DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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Mascara-se de humilde e moribundo. Elegem-no papa: é quando dá à mola do natural toda a elasticidade
longo tempo retesada pela política. É o mais arrogante e despótico dos soberanos.
Naturam expellas furca, tamen usque recurret.
 Religião, moral, são freios retentores do caráter. Não podem, porém, matá-lo. Enclausurado, reduzido
a dois dedos de sidra às refeições, pode o bêbedo deixar de embriagar-se, mas ansiará sempre pelo vinho.
 A idade amolenta o caráter. Transforma-o em uma árvore que não dá senão um ou outro fruto
abastardado, mas sempre da mesma natureza. Enodoa-se, cobre-se de musgo, caruncha. Jamais deixará
de ser carvalho ou pereira, porém. Se fosse possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel
prazer, seria senhor da natureza. Podemos lá criar alguma coisa? Não recebemos tudo? Experimentai
animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à musica a quem careça de gosto e de ouvido.
Não tereis melhor resultado do que se empreenderdes dar vista a cego de nascença. Nós aperfeiçoamos,
esborcelamos, embuçamos o que nos estereogravou a natureza. Não há, porém, alterar-lhe a obra.
 Direis a um criador: - O Sr. tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não vingam. Seus campos
estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais emagrecerão. - Com isso deixa o nosso homem
que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. Os restantes engordam.
Gabar-se-á ele dessa economia? Este camponês és tu mesmo. Uma de tuas paixões devorou as outras, e
tu julgas haver triunfado sobre ti próprio. Não parecemos quase todos nós com aquele velho general de
noventa anos que, encontrando alguns jovens oficiais mexendo com umas moças, perguntou-lhes
colérico: "Senhores, é esse o exemplo que lhes dou?".
CATECISMO CHINÊS
(Ou diálogos de Cu Su, discípulo de Cong-fu-tseu, com o príncipe Cu, filho do
rei de Lou, tributário do imperador çhinês Gnenvã, 417 anos antes da nossa
era. Traduzido em latim pelo padre Fouquet ex-jesuíta. Encontra-se o
manuscrito na biblioteca do Vaticano, número 42.759).
C.
 Que devo entender quando me dizem que adore o céu (Chang ti)?
C. S.
 Não se trata do céu material que vemos, que não é outra coisa senão ar, composição de todas as
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emanações da terra. Imenso disparate seria adorar vapores.
C.
 Pois não me surpreenderia. Parece-me que os homens cometeram disparates ainda maiores.
C. S.
 De fato. Mas vós estais destinado a governar. Cumpre-vos ser sábio.
C.
 Há tantos povos que adoram o céu e os planetas!
C. S.
 Os planetas não passam de mundos como o nosso. Temos tanto motivo para adorar a areia e o barro
da Lua, por exemplo, como a Lua para se pôr de joelhos diante da areia e do barro da Terra.
C.
 Que se quer dizer quando se fala: O céu e a terra, acenda ao céu, seja digno do céu?
C. S.
 Diz-se tremenda asneira. Não existe céu: cada planeta é circundado como que de uma casca chamada
atmosfera, e gira no espaço em torno de seu sol. Cada sol é centro de porção de planetas que o
acompanham espaço em fora. Não existe alto nem baixo, subida nem descida. Compreendeis que se
habitantes da Lua dissessem que se sobe para a Terra, que era preciso tornar-se digno da Terra, diriam
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um absurdo. Da mesma forma proferimos uma frase sem nexo quando dizemos ser necessário fazer-se
digno do céu. É como se disséssemos: é preciso tornar-se digno do ar, digno da constelação do Dragão,
digno do espaço.
C.
 Creio compreender. Devemos adorar somente o Deus que criou o céu e a terra.
C. S.
 Isso! Só Deus merece ser adorado. Mas quando dizemos que Deus fez o céu e a terra, piamente
proferimos uma grande ingenuidade. Porque, se por céu entendemos o espaço portentoso em que Deus
acendeu tantos sóis e fez girar tantos mundos, é mais ridículo dizer o céu o a terra do que dizer as
montanhas e um grão de areia. Infinitamente menor que um grão de areia é o nosso globo perto desses
quintilhões de mundos, em meio aos quais desaparecemos. Tudo o que podemos fazer é juntar nossa
débil voz ao coro dos seres incontáveis que no abismo da amplidão rendem homenagem a Deus.
C.
Então enganaram-nos quando nos disseram que Fo desceu do quarto céu e se nos apresentou sob a forma
de um elefante branco?
C. S.
 Isso são histórias que os bonzos contam às crianças e aos velhos. Não devemos adorar senão o autor
eterno de todos os seres.
C.
 Mas como pôde um ser fazer os outros?
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C. S.
 Olhai aquela estrela - Acha-se a um trilhão e quinhentos bilhões de lis(12)do nosso minúsculo globo.
Dela projetam-se raios que vêm formar em nossos olhos dois ângulos iguais pelo vértice. Os mesmos
ângulos formam nos olhos de todos os animais. Não vedes nisso um desígnio evidente? Não vedes nisso
uma lei admirável? Ora, quem faz uma obra senão um obreiro? Quem elabora leis senão um legislador?
Existe pois um obreiro, um legislador eterno.
C.
 Mas quem fez esse obreiro? Como é ele?
C. S.
 Meu príncipe, passeando ontem pelos arredores do palácio mandado construir pelo rei vosso pai, ouvi
dois grilos conversando, um dos quais dizia: - Que palácio formidável! - Sim, - disse o outro - com toda a
minha presunção confesso que deve ser alguém mais poderoso que os grilos o autor de tal prodígio. Mas
nem imagino quem seja. Vejo que há de existir, mas não sei quem é.
C.
 Confesso serdes um grilo mais entendido que eu. O que me agrada em vós é não pretenderdes saber o
que ignorais.
Segundo diálogo
C. S.
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 Então convindes haja um ser todo poderoso, existente por si próprio, supremo artesão de toda a
natureza?
C.
 Sim. Mas se existe por si mesmo nada pode demarcá-lo, está em toda parte. Acha-se então em toda a
matéria, em todas as partes de mim mesmo?
C. S.
 Por que não?
C.
 Nesse caso eu próprio seria parte da divindade.
C. S.
 Não me parece certa a conclusão. Este caco de vidro é de todos os lados penetrado pela luz. Entanto
será ele luz? Não; é simplesmente areia. Tudo está em Deus, não resta dúvida: o que tudo anima em tudo
deve estar. Deus não é como o imperador da China, que mora em um palácio e transmite suas ordens por
calao. Desde que exista, necessário é que sua existência encha todo o espaço e todas as suas obras. E já
que está em vós é uma advertência contínua para que nada façais que vos possa envergonhar em sua
presença.
C.
 Que fazer para ousar olhar-se a si mesmo sem repugnância e sem pejo diante do ser supremo?
C. S.
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 Ser justo.
C.
 Que mais?
C. S.
 Ser justo.
C.
 Mas diz a seita de Lao Quium não existir justiça nem injustiça, vício nem virtude.
C. S.
 Diz a seita de Lao Quium não existir saúde nem doença?
C.
 Não, ela não diria tamanho absurdo.
C. S.
 Absurdo tão grande e mais funesto é pensar não existir saúde nem moléstia da alma, virtude nem
vício. Os que disseram ser tudo a mesma coisa são monstros. Será a mesma coisa criar o filho ou
esmagá-lo em cima de uma pedra? Assistir à mãe ou cravar-lhe um punhal no coração?
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C.
 Fazeis-me estremecer. Eu execro a seita de Lao Quium. Mas são tantos os matizes do justo e do
injusto! As vezes fica-se perplexo. Quem saberá precisamente o que é permitido e o que não o é? Quem
será capaz de estabelecer seguramente as fronteiras que separam o bem