DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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países frios, substituíram-na por simples aspersão, o que lhes custou numerosos anátemas de parte da
igreja grega.
 Perguntou-se a S. Cipriano se estavam realmente batizadas as pessoas que, em vez de tomarem o
banho, eram apenas borrifadas. Respondeu ele (septuagésima sexta carta) que "achavam muitas igrejas
não serem cristãs tais pessoas; quanto a ele, era de parecer que sim, bem que sua graça fosse
infinitamente menor que a das imersas três vezes conforme o uso".
 Entre os cristãos, desde que um indivíduo recebia a imersão estava iniciado. Antes do batismo era
simples catecúmeno. Para iniciar-se era de mister apresentar cauções, responsáveis, - a que se dava um
nome correspondente a padrinho - a fim de que a igreja se certificasse da fidelidade dos novos cristãos e
não fossem divulgados os mistérios. Essa a razão por que nos primeiros séculos fossem os gentios
geralmente tão mal instruídos dos mistérios cristãos quanto o eram os cristãos dos mistérios de Isis e de
Eleusina.
 Assim se expressava Cirilo de Alexandria em seu escrito contra o imperador Juliano: "Falaria do
batismo se não temesse que minhas palavras chegassem aos não iniciados".
 Data do século II o costume de batizar crianças. Era natural desejassem os cristãos que seus filhos,
que sem esse sacramento seriam condenados às penas eternas, dele fossem apercebidos. Concluiu-se
enfim ser necessário ministrá-lo ao fim dos oito primeiros dias de vida por ser essa entre os judeus a
idade da circuncisão. Ainda conserva o costume a igreja grega, conquanto no século III o uso a tenha
levado a subministrar o batismo à morte.
 Quem morria na primeira semana de existência estava condenado, asseveravam os padres da igreja
mais rigorosos. No século V, porém, ideou Pedro Crisólogo o limbo, espécie de inferno suavizado, e
propriamente lindes do inferno, extramuros infernais, para onde iriam as criancinhas finadas sem
batismo, e onde estariam os patriarcas antes da descensão de Jesus Cristo aos infernos. De sorte que
desde então prevaleceu a opinião de que Cristo desceu ao limbo e não ao inferno.
 Perguntou-se se, nos desertos da Arábia, poderia um cristão ser batizado com areia: respondeu-se que
não. Se se poderia batizar com água impura: estabeleceu-se ser conveniente água munda, mas que em
última instância servia água barrenta. É fácil ver que toda essa disciplina foi ditada pela prudência dos
primeiros pastores.
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BELO, BELEZA
 Perguntai a um sapo que é a beleza, o supremo belo, o to kalon. Responder-vos-á ser a sapa com os
dois olhos exagerados e redondos encaixados na cabeça minúscula, a boca larga e chata, o ventre
amarelo, o dorso pardo. Interrogai um negro da Guiné O belo para ele é - uma pele negra e oleosa, olhos
cravados, nariz esborrachado. Indagai ao diabo. Dir-vos-á que o belo é um par de cornos, quatro garras e
cauda. Inquiri os filósofos. Responder-vos-ão com aranzéis. Falta-lhes algo de conforme ao arquétipo do
belo em essência, o to kalon.
 Assistia eu certa vez à representação de uma tragédia em companhia de um filósofo.
 - Como é belo! - dizia ele.
 - Que viu o sr. de belo?
 - O autor atingiu seu fim.
 No dia seguinte ele tomou um purgante que lhe fez efeito.
 - O purgante atingiu seu fim - disse-lhe eu. - Eis um belo purgante.
 Ele compreendeu não se poder dizer que um purgante seja belo, e que para chamar belo a alguma
coisa é preciso que nos cause admiração e prazer. Conveio em que a tragédia lhe inspirara estas duas
emoções, e que nisso estava o to kalon, o belo.
 Realizamos uma viagem à Inglaterra. Lá se representava a mesma peça, impecavelmente traduzida.
Fez bocejarem todos os espectadores.
 - Oh! - exclamou o filósofo - o to kalon não é o mesmo para os ingleses e os franceses.
 Após muita reflexão concluiu ser o belo extremamente relativo, como o que é decente no Japão é
indecente em Roma, o que é moda em Paris não o é em Pequim.
BEM (SUPREMO)
 Muito discutiu a antigüidade em torno do supremo bem. Que é o supremo bem? Seria o mesmo que
perguntar que é o supremo azul, o supremo acepipe, o supremo andar, o ler supremo, etc.
 Cada um põe a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto.
Quid dem? quid non dem? Renuis tu quod jubet alter...
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Castor gaudet equis; ovo prognatus eodem pugnis...(10).
 Sumo bem é o bem que vos deleita a ponto de polarizar-nos toda a sensibilidade, assim como mal
supremo é aquele que vos torna completamente insensível. Eis os dois pólos da natureza humana. Esses
dois momentos são curtos.
 Não existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira. Supremo bem
e supremo mal são quimeras.
 Conhecemos a bela fábula de Crântor, que fez comparecer aos jogos olímpicos a Fortuna, a Volúpia, a
Saúde e a Virtude.
 Fortuna: - O sumo bem sou eu, pois comigo tudo se obtém.
 Volúpia: - Meu é o pomo, porquanto não se aspira à riqueza senão para ter-me a mim.
 Saúde: - Sem mim não há volúpia e a riqueza seria inútil.
 Virtude: - Acima da riqueza, da volúpia e da saúde estou eu, que embora com ouro, prazeres e saúde
pode haver infelicidade, se não há virtude.
 Teve o pomo a Virtude
 A fábula é engenhosa, mas não solve o problema absurdo do supremo bem. Virtude não é bem, senão
dever. Pertence a plano superior. Nada tem que ver com as sensações dolorosas ou agradáveis. Com
cálculos e gota, sem arrimo, sem amigos, privado do necessário, perseguido, agrilhoado por um tirano
voluptuoso aboletado no fausto, o homem virtuoso é infelicíssimo, e o perseguidor insolente que acaricia
uma nova amante em seu leito de púrpura, felicíssimo. Podeis dizer ser preferível o sábio perseguido ao
perseguidor impertinente. Podeis dizer amar a um e detestar ao outro. Mas esquece-vos que le sage dans
les fers enrage. Se não concordar o sábio, engana-vos: é um charlatão.
BEM (TUDO ESTÁ)
 Armou-se grande estardalhaço nas escolas e até entre as pessoas que raciocinam quando,
parafraseando Platão, lançou Leibnitz seu edifício do melhor dos mundos possíveis, dizendo que tudo
corria às mil maravilhas (11). Afirmou ele no norte da Alemanha que Deus não poderia fazer mais que
um único mundo. Platão pelo menos concedera-lhe a liberdade de fazer cinco, pela razão de cinco serem
os corpos sólidos regulares: tetraedro ou pirâmide trifacial de base igual às faces, cubo, hexaedro,
dodecaedro, icosaedro. Mas como o nosso mundo não tem a forma de nenhum dos seus cinco sólidos,
devia conceder a Deus uma sexta forma.
 Deixemos em paz o divino Platão. Leibnitz, que certamente era melhor geômetra e mais profundo
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metafísico que ele. prestou ao gênero humano o serviço de lhe fazer ver que devemos estar
contentíssimos e ter sido impossível a Deus fazer por nós mais do que fez. Que necessariamente Deus
escolhera entre todos os partidos sem contradita o melhor.
 - E o pecado original? - perguntavam-lhe.
 - Foi o que podia ser - explicavam Leibnitz e seus amigos. Mas praceiramente escrevia ele entrar o
pecado original necessariamente no melhor dos mundos.
 Ora essa! Ser expulso de um lugar de delícias onde se viveria eternamente se não se tivesse comido
uma maçã! Como! Chafurdado na miséria, pôr no mundo filhos miseráveis que tudo hão de sofrer, que
tudo farão sofrer aos outros! Que! Padecer todas as doenças, sofrer todos os martírios, morrer na dor, e
como refrigério ser assado na eternidade dos séculos! Seria esse o melhor quinhão que tinha Deus para
nos dar? Nada tem de bom para nós. E em que poderia tê-lo para Deus?
 Compreendia Leibnitz nada ter que responder. Escreveu também maçudos livros, mas calou o ponto.