DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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seria uma metempsicose contínua. Uma mônada estaria ora numa baleia, ora numa árvore,
ora no corpo de um pelotiqueiro. É um sistema e tanto. Tenho-o no mesmo conceito que a declinação dos
átomos, as formas substanciais, a graça versátil e os vampiros de dom Calmet.
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CRISTIANISMO
 Pesquisas históricas. - Não poucos eruditos manifestaram sua surpresa em não se lhes deparar no
historiador José o menor traço a respeito de Jesus Cristo. Porque todos são acordes hoje em que o breve
trecho que lhe dedica o historiador fariseu em sua História foi interpolado. No entanto o pai de José devia
ter sido testemunha de todos os milagres de Jesus. José era da casta sacerdotal, parente da rainha
Mariana, esposa de Herodes. Esparrama-se nas mais ociosas minudências sobre os mais corriqueiros atos
desse príncipe, e contudo não diz palavra sobre a vida ou morte de Jesus. Demais esse historiador, que
não encapa nenhuma das crueldades de Herodes, cala o morticínio de todas as crianças por ele ordenado
atento à nova de que nascera um rei judeu. Conta o calendário grego catorze mil crianças degoladas nessa
ocasião. É o mais abominável dos crimes de todos os soberanos. Não tem símile na história da
civilização. A acontecimento tão singular quanto execrável, entretanto, não faz a mais leve referência o
melhor escritor que em todos os tempos possuíram os judeus, o único prezado por gregos e romanos. Tão
pouco regista ele o aparecimento da nova estrela que teria acendido no céu após o nascimento do
Redentor, fenômeno ruidoso que não devia escapar a um historiador esclarecido como José. Mantém
silêncio ainda sobre as trevas que, à morte do Salvador, com o sol a pino cobriram toda a terra por espaço
de três horas, e sobre a grande quantidade de túmulos que então se abriram e a multidão dos justos
ressurretos.
 Não cessam os eruditos de manifestar sua surpresa de ver que nenhum historiador romano regista
semelhantes prodígios, consumados sob o reinado de Tibério, aos olhos de uma guarnição e de um
governador romano, que devia ter enviado ao imperador e ao senado relatório circunstanciado do mais
miraculoso evento que ouvidos humanos ouviram contar. A própria Roma devia ter-se imerso durante
três horas em espessas trevas. Deviam assinalar tamanho prodígio os fastos de Roma e de todas as
nações. Deus não quis fossem tais coisas divinas escritas por mãos profanas.
 Outras dificuldades empacham os eruditos na história dos Evangelhos. Observam eles que em S.
Mateus Jesus diz aos escribas e aos fariseus que sobre eles recairia todo o sangue inocente derramado na
terra, desde Abel até Zacarias, filho de Baraque, por eles assassinado no templo. Ora, a história dos
hebreus não menciona, afirmam os eruditos, nenhum Zacarias morto no templo, nem antes nem depois
do advento do Messias. O único historiador a registar o fato é José, livro 4, capítulo 19, ao falar do sítio
de Jerusalém. Daí suspeitaram eles ter o Evangelho segundo S. Mateus sido escrito depois da tomada de
Jerusalém por Tito. Mas todas as dúvidas e objeções dessa espécie se dirimem desde que se considere a
infinita diversão que forçosamente há de haver entre os livros divinamente inspirados e os livros dos
homens. Aprouve a Deus envolver numa nuvem tão respeitável quanto obscura o seu nascimento, sua
vida e sua morte. Em tudo diferem seus métodos dos nossos.
 Outro ponto que tem quebrado a cabeça aos literatos é a diferença das duas genealogias de Cristo. S.
Mateus dá por pai a José, Jacó, a Jacó, Matã, a Matã, Eleazar. S. Lucas, ao contrário, diz que José era
filho de Heli, Heli de Matate, Matate de Leví, Leví de Jana, etc.
 Engasga-os ainda a suposição de Jesus não ser filho de José, mas de Maria. Atalham-nos também
certas dúvidas quanto aos milagres do nosso Redentor, atentos os escritos de Sto. Agostinho, Sto. Hilário
e outros, que atribuíram ao relato de tais milagres sentido místico, alegórico. Exemplos: a figueira
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amaldiçoada e secada para não dar frutos, quando não era tempo de figo. Os demônios enviados no corpo
de porcos, num país onde não havia porcos. A água transformada em vinho ao fim de um repasto, quando
os comensais já se achavam excitados. Todas essas críticas dos doutos, porém, confunde-as a fé, que com
isso não faz senão aviventar-se. Outro não é o escopo deste artigo senão rastear o fio histórico e dar uma
idéia tanto quanto possível exata dos fatos sobre que ninguém discute.
 Primeiramente, Jesus nasceu sob a lei mosaica, segundo esta lei foi circuncidado, dela cumpriu todos
os preceitos e celebrou todas as festas. Só pregou moral. Não revelou o mistério da própria encarnação
nem disse aos judeus haver nascido de uma virgem. Recebeu a bênção de João nas águas do rio Jordão,
cerimônia a que muitos judeus se submetiam, conquanto ele próprio jamais tenha batizado ninguém. Não
falou dos sete sacramentos - Humanamente não se colocou em nenhuma hierarquia eclesiástica. Ocultou
a seus contemporâneos ser filho de Deus, eternamente gerado, consubstancial a Deus, e que o Espírito
Santo procedia do Pai e do Filho. Não disse que sua pessoa se compunha de duas naturezas e de duas
vontades. Quis que esses grandes mistérios fossem revelados aos homens no decorrer dos tempos por
aqueles que haviam de ser esclarecidos pelas luzes do Espírito Santo. Vivo, em nada se arredou da lei de
seus pais. Não mostrou aos homens mais que um justo grato a Deus, perseguido pelos invejosos e
condenado à morte por magistrados prevenidos. Quis que sua Santa Igreja, por ele fundada, fizesse o
resto.
 Fala José no capítulo 12 de sua História de uma seita de judeus rigoristas, recentemente fundada por
um tal Judas galileu - "Eles desprezam" - diz - "os males terrenos, triunfando dos tormentos pela
constância. Preferem, pela glória, a morte à vida. Optaram sofrer ferro e fogo, deixar que lhes
quebrassem os ossos a pronunciar a menor palavra contra seu legislador ou comer carnes vedadas".
 O retrato parece quadrar aos judaístas e não aos essênios. Palavras de José: "Judas foi autor de uma
nova seita, de todo ponto diversa das três outras - de saduceus, fariseus e essênios". A breve trecho: "São
judeus de nacionalidade. Vivem unidos entre si, e consideram vício a volúpia". Denota o sentido natural
da frase ser dos judaístas que fala o autor.
 Seja como for, conheceram-se esses judaístas antes que os discípulos de Cristo constituíssem partido
considerável no mundo.
 Os terapeutas eram uma sociedade diferente de essênios e judaístas. Tiravam aos ginossofistas da
Índia e aos bramas. "Anima-os" - atesta Fílon - "um ímpeto de amor celeste que os transporta ao
entusiasmo dos bacantes e coribantes e guinda-os ao estado de contemplação a que aspiram. Esta seita
nasceu em Alexandria, então inçada de judeus, e alastrou ferazmente pelo Egito".
 Os discípulos de João Batista também proliferaram um pouco no Egito, mas principalmente na Síria e
Arábia. Medraram outrossim na Ásia Menor. Dizem os Atos dos Apóstolos (capítulo 19) haver Paulo
encontrado muitos deles em Éfeso, aos quais indagou:
 "- Recebestes o Espírito Santo
 - Nem sequer ouvimos falar que houvesse um Espírito Santo.
 - Que batismo recebestes
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 - O batismo de .João."
 Existiam, nos primeiros anos que se seguiram à morte de Cristo, sete sociedades ou seitas distintas
entre os judeus: fariseus, saduceus, essênios, judaístas, terapeutas, discípulos de João e discípulos de
Cristo, cujo diminuto rebanho Deus conduzia a sendas desconhecidas da sabedoria humana.
 Foram os fiéis apelidados cristãos em Antióquia, por beira do ano 60 da era vulgar. No império
romano, como adiante veremos, foram conhecidos por outros nomes De