DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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de um curso brilhante num colégio de jesuítas, pretendendo dedicar-se à
magistratura, pôs-se ao serviço de um procurador. Mais tarde, patrocinado pela sociedade do Templo e
em particular por Chaulieu e pelo marquês de la Fare, publicou seus primeiros versos. Em 1717, acusado
de ser o autor de um panfleto político, foi preso e encarcerado na Bastilha, de onde saiu seis meses
depois, com a Henriade quase terminada e com o esboço do OEdipe. Foi por essa ocasião que ele
resolveu adotar o nome de Voltaire. Sua tragédia OEdipe foi representada em 1719 com grande êxito;
nos anos seguintes, vieram: Artemise (1720), Marianne (1725) e o Indiscret (1725).
 Em 1726, em conseqüência de um incidente com o cavaleiro de Rohan, foi novamente recolhido à
Bastilha, de onde só pode sair sob a condição de deixar a França. Foi então para a Inglaterra e aí se
dedicou ao estudo da língua e da literatura inglesas. Três anos mais tarde, regressou e publicou Brutus
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(1730), Eriphyle (1732), Zaïre (1732), La Mort de César (1733) e Adélaïde Duguesclin (1734). Datam da
mesma época suas Lettres Philosophiques ou Lettres Anglaises, que provocaram grande escândalo e
obrigaram a refugiar-se em Lorena, no castelo de Madame du Châtelet, em cuja companhia viveu até
1749. Aí se entregou ao estudo das ciências e escreveu os Eléments de le Philosophie de Newton (1738),
além de Alzire, L'Enfant Prodigue, Mahomet, Mérope, Discours sur l'Homme, etc. Em 1749, após a
morte de Madame du Châtelet, voltou a Paris, já então cheio de glória e conhecido em toda a Europa, e
foi para Berlim, onde já estivera alguns anos antes como diplomata. Frederico II conferiu-lhe honras
excepcionais e deu-lhe uma pensão de 20.000 francos, acrescendo-lhe assim a fortuna já considerável.
Essa amizade, porém, não durou muito: as intrigas e os ciúmes em torno dos escritos de Voltaire
obrigaram-no a deixar Berlim em 1753.
 Sem poder fixar-se em parte alguma, esteve sucessivamente em Estrasburgo, Colmar, Lyon, Genebra,
Nantua; em 1758, adquiriu o domínio de Ferney, na província de Gex e aí passou, então, a residir em
companhia de sua sobrinha Madame Denis. Foi durante os vinte anos que assim viveu, cheio de glória e
de amigos, que redigiu Candide, Histoire de la Russie sous Pierre le Grand, Histoire du Parlement de
Paris, etc., sem contar numerosas peças teatrais.
 Em 1778, em sua viagem a Paris, foi entusiasticamente recebido. Morreu no dia 30 de março desse
mesmo ano, aos 84 anos de idade.
ABRAÃO
 Abraão é um desses nomes célebres na Ásia Menor e na Arábia, como Tot entre os egípcios, o
primeiro Zoroastro na Pérsia, Hércules na Grécia, Orfeu na Trácia, Odin nas nações setentrionais e tantos
outros mais conhecidos por sua celebridade do que por uma história bem comprovada. Não falo aqui
senão da história profana, pois quanto à dos judeus, nossos mestres e nossos inimigos, em quem cremos e
que detestamos, tendo sido a história desse povo visivelmente escrita pelo próprio Espírito Santo, temos
por ela os sentimentos que devemos ter. Dirijo-me apenas aos árabes; que se gabam de descender de
Abraão por Ismael; que acreditam ter sido esse patriarca o fundador de Meca, onde teria morrido. O fato
é que a raça de Ismael foi infinitamente mais favorecida por Deus do que a raça de Jacó. Uma e outra, é
verdade, produziram ladrões. Mas os ladrões árabes foram incomparavelmente superiores aos ladrões
judaicos. Os descendentes de Jacó não conquistaram mais que uma faixa de terra insignificante, que
perderam. Os descendentes de Ismael avassalaram parte da Ásia, parte da África e parte da Europa,
edificaram um império mais vasto que o império dos romanos e enxotaram os judeus de suas cavernas -
que estes chamavam terra da promissão.
 Bem difícil seria, à luz da história moderna, ter sido Abraão pai de duas nações tão diferentes. Dizem
que nasceu na Caldéia, filho de pobre oleiro que ganhava a vida fazendo pequenos ídolos de barro. É
pouco verossímil que esse filho de oleiro se haja abalançado a ir fundar Meca a trezentas léguas de
distância, de baixo do trópico, tendo de vingar desertos intransitáveis. Se foi um conquistador,
certamente ter-se-á dirigido ao belo pais da Assíria. Se, como o despintam, não passou de um pobre
diabo, então não terá fundado reinos senão na própria terra
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 Reza o Gênesis que tinha Abraão setenta e cinco anos ao emigrar do país de Harã, após a morte de seu
pai Tareu o oleiro. O mesmo Gênesis, porém, diz que Tareu, tendo gerado Abraão aos setenta anos, viveu
até a idade de duzentos e cinco anos, e que Abraão só saiu de Harã depois da morte do pai. Portanto é
claro, segundo o próprio Gênesis, que Abraão contava cento e trinta e cinco anos quando deixou a
Mesopotâmia. Saiu de um pais idólatra para outro país idólatra: Siquêm, na Palestina. Por que? Por que
deixou as férteis margens do Eufrates por terras tão remotas, estéreis e pedregosas? A língua caldaica
devia ser muito diferente da língua de Siquêm. Não se tratava de lugar de comércio. Siquêm dista da
Caldéia mais de cem léguas. É preciso transpor desertos para lá chegar. Mas Deus queria que Abraão
realizasse essa viagem. Queria mostrar-lhe a terra que séculos depois haviam de habitar seus pósteros.
Custa ao espírito humano compreender os motivos de tal peregrinação.
 Mal arriba ao montanhoso rincão de Siquêm, obriga-o a fome a abandoná-lo. Vai para o Egito em
companhia de sua mulher, à procura de com que viver. Duzentas léguas medeiam de Siquêm e Menfis.
Será natural ir buscar trigo tão longe? Num país de que nem se sabe a língua? Estranhas viagens
empreendidas à idade de quase cento e quarenta anos.
 Traz a Menfis sua mulher Sara. Sara era extremamente jovem em comparação com ele, pois não
contava mais que sessenta e cinco anos. Como fosse muito bonita, Abraão resolveu tirar proveito de sua
beleza. "Façamos de conta que você é minha irmã, - disse-lhe - " a fim de que me acolham com
benevolência". "Façamos de conta que é minha filha" - devia dizer. O rei enamora-se da jovem Sara e
presenteia o pretenso irmão com muitas ovelhas, bois, burros, mulas, camelos e servos. O que prova -
que já então era o Egito um reino poderoso e civilizado - por conseguinte antigo - e que se
recompensavam magnificamente os irmãos que vinham oferecer as irmãs aos reis de Menfis.
 Tinha a jovem Sara noventa anos, segundo a Escritura, quando Deus lhe prometeu que Abraão, que
então tinha cento e sessenta, lhe daria um filho.
 Abraão, que gostava de vigiar, tomou o caminho do hórrido deserto de Cades, acompanhado da
mulher grávida, sempre jovem e bonita. Como acontecera com o rei egípcio, enamorou-se também de
Sara um rei do deserto - O pai dos crentes pregou a mesma mentira que no Egito: fez passar a esposa por
irmã. O que mais uma vez lhe valeu ovelhas, bois e servos. Pode-se dizer que, graças a sua mulher,
Abraão se tornou riquíssimo.
 Os comentaristas escreveram um número prodigioso de volumes para justificar o procedimento de
Abraão e conciliar a cronologia. Cumpre-me, pois, a eles remeter o leitor. São todos espíritos finos e
sutis, excelentes metafísicos, senhores sem preconceito e profundamente avessos à pedanteria.
ALMA
 Seria maravilhoso ver a própria alma. Conhece-te a ti mesmo (1) é excelente preceito, mas só a Deus
é dado pô-lo em prática. Quem mais pode conhecer a própria essência?
 Alma chamamos ao que anima. É tudo o que dela sabemos: a inteligência humana tem limites. Três
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quartos do gênero humano não vão alêm, nem se preocupam com o ser pensante. O outro quarto indaga.
Ninguém obteve nem obterá resposta.
 Pobre filósofo! Vês uma planta que vegeta, e dizes vegetação, ou alma vegetativa. Notas que