DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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Negar a existência do mal, pode negá-la rindo um Luculo refestelado na opulência, após lauto jantar
libado em companhia dos amigos e da amante no salão de Apolo. Mas que ponha a cabeça à janela. Verá
o que é o mundo.
 Repugna-me citar. É empresa de ordinário espinhosa: negligencia-se o que precede e o que segue a
citação, e se expõe a querelas. Cumpre-me, todavia, citar Lactâncio, padre da igreja, que em seu capítulo
13, Da Cólera de Deus, põe estas palavras na boca de Epicuro: "Ou Deus quer abolir o mal do mundo e
não pode; ou pode e não quer; ou nem pode nem quer; ou enfim quer e pode. Se quer e não pode é
impotente, o que contradiz a natureza divina; se pode e não quer, é mau, o que não é menos contrário à
sua natureza; se não quer nem pode, é a um tempo mau e impotente; se quer e pode (a única conjuntura
que convêm a Deus) qual então a origem do mal sobre a terra?"
 O argumento é instante. Lactâncio respondeu muito mal, dizendo que Deus quer o mal porém nos deu
a sabedoria, com que podemos alcançar o bem. A resposta é fraquíssima. Supõe que Deus não podia dar
a sabedoria senão de par com o mal. Demais nós possuímos uma sabedoria agradável!
 A origem do mal foi sempre um abismo de que ninguém conseguiu lobrigar o fundo. Daí tantos
filósofos e legisladores antigos se socorrerem de dois princípios, um do bem e outro do mal. Tifão era o
princípio do mal entre os egípcios, Arimã entre os persas. Adotaram essa teologia, como se sabe, os
maniqueus. Como porém anteriormente nunca falaram nem em um nem em outro desses princípios,
convêm não lhes dar ouvidos.
 Entre os absurdos de que regurgita o mundo, não é dos menores este, que pode entrar no rol dos
nossos males: imaginar dois seres todo poderosos duelando-se para ver quem dá mais de si ao mundo, e
acordando um convênio como os dois médicos de Molière Passe-me o emético que lhe farei a sangria.
 Rasteando os platonistas, pretendeu Basilídio no primeiro século da igreja que Deus acometera a
tarefa de forjar o nosso mundo aos últimos de seus anjos, os quais não sendo lá muito peritos
desalinhavaram as coisas como aí estão. Refuta tal fábula teológica esta objeção irretorquível: não é de
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Deus onipotente e onisciente confiar a construção de um mundo a arquitetos inaptos.
 Sentindo a objeção, preveniu-a Simão asseverando que em virtude do péssimo desempenho da
incumbência Deus condenou aos infernos o anjo que presidia à oficina celeste. Por mais esturricado que
esteja, contudo, a condenação desse anjo não nos cala o sofrimento.
 Não responde melhor à objeção a aventura de Pandora dos gregos. Inegavelmente a história da boceta
que encerra todos os males e em cujo fundo jaz a esperança é uma bela alegoria. Mas essa tal Pandora,
tê-la Vulcano tão somente para fazer pique a Prometeu, que havia feito um homem de barro.
 Os hindus não foram mais engenhosos: tendo criado o homem, Deus lhe deu uma droga que lhe
asseguraria permanente saúde; o homem carregou seu asno dessa droga, o asno ficou com sede, a
serpente ensinou-lhe uma fonte: enquanto o asno bebia a serpente pilhou a droga.
 Imaginaram os sírios que, tendo o homem e a mulher sido criados no quarto céu, quiseram comer de
uma torta em vez de ambrósia, seu manjar natural. A ambrósia exalava-se pelos poros. Comendo a torta,
porém, era preciso ir à secreta. O homem e a mulher pediram a um anjo lhes indicasse onde ficava tal
repartição do Paraíso. - Estão vendo - disse-lhes o anjo - aquele planetinha insignificante, a uns sessenta
milhões de léguas daqui? Pois é lá. - Para lá se foram, e lá os deixaram. Desde então o mundo é o que é.
 É o caso de perguntar aos sírios por que Deus permitiu que o homem comesse da torta e que temos
nós que ver com o pato.
 Para nos forrarmos ao tédio, saltemos do quarto céu ao Sr. Bolingbroke. Este homem,
incontestavelmente genial, deu ao célebre Pope seu plano de tudo está bem, que de fato lá vem palavra
por palavra nas obras póstumas de Bolingbroke, e que anteriormente inserira Shaftesbury em seus
Característicos. Leia-se o capítulo deste livro dedicado aos moralistas. Lá se encontrará:
 "Há muito que responder a essas lamúrias sobre defeitos da natureza. Como saiu tão impotente e falha
das mãos de um ser perfeito? Mas eu nego que a natureza seja imperfeita... Sua beleza resulta das
contrariedades. De perpétuo combate nasce a concórdia universal... É preciso que cada ser seja imolado a
outros: os vegetais aos animais, os animais à terra... Demais não será por amor de miserável verme que as
leis do poder central e da gravitação, de que decorrem o peso e o movimento dos corpos celestes, serão
perturbadas. Miserável verme que, por muito bem protegido que esteja por essas leis, longe não está o dia
em que por elas mesmas será reduzido a pó de traque".
 Bolingbroke, Shaftesbury e Pope - lapidário dos primeiros - não solvem a questão melhor que os
outros. Seu tudo está bem não diz senão que o todo é regido por leis imutáveis. Quem não sabe disso?
Para ninguém é novidade saber, depois dos netos, que as moscas foram feitas para ser comidas pelas
aranhas, as aranhas pelas andorinhas, as andorinhas pelas pegas, as pegas pelas águias, as águias para ser
mortas pelos homens, os homens para matar-se uns aos outros, ser comidos pelos vermes e em seguida
pelo diabo.
 Eis aí ordem nítida e constante entre os animais de todas as espécies. Em tudo existe ordem. Quando
se forma um cálculo em minha bexiga, verifica-se uma mecânica admirável. Pouco a pouco aparecem no
sangue sucos calculosos, que se filtram nos rins, passam pelas uréteres, caem na bexiga e ali se
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depositam em virtude de excelente atração newtoniana; forma-se a concreção, que cresce, e eu sofro
dores mil vezes piores que a morte, por mais maravilhosamente ordenado que esteja o mundo. Um
cirurgião que aperfeiçoou a arte inventada por Tubalcain enterra-me um ferro agudo e trinchante no
perineu, agarra o cálculo com suas tenazes: por um mecanismo necessário, a pedra se desfaz sob seus
esforços. E pelo mesmo mecanismo necessário entrego a alma ao diabo em meio de tormentos
medonhos. Tudo isso está bem. Tudo isso é conseqüência evidente dos inalteráveis princípios físicos.
Reconheço-o. Mas, como vós, já o sabia
 Se fôssemos insensíveis, nada haveria que dizer a esta física. Não se trata disso, porém Pergunto-vos
se não existem males sensíveis, e de onde provêem. "Não existem males" - decreta Pope em sua quarta
epístola acerca do tudo está bem. "Ou, se os há particulares, compõem o bem geral".
 Singular bem geral, constituído de cálculos, gota, de todos os crimes, de todos os sofrimentos, da
morte e da condenação.
 A queda do homem é o emplasto que aplicamos a todas essas doenças particulares do corpo e do
espírito, que vós chamais saúde geral. Mas Shaftesbury e Bolingbroke escarnecem do pecado original.
Pope não se digna mencioná-lo. É evidente que tal sistema solapa a religião cristã nos alicerces, e não
explica coisa alguma.
 No entanto foi há pouco aprovado por muitos teólogos, que de bom grado admitem os contrários.
Assim sendo, a ninguém é preciso invejar o consolo de raciocinar como melhor puder sobre o dilúvio de
males que nos assoberba. Justo é conceder aos doentes sem esperança que comam o que quiserem.
Chegou-se até a pretender ser esse sistema consolador. "Deus" - leciona Pope - vê com os mesmos olhos
morrer o herói e o pardal, precipitar-se na ruína um átomo ou mil planetas, formar-se um mundo ou uma
bolha de sabão".
 Deliciosa consolação! Não sentis grande lenitivo com o decreto do sr. Shaftesbury, que diz, Deus não
vai modificar suas leis eternas por um miserável verme como o homem? Convenha-se contudo ter esse
verme direito de lamentar-se humildemente e lamentando-se diligenciar compreender por