DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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que tais leis
eternas não foram feitas para bem de todos.
 O sistema do tudo está bem apresenta o autor da natureza como um déspota poderoso e mau, pouco se
incomodando que seus caprichos custem a vida a milhares de seres humanos, enquanto os restantes
arrastam seus dias na penúria e na dor.
 Longe de consolar, a teoria do melhor dos mundos possível é desesperadora. O problema do bem e do
mal permanece um caos inextricável para todos aqueles que perquirem de boa fé. Para os polemistas, é
um motivo de chiste: são forçados brincando com os próprios grilhões. Para o povo não pensante, é o
caso de peixes transportados de um rio para um reservatório; não alimentam a menor idéia que estão ali
para ser comidos na quaresma.
 Nada sabemos do porquê do nosso destino. Cumpre subpor ao fim de quase todos os capítulos da
metafísica as duas letras dos juizes romanos, quando não entendiam uma causa: N. L., non liquet, - não é
claro.
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CADEIA DOS ACONTECIMENTOS
 Há muito que se crêem os acontecimentos encadeados uns aos outros por invencível fatalidade - o
Destino - que é em Homero superior ao próprio Júpiter. Sem refolhos confessava o soberano dos deuses e
dos homens não poder impedir que seu filho Sarpédon morresse no prazo preestabelecido. No momento
em que devia nascer Sarpédon nascera, nem poderia deixar de ser assim. Não podia morrer em outro
lugar senão diante de Tróia. Não podia ser enterrado senão em Lícia. Seu corpo, no prazo
preestabelecido, produziria legumes que se transmudariam em substância de alguns licienses. Seus
herdeiros haveriam de estabelecer nova ordem em seus estados. Essa nova ordem influiria nos reinos
vizinhos. Do que resultariam novas disposições de guerra e paz com os vizinhos dos vizinhos de Licia. E
assim sucessivamente o destino da terra dependeu da morte de Sarpédon, a qual dependeu de outro
acontecimento, que por seu turno se ata por intermédio de outros à origem das coisas.
 Tivesse um único desses fatos acontecido diferentemente, outro fora o mundo. Ora, impossível que o
mundo atual existisse e não existisse ao mesmo tempo: portanto impossível fora a Júpiter salvar a vida do
filho, por muito Júpiter que fosse.
 Diz-se que este sistema da necessidade e fatalidade inventou-o Leibnitz em nossos dias,
chamando-lhe razão suficiente. Entretanto é antiquíssimo. Não é de hoje que não há efeito sem causa e
que muitas vezes a mais insignificante das causas produz os maiores efeitos.
 Conta o sr. Bolingbroke que lhe proporcionaram ocasião de concertar o tratado particular da rainha
Ana com Luís XIV as questiúnculas da sra. Marlborough e da sra. Masham. Esse tratado conduziu à paz
de Utrecht. A paz de Utrecht firmou Filipe V no trono de Espanha. Filipe V conquistou Nápoles e Sicília
à frente da casa da Áustria. Deve o príncipe que é atualmente rei de Nápoles seu trono à sra Masbam.
Não o seria, talvez nem existisse, se a duquesa de Marlborough tivesse sido mais complacente para com
a rainha de Inglaterra. Sua existência dependia em Nápoles de uma tolice a mais ou a menos na corte
londrina. Examinai a situação de todos os povos do mundo: é o que é por força de uma série de
acontecimentos aparentemente insulados, porém realmente baraçados em íntimo emaranhamento. São
tudo rodagens, polés, cabos, molas dessa máquina colossal.
 O mesmo sucede na ordem física. Um vento que sopre do fundo da África ou dos mares austrais
acarreta parte da atmosfera africana que recai em chuva nos declívios dos Alpes. Essas chuvas fecundam
nossas terras. Nosso vento do norte, por sua vez, leva nossos vapores daqui para o continente negro. Nós
beneficiamos a Guiné e a Guiné nos beneficia. A cadeia se estende de cabo a cabo do mundo.
 Parece-me contudo abusar-se demais desse princípio. Conclui-se não haver e mais ínfimo átomo que
não tenha influído na disposição atual do mundo inteiro. Que não há o menor acidente, quer entre os
homens, quer entre os animais, que não seja anel essencial da grande cadeia do destino.
 Entendo eu: todo efeito tem evidentemente sua causa, remontante de causa em causa até o abismo da
eternidade. Mas nem toda causa transmite seu efeito até o fim dos séculos. Todo acontecimento decorre
um de outro, admito. O presente sai do passado. O futuro sairá do presente. Tudo tem pai. Mas nem tudo
tem filhos. Precisamente como numa árvore genealógica: toda família remonta, como é sabido, a Adão,
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mas na família muitos indivíduos morrem sem deixar posteridade.
 Existe uma árvore genealógica dos acontecimentos. Incontestavelmente os habitantes das Gálias e de
Espanha descendem de Gomer e os russos de Magogue, seu irmão mais novo: encontra-se esta
genealogia em tantos livros maçudos! Nesse pé, não há negar devermos a Magogue os sessenta mil
russos em armas hoje às portas da Pomerânia e os sessenta mil franceses que combatem nas abas de
Francfort. Mas que Magogue haja expectorado à direita ou à esquerda ao pé do Cáucaso, tenha dado duas
ou três voltas em redor de um poço, haja dormido do lado esquerdo ou direito, não vejo como possa isso
ter influído capitalmente na resolução tomada pela imperatriz da Rússia Elizabete de enviar um exército
em socorro da imperatriz romana Maria Teresa. Que meu cão sonhe ou não quando dorme, não percebo
que relação poderá ter tão importante fato com os negócios do grão mogol.
 É necessário atentar em que nem tudo é cheio na natureza e que nem todo movimento se transmite
consecutivamente até descrever a volta ao mundo. Lance-se n'água um corpo de mesma densidade.
Facilmente se compreenderá que ao cabo de algum tempo assim o movimento do corpo como aquele que
comunicou à água se extinguem. O movimento consome-se e repara-se. Por conseguinte o movimento
que possa ter produzido Magogue escarrando num poço não pode ter influência no que hoje se passa. na
Rússia e na Prússia. Nem todos os acontecimentos pretéritos são pais dos acontecimentos presentes.
Todo acontecimento atual provém em linhas diretas do passado. Porém milhares de linhas colaterais há
que em nada os interessam. Repitamos: tudo tem pai, mas nem tudo tem filhos. Retornaremos ao assunto
ao falar do Destino.
CARÁTER
 A palavra grega impressão, gravura. É o que em nós gravou a natureza. Podemos apagá-lo?
Transcendental questão. Se tenho o nariz de esconso e olhos de gato, posso escondê-los sob uma
máscara. Poderei encobrir melhor o caráter?
 Apresenta-se perante Francisco I de França, a fim de queixar-se de uma preterição, um indivíduo de
natural violento e impetuoso. O semblante do príncipe, a postura respeitosa dos cortesãos, o local mesmo
impressionam-no fundamente. Maquinalmente baixa os olhos, a voz rude se abranda e faz o pedido
humildemente. Crer-se-ia nascido tão manso quanto os cortesãos em meio dos quais parece quase
desconsertado. Entretanto facilmente descobre Francisco I em seus olhos baixos, porém acesos de um
fogo sombrio, nos músculos retesos do rosto, nos lábios contracerrados, que esse homem não é tão
humilde como aparenta. Esse homem acompanha-o a Pávia, é aprisionado com ele e com ele levado para
Madri. Já não lhe infunde a mesma impressão a majestade do rei. Familiariza-se com o objeto de seu
respeito. Um dia, ao descalçar-lhe as botas, e fazendo-o desleixadamente, Francisco, azedado pelo
infortúnio, ralha-lhe. Nosso homem manda o rei plantar batatas e atira as botas pela janela.
 Nascera Sixto Quinto petulante, opiniático, soberbo, impetuoso, vingativo, arrogante. As provas do
noviciado parecem ter-lhe adoçado o caráter. Mal começa a desfrutar de certo crédito em sua ordem,
lança-se contra um guardião e alomba-o a punhadas. Inquisidor em Veneza, exerce o cargo com
insolência. Cardeal, é possuído della rabbia papale. Embuça na obscuridade sua pessoa e seu caráter.
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