DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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A todos permite comer solhas. Ser virtuoso é a mais digna homenagem
que se lhe possa render. Um coração puro é o mais sublime dos templos, como dizia o grande imperador
Hiao.
Quinto diálogo
C. S.
 De vez que amais a virtude, como a praticareis quando fordes rei?
 Não sendo injusto nem para com meus vizinhos nem para com meu povo.
C. S.
 Não basta não fazer o mal. Devereis praticar o bem. Dareis o que comer aos pobres empregando-os
em trabalhos úteis, e não presenteando-os com a ociosidade. Embelezareis as estradas reais, abrireis
canais, construireis edifícios públicos, estimulareis as artes, premiareis o mérito em que quer que se
manifeste, perdoareis as faltas involuntárias.
C.
 A isso chamo não ser injusto. Trata-se de deveres.
C. S.
 Pensais como verdadeiro rei. Mas há o rei e o homem, a vida pública e a vida privada. Logo vos
casareis. Quantas esposas contais ter?
Dicionário Filosófico.
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C.
 Tenho que uma dúzia será o suficiente. Mais poderia furtar-me ao trabalho. Não gosto desses reis que
têm trezentas esposas e setecentas concubinas, e milhares de eunucos para servi-las. Essa mania de
eunucos sobretudo parece-me um tremendo ultraje à natureza humana. Que se capem, quando muito, os
galos. Com isso ficam melhores de comer. Nunca se viram, porém, eunucos na panela. Para que
mutilá-los? Tem o dalai lama cinqüenta eunucos para cantarem em seu pagode. Gostaria de saber se é
grato ao Chang-ti ouvir as vozes de taquara rachada desses cinqüenta desmembrados.
 Acho também muito ridículos esses bonzos que não se casam. Gabam-se de ser mais sábios que os
demais chineses. Pois bem! Que façam então filhos sábios. Boa moda essa honrar o Chang-ti privando-o
de adoradores! Singular maneira de servir o gênero humano, dando-lhe o exemplo da própria extinção!
Dizia o bom pequeno lama Stelca ed isant Errepi(16) que todo padre devia fazer o maior número de
filhos possível. Ele próprio dava o exemplo e foi muito útil em seu tempo. Por mim casarei todos os
lamas e bonzos e lamizas e bonzas que tiverem vocação para esta santa obra. Serão melhores cidadãos, e
com isso creio prestar grande benefício ao reino de Lou.
C. S.
 Oh que excelente príncipe teremos! Fazeis-me chorar de alegria. Mas certamente não tereis só
mulheres e súdito. Porque afinal não se pode passar a vida a lavrar éditos e fabricar filhos. Sem dúvida
tereis amigos?
C.
 Já os tenho, e bons. Advertem-me de meus defeitos e eu tomo a liberdade de apontar-lhes os seus.
Consola-me e eu os consolo. A amizade é o bálsamo da vida, bálsamo superior ao do químico Erueil(17)
e até aos saquetes do grande Ranoud(18). Admira-me não se haver feito da amizade um preceito de
religião. Desejaria inseri-lo em nosso ritual.
C. S.
 Preservai-vos de semelhante arbitrariedade. A amizade já é sagrada por si mesma. Nunca a forceis. O
coração precisa ser livre. Se fizésseis da amizade um preceito, um mistério, um rito, uma cerimônia,
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milhares de bonzos, pregando e escrevendo suas tolices, cobririam esse sentimento de ridículo. Não
deveis expô-lo a semelhante profanação.
 Mas como procedereis em relação aos vossos inimigos? Vinte vezes recomenda Cong-fu-tseu que os
amemos. Não vos parece um pouco difícil?
C.
 Amar os próprios inimigos? Se é tão comum!
C. S.
 Como o entendeis?
C.
 Como é de mister, creio; Fiz o aprendizado da guerra sob o príncipe de Décon(19) contra o príncipe
de Vis Brunck. Quando um inimigo era ferido e caía em nossas mãos; tratávamo-lo como se fosse nosso
irmão. Muitas vezes demos o próprio leito a inimigos feridos e prisioneiros, dormindo-lhes ao pé sobre
peles de tigre estendidas no chão. Servíamo-los nós mesmos. Que mais quereríeis? Que os amássemos
como se ama às amantes?
C. S.
 Muito me edifica tudo o que dissestes, e desejaria que todas as nações vos compreendessem. Porque
me afirmam haver povos assaz impertinentes para dizer que nós não conhecemos a verdadeira virtude,
que nossas boas ações não passam de pecados esplêndidos, que necessitamos das lições de seus talapões
para que nos ensinem bons princípios. Coitados! Mal aprenderam a ler e escrever e já querem ensinar aos
próprios mestres!
Sexto diálogo
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C. S.
 Não vos repetirei todos os lugares comuns que há cinco ou seis mil anos se repisam entre nós acerca
de todas as virtudes. Há virtudes que não o são senão para nós mesmos, como a prudência para guiar a
alma, a temperança para governar o corpo - meros preceitos de política e higiene. Verdadeiras virtudes
são as virtudes úteis à sociedade: fidelidade, magnanimidade, beneficência, tolerância, etc. Graças aos
céus não há avó entre nós que não ensine aos netos todas essas virtudes. Elas constituem o cimento da
nossa juventude, na cidade como na aldeia. Há contudo uma grande virtude que começa a ser esquecida,
o que é deplorável.
C.
 Qual é? Vamos, dizei-me, eu tomarei a peito realentá-la.
C. S.
 A hospitalidade. Essa virtude tão social, esse sagrado liame entre os homens, que começa a relaxar-se
desde que temos tavernas. Ao que dizem, veio-nos essa perniciosa instituição de certos selvagens do
Ocidente. Parece que esses miseráveis não têm casas para acolher os viajores. Que prazer receber na
grande cidade de Lou, na linda praça de Honchã, na casa de Qui, um generoso estrangeiro recém chegado
de Samarcande, para quem me tornaria de então em diante um homem sagrado e a quem todas as leis -
divinas e humanas - obrigariam a receber-me em sua casa quando eu viajasse pela Tartária e a ser meu
amigo íntimo!
 Os bárbaros de que vos falava só recebem os forasteiros quando pagos, e ainda assim em
achavascados cochicholos. Vendem caro esse acolho miserável. Apesar de tudo ouço dizer que essa
pobre gente se presume superior a nós e se vangloria de ter moral mais pura. Querem que seus
pregadores falem melhor que Cong-fu-tseu. Enfim pretendem ensinar-nos justiça por venderem mau
vinho nas estradas reais, suas mulheres saírem como loucas pelas ruas e dançarem enquanto as nossas
cultivam bichos de seda.
C.
 Acho plausível a hospitalidade e pratico-a com prazer. Mas receio o abuso. Existem, nas cercanias do
grande Tibete, povos que vivem pessimamente alojados, amantes de andejar, que sem motivo algum
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seriam capazes de palmilhar o mundo de ponta a ponta. Entanto, se fordes ao grande Tibete desfrutar
entre eles do direito da hospitalidade, não vos darão cama nem comida. Coisas tais podem fazer
desgostar da polidez.
C. S.
 O mal é pequeno e fácil de remediar, não se recebendo senão pessoas bem recomendadas. Não há
virtude que não ofereça seus riscos. Por isso mesmo é belo abraçá-las.
 Quão santo e sábio é o nosso Cong-fu-tseu! Não há virtude que não inspire. Em suas sentenças está a
felicidade dos homens. Eis uma que me vem à memória - a qüinquagésima terceira:
Recompensai os benefícios com benefícios e jamais
vos vingueis das injúrias.
 Qual a máxima, qual a lei dos povos do Ocidente comparável a moral tão pura? Em quantos passos
preceitua Cong-fu-tseu a humildade! Se os homens praticassem esta virtude jamais haveria querelas
sobre a terra.
C.
 Li tudo o que escreveram Cong-fu-tseu e os árabes dos séculos passados a respeito da humildade. Mas
ninguém me parece tê-la definido com exatidão. Talvez seja pouca humildade atrever-me a increpá-los,
mas tenho pelo menos a humildade de confessar não os haver compreendido. Dizei-me, que pensais
dessa virtude?
C. S.
 Obedecer-vos-ei humildemente. Reputo a humildade a modéstia da alma, porque a modéstia exterior
não passa de civilidade. Ser humilde