93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.825 seguidores
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operar e, portanto (pela Def. 7) não pode ser dita causa livre, mas apenas necessária 
ou compelida. QED
Corolário I
Segue-se (I) que Deus não opera por liberdade da vontade.
Corolário II
Segue-se (II) que a vontade e o entendimento têm a mesma relação com a natureza de Deus que o movimento e 
o repouso e são todos eles coisas absolutamente naturais que (pela Prop. 29) devem ser determinados por 
Deus a existir e a operar de certo modo. Pois a vontade, como todas as outras coisas, precisa de uma causa que a 
determine a existir e a operar de certo modo. E ainda que de uma vontade ou um intelecto dados possam se 
seguir infinitas coisas, não se pode dizer por isso que Deus aja por livre vontade, da mesma forma como não se 
pode dizer que ele aja por liberdade do movimento e do repouso devido às coisas que se seguem do movimento 
e do repouso (pois deles também podem se seguir infinitas coisas). Logo a vontade não pertence à natureza de 
Deus mais do que outras coisas naturais, mas ela tem com [a natureza de Deus] a mesma relação que o 
movimento e o repouso e todas as outras coisas que, como mostramos, seguem-se da necessidade da natureza 
divina e são determinadas a existir e a operar de certo modo.
PROPOSIÇÃO XXXIII
As coisas não poderiam ter sido produzidas por Deus de outro modo ou em outra ordem senão naquela em que foram 
produzidas.
Demonstração
Dada a natureza de Deus, todas as coisas dela se seguiram necessariamente (pela Prop. 16) e foram 
determinadas pela necessidade da natureza Divina a existir e a operar de certo modo (pela Prop. 29). Se, 
portanto, as coisas pudessem ter outra natureza, ou pudessem ter sido determinadas de outro modo, de forma 
que a ordem da natureza fosse outra, então Deus poderia ter uma natureza diferente da que ele tem. E (pela 
Prop. 11) esta outra natureza também deveria existir e, consequentemente poderiam existir dois ou mais 
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
Deuses, o que (pelo Cor. 1 Prop. 14) é absurdo. Eis por que as coisas não poderiam ter sido produzidas por 
Deus de outro modo ou em outra ordem, etc. QED
Escólio I
Como assim mostrei de forma mais clara que a luz do meio dia que não há absolutamente nada nas coisas as 
faça serem ditas contingentes, gostaria agora de explicar brevemente o que devemos entender por contingente. 
Mas primeiro [explicarei o que devemos entender] por necessário e impossível. Uma coisa é dita necessária, seja 
em razão de sua essência ou em razão de sua causa. Pois a existência de uma coisa se segue necessariamente, 
seja de sua essência e definição, seja de uma dada causa eficiente. E uma coisa é chamada impossível por estas 
mesmas causas, isto é, seja por que sua essência ou definição envolve uma contradição, seja por que nenhuma 
causa externa foi determinada a produzir esta coisa. Mas uma coisa é dita contingente somente por um defeito 
de nosso conhecimento. Com efeito, uma coisa cuja essência ignoramos envolver contradição ou não \u2013 ou cuja 
essência sabemos não envolver contradição, sem poder, no entanto, afirmar nada com certeza a respeito de sua 
existência, uma vez que a ordem das causas nos escapa \u2013 esta coisa jamais nos parecerá como necessária nem 
como impossível e assim nós a chamamos, seja de contingente, seja de possível.
Escólio II
Do que precede se segue que as coisas foram produzidas por Deus com suma perfeição, pois elas se seguiram 
necessariamente da mais perfeita natureza que há. E isto não revela nenhuma imperfeição de Deus, pois, com 
efeito, sua perfeição nos compele a afirmá-lo. Mais ainda, é da afirmação contrária que se seguiria claramente 
(como mostrei) que Deus não seria sumamente perfeito. Pois, se as coisas tivessem sido produzidas de outro 
modo, seria preciso atribuir a Deus uma outra natureza, diferente da que a consideração do Ente perfeitíssimo 
nos compele a lhe atribuir.
Mas não duvido que muitos rejeitem esta maneira de pensar como absurda, recusando-se até a examiná-la. E 
isto unicamente por que eles se habituaram a atribuir a Deus um outro tipo de liberdade, bem diferente da que 
ensinamos (Def. 7), a saber uma vontade absoluta. Mas também não duvido que se eles quisessem meditar 
sobre o assunto e examinar cuidadosamente nossa série de demonstrações, acabariam por rejeitar inteiramente 
tal liberdade que ora atribuem a Deus, não apenas como fútil, mas como um grande obstáculo à ciência. E não é 
necessário repetir aqui o que dissemos no Escólio da Proposição 17.
E, no entanto, para agradá-los, mostrarei que concedendo pertencer a vontade à essência de Deus, segue-se de 
sua perfeição que as coisas não poderiam ter sido criadas por Deus de outro modo ou em outra ordem. Será fácil 
mostrá-lo se considerarmos, primeiramente, o que eles mesmos concedem, isto é, que depende apenas da 
vontade e do decreto de Deus que cada coisa seja o que é. Pois de outro modo Deus não seria a causa de todas as 
coisas. Deve-se observar, em seguida, que todos os decretos de Deus foram por ele próprio sancionados por 
toda a eternidade. Pois de outro modo poder-se-ia argüir sua imperfeição ou inconsistência. Mas como na 
eternidade não há quando nem antes, nem depois, segue-se da perfeição mesma de Deus que ele não pode, nem 
nunca pôde, decretar algo de diferente, ou, dito de outro modo, Deus não foi antes de seus decretos e sem eles 
não pode ser. Mas eles dirão que não se seguiria nenhuma imperfeição de Deus se ele tivesse feito outra 
natureza, ou se tivesse decretado de toda a eternidade outra ordem da natureza. Mas se eles o dizem é por que 
concedem que Deus pode mudar seus decretos. Mas se Deus pudesse ter decretado algo diferente do que 
decretou sobre a natureza e sua ordem, isto é, se ele tivesse querido ou concebido algo diferente sobre a 
natureza, ele teria necessariamente uma vontade e um intelecto diferentes do que ele tem agora. E se é lícito 
atribuir a Deus outro intelecto e outra vontade, sem nenhuma mudança em sua essência e sua perfeição, porque 
não poderia ele agora mudar seus decretos sobre as coisas criadas permanecendo perfeito da mesma maneira? 
Pois [nesta doutrina] pouco importa para a essência e a perfeição de Deus, que seu entendimento e sua vontade 
concebam a natureza e a ordem das coisas criadas de uma forma ou de outra.
Ademais, todos os filósofos que já vi concedem que em Deus não há intelecto em potência, mas apenas em ato. 
Mas como todos também concedem que seu intelecto e sua vontade não se distinguem de sua essência, segue-se 
que se Deus tivesse tido outro intelecto em ato e outra vontade, sua essência também teria sido outra. E assim 
(como concluí desde o princípio) se as coisas tivessem sido produzidas por Deus de outra forma, o intelecto de 
Deus e sua vontade ou (como se concede) sua essência teria sido outra, o que é absurdo.
Portanto, como as coisas não poderiam ter sido produzidas por Deus de outro modo ou em outra ordem, e como 
se segue da suma perfeição de Deus que isto é verdade, nenhuma sã razão pode nos convencer a acreditar que 
Deus não quis criar todas as coisas existentes em seu intelecto com a mesma perfeição que ele as entende. Mas 
eles dizem que não há perfeição ou imperfeição nas coisas. E depende apenas da vontade de Deus que elas 
sejam perfeitas ou imperfeitas, boas ou más e, se Deus quisesse, poderia fazer com que algo que agora é perfeito 
se tornasse sumamente imperfeito e vice-versa. Mas isso seria afirmar abertamente que Deus, que 
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
necessariamente entende o que quer, poderia por sua vontade fazer com que ele mesmo entendesse as coisas de 
forma diferente do que ele entende, o que (como mostrei) é um grande absurdo.
Posso, portanto, reverter o argumento do seguinte modo. Tudo depende do poder de Deus. E, portanto, para 
que as coisas