo que exprime a essência eterna e infinita do 
pensamento (pela Prop. 23). Logo, quer concebamos [a vontade] como finita ou infinita, ela requer uma causa 
que a determine a existir e