93539070-Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR
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DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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pudessem ser diferentes, seria preciso necessariamente que a vontade de Deus também fosse 
diferente. Mas a vontade de Deus não pode ser diferente (como mostramos de forma evidente a partir da 
perfeição de Deus). Logo, as coisas não são podem ser diferentes. 
Confesso que a opinião que sujeita todas as coisas a uma vontade indiferente de Deus e torna todas as coisas 
dependentes de seu beneplácito, se afasta menos da verdade que a opinião dos que estabelece que Deus age 
sempre com vista ao bem. Pois estes parecem colocar algo fora de Deus, que não depende de Deus, a que Deus 
ao operar atenta como a um modelo, ou que ele visa como a um alvo. E isto é simplesmente submeter Deus ao 
destino. Nada mais absurdo pode ser sustentado sobre Deus, que, mostramos ser causa primeira e livre, tanto 
da essência de todas as coisas, como de sua existência. Não perderei, então, tempo em refutar este absurdo.
PROPOSIÇÃO XXXIV
A potência de Deus é sua própria essência.
Demonstração
Da necessidade apenas da essência de Deus segue-se que Deus é causa de si (pela Prop. 11) e (pela Prop. 16 
e Cor. Prop 16) de todas as coisas. Logo, a potência de Deus, pela qual ele mesmo e todas as coisas são e 
agem, é sua própria essência. QED
PROPOSIÇÃO XXXV
Tudo o que concebemos estar no poder de Deus, existe necessariamente.
Demonstração
Tudo o que está no poder de Deus deve (pela Prop. precedente) estar compreendido em sua essência de 
forma que dela se siga necessariamente e, portanto, exista necessariamente.
PROPOSIÇÃO XXXVI
Nada existe de cuja natureza não se siga algum efeito.
Demonstração
Tudo o que existe exprime de modo certo e determinado a natureza de Deus ou a essência de Deus (pelo Cor. 
Prop. 25), isto é (pela Prop. 34), tudo o que existe exprime de modo certo e determinado a potência de 
Deus, que é causa de todas as coisas. Logo (pela Prop. 16), [de tudo o que existe] deve se seguir um efeito. 
QED
APÊNDICE
*******Parte I revisada em 26/9/06
Tradução: Roberto Brandão
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. 
B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
Segunda Parte
Sobre a Natureza e a Origem da Mente
Passo agora a explicar as coisas que devem se seguir necessariamente da essência de Deus, ou do Ente eterno e infinito. 
Não todas, certamente, pois demonstramos na Prop. 16, Parte I que dela se seguem infinitas coisas de infinitos 
modos, mas apenas aquelas que podem nos levar, como que pela mão, ao conhecimento da Mente humana e de sua 
suma beatitude.
DEFINIÇÕES
I. Por corpo entendo um modo de Deus que exprime de forma certa e determinada, a essência de Deus enquanto coisa 
extensa; vide Cor. Prop. 25, P I.
II. Digo pertencer à essência de uma coisa aquilo que, uma vez dado, põe necessariamente a coisa e, uma vez suprimido, 
necessariamente a destrói; ou aquilo sem o que a coisa não pode ser nem ser concebida e, ao reverso, aquilo que não 
pode ser nem ser concebido sem a coisa.
III. Por idéia entendo um conceito que a mente forma por que é coisa pensante.
Explicação
Digo conceito ao invés de percepção, pois a palavra percepção parece indicar que a Mente é passiva com relação ao 
objeto, enquanto conceito parece exprimir uma ação da Mente.
IV. Por idéia adequada entendo uma idéia que, enquanto considerada em si e sem relação com um objeto, tem todas as 
propriedades ou denominações intrínsecas de uma idéia verdadeira.
Explicação
Digo intrínsecas para excluir o que é extrínseco, isto é, a conveniência da idéia com seu ideado.
V. Duração é a continuação indefinida do existir.
Explicação
Digo indefinida, pois [a duração] não pode ser determinada nem pela natureza da coisa existente, nem por sua 
causa eficiente, pois esta põe necessariamente a existência da coisa, mas não a destrói.
VI. Por realidade e perfeição entendo a mesma coisa.
VII. Por coisas singulares entendo coisas que são finitas e têm existência determinada. E se vários indivíduos concorrem 
em uma ação de forma que todos juntos são causas de um efeito, considero-os todos, nesta medida, como uma coisa 
singular.
AXIOMAS
I. A essência do homem não envolve existência necessária, isto é, da ordem da natureza tanto pode se fazer com que este 
ou aquele homem exista como que não exista.
II. O homem pensa.
III. Modos do pensamento como amor, desejo, ou tudo mais que seja designado como afeto da alma, não podem existir 
em um Indivíduo sem a idéia da coisa amada, desejada, etc. Mas esta idéia pode existir sem nenhum outro modo do 
pensamento.
IV. Sentimos que um certo corpo é afetado de muitos modos.
V. Não sentimos nem percebemos coisas singulares além dos corpos e dos modos do pensamento. Vide Postulados 
após a Proposição 13.
PROPOSIÇÃO I
O pensamento é um atributo de Deus, ou, dito de outro modo, Deus é coisa pensante.
Tradução: Roberto Brandão
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B. de Spinoza \u2014 Ética demonstrada em ordem geométrica
Demonstração
Os pensamentos singulares, isto é, este ou aquele pensamento, são modos que exprimem a natureza de Deus de 
modo certo e determinado (pelo Cor. Prop. 25 P I). Portanto, eles competem a um atributo de Deus (pela 
Def. 5, P I) que envolve o conceito de todos os pensamentos singulares, através do qual eles são concebidos. 
Portanto, o Pensamento é um dos infinitos atributos de Deus, que exprime a essência eterna e infinita de Deus 
(vide Def. 6, PI), ou, dito de outro modo, Deus é coisa pensante. QED
Escólio
Esta proposição é evidente partindo de que podemos conceber um ente pensante infinito. Pois um ente pensante 
pode pensar tanto mais, quanto mais contiver de realidade ou perfeição. Logo um ente que pode pensar infinitas 
coisas de infinitos modos é necessariamente infinito pela força do pensamento. E assim, já que podemos 
conceber um Ente infinito atentando somente para o pensamento, então o Pensamento (pelas Defs. 4 e 6 PI) é 
um dos atributos de Deus, como queríamos.
PROPOSIÇÃO II
A extensão é um atributo de Deus, ou, dito de outro modo, Deus é coisa extensa.
Demonstração
A demonstração procede do mesmo modo que a demonstração da proposição precedente.
PROPOSIÇÃO III
Há necessariamente em Deus uma idéia de sua essência e de tudo o que se segue de sua essência.
Demonstração
Com efeito, Deus (pela Prop. 1) pode pensar infinitas coisas de infinitos modos, ou (o que é o mesmo, pela 
Prop. 16 PI) pode formar uma idéia de sua essência e de tudo o que necessariamente se segue dela. Ora, tudo 
o que está no poder de Deus existe necessariamente (pela Prop. 35 PI). Portanto, tal idéia existe 
necessariamente e (pela Prop. 15 PI) [existe] em Deus. QED
Escólio
O vulgo entende que a potência de Deus é a vontade livre de Deus e seu direito sobre todas as coisas, que por 
isso são consideradas comumente como contingentes. Pois Deus tem o poder, dizem eles, de tudo destruir e 
tudo reduzir ao nada. Além disso, eles comparam freqüentemente a potência de Deus à potência dos Reis. Mas 
nós refutamos isto nos Corolários I e II da Proposição 32 da Parte I e mostramos na Proposição 
16 da Parte I que Deus age com a mesma necessidade que compreende a si mesmo. Isto é, da mesma forma 
que se segue da necessidade da natureza divina (como todos afirmam de uma só voz) que Deus compreende a si 
mesmo, segue-se com a mesma necessidade que Deus faz uma infinidade de coisas de uma infinidade de 
maneiras. Em seguida mostramos, na Proposição 34 da Parte I, que a potência de Deus é tão somente a 
essência atuante de Deus. E assim, para nós é tão impossível conceber que Deus não aja como conceber que ele 
não exista.
Se desejasse prosseguir neste argumento, poderia mostrar também que a potência que o vulgo atribui 
falsamente a Deus é, não apenas humana (mostrando que o vulgo concebe Deus como homem, ou semelhante a 
um homem), mas também envolve impotência. Mas não quero falar sempre do mesmo tema. Peço apenas ao 
leitor que reflita repetidamente