DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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primeiro não se distinguiam
senão pela denominação de irmãos, santos ou fiéis. Deus, que baixara à terra a fim de ser exemplo de
humildade e pobreza, dera assim toscos alicerces à sua igreja e guiara-a no mesmo estado de humilhação
em que lhe aprouvera nascer. Foram os primeiros cristãos homens obscuros, trabalhadores manuais. Diz
o apóstolo Paulo que ganhava a vida construindo tendas. S. Pedro ressuscitou a costureira Dorcas, que
fazia os hábitos dos irmãos. Os fiéis reuniam-se em Jope, em casa de um curtidor de nome Simão, reza o
capítulo 9 dos Atos dos Apóstolos.
 Secretamente os fiéis se infiltraram na Grécia, e de lá alguns conseguiram transladar-se a Roma de
contrabando com os judeus, a quem os romanos permitiam o funcionamento de uma sinagoga. Não se
lhes separaram logo. Observavam a circuncisão e, como alhures já se advertiu, os quinze primeiros
bispos de Jerusalém foram todos circuncidados.
 Ao tomar consigo Timóteo, que era filho de pai gentio, o apóstolo Paulo circuncidou-o com as
próprias mãos no lugarejo de Listra. Tito, porém, outro discípulo seu, não se deixou circuncidar.
Mantiveram-se os irmãos discípulos de Cristo em união com os judeus até que Paulo foi perseguido em
Jerusalém por levar estrangeiros ao templo. Acusavam-no os judeus de querer substituir a lei mosaica por
Jesus Cristo. Foi para expungir-se dessa acusação que o apóstolo Jaques propôs ao apóstolo Paulo
fazer-se rapar a cabeça e purificar-se no templo com quatro judeus. que haviam feito voto de se
barbearem. "Tomai-os convosco" - disse-lhe Jaques (capítulo 21, Atos dos Apóstolos). - "Purificai-vos
com eles, e que todos saibam ser falso o que de vós se diz e que continuais a observar a lei de Moisés".
 Paulo foi criminado também de impiedade e heresia, e seu processo durou longo tempo. Evidencia-se
porém das próprias acusações contra ele assacadas que ele viera a Jerusalém para observar os ritos
judaicos.
 São palavras textuais de Paulo a Festo (capítulo 25 dos Atos): "Não pequei nem contra a lei judaica
nem contra o templo".
 Os apóstolos anunciavam Cristo como judeu, observador da lei judaica, enviado de Deus para fazê-la
observar.
 "A circuncisão é útil" - diz o apóstolo Paulo (capítulo 2, Epístolas aos Romanos) - "se observais a lei.
Mas se a violais vossa circuncisão torna-se em prepúcio. Se o incircunciso observa a lei, é como se fosse
circunciso. Verdadeiro judeu é o que o é interiormente".
 Ao falar de Jesus em suas Epístolas, não revela esse apóstolo o mistério inefável da
consubstancialidade do Crucificado com Deus. "Por ele fomos salvos" - diz (capítulo 5, Epístolas aos
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Romanos) "da cólera de Deus - Pela graça concedida a um só homem - Jesus Cristo - derramou-se sobre
nós o dom divino. Pelo pecado de um só homem, reinou a morte. Por um só homem - Jesus - os justos
reinarão." E no capítulo 8: "Nós, os herdeiros de Deus e os co-herdeiros de Cristo." No capítulo 16: "A
Deus, que é o sábio único, honra e glória por Jesus Cristo. -. - Vós estais em Jesus, e Jesus está em Deus"
(1a. Aos Coríntios, cap. 3). E (ibd., cap. 15, v. 27): "A ele tudo está sujeito, que a ele Deus tudo
sujeitou".
 Teve-se certa dificuldade em explicar este lanço da Epístola aos Filipinos: "Nada façais por glória vã.
Crede mutuamente pela humildade que os outros vos são superiores. Abrigai os mesmos sentimentos que
Jesus, que, achando-se em missão de Deus, nem por isso cogitou usurpá-lo a ele se igualando". Penetra-o
e esclarece-lhe o verdadeiro sentido uma carta que nos legaram as igrejas de Viena e Lião, escrita no ano
117, precioso monumento da antigüidade. Louva-se nela a modéstia de alguns fiéis: "Eles não quiseram"-
reza - "aureolar-se do título de mártires (por algumas tribulações) a exemplo de Jesus, que, em
representação divina, não cogitou usurpar a qualidade de par de Deus". Assim também diz Orígenes em
seu Comentário sobre João: "Mais irradiante foi a grandeza de Jesus humilhando-se "do que se tivesse
usurpado a paridade com Deus". Efetivamente, seria visível contra senso a interpretação contrária. Que
significaria: "Crede os outros superiores a vós. Imitai Jesus, que não cogitou ser usurpação igualar-se a
Deus"? Seria contradizer-se grosseiramente, seria dar um exemplo de grandeza por um exemplo de
modéstia. Seria pecar contra o senso comum.
 Assim fundava a sabedoria dos apóstolos a igreja nascente. Sabedoria que a disputa sobrevinda entre
os apóstolos Pedro, Jaques e João de um lado e Paulo de outro não conseguiu turbar. Essa disputa
sobreveio em Antióquia. O apóstolo Pedro, também chamado Cefas, ou ainda Simão Barjone, comia com
os gentios conversos e com eles não observava as cerimônias da lei nem a distinção das carnes. Comiam,
ele, Barnabé e outros discípulos, indiferentemente carne de porco, carnes afogadas de animais que
tinham o pé fendido e que não ruminavam. Havendo chegado, entretanto, numerosos judeus cristãos,
com eles S. Pedro retornou à abstinência das carnes proibidas e às cerimônias da lei mosaica.
 A medida era prudente. Ele não queria escandalizar os judeus cristãos seus companheiros. Porém
Paulo levantou-se contra ele com um pouco de dureza. "Eu lhe resistia" - disse-lhe no rosto - "porque era
condenável". (Epístola aos Gálatas, cap. 2).
 Essa querela parece tanto mais extraordinária da parte de S. Paulo quanto a princípio ele fora
perseguidor, o que o devia tornar mais modesto, fizera sacrifícios no templo de Jerusalém, circuncidara
seu discípulo Timóteo e cumprira os ritos judeus que agora censurava em Cefas. Pretende S. Jerônimo
que essa disputa entre Paulo e Cefas era de encomenda. Diz em sua primeira Homilia, tomo 2, que eles
fizeram como dois advogados que, para ter mais autoridade sobre os clientes, se escandecem e se
aferrotoam no tribunal. E sugere que, pretendendo Pedro Cefas pregar aos judeus e Paulo aos gentios;
simularam querelar, Paulo para carear os gentios, Pedro para conquistar os judeus. Sto. Agostinho,
porém, não está pelos autos: "Amofina-me" - escreve na Epístola a Jerônimo - "que um tão grande
homem se torne patrono do embuste, patronum mendacii".
 De mais a mais, se Pedro ia pregar aos judeus judaizantes e Paulo aos estrangeiros, é muito provável
que Pedro não haja vindo a Roma. Nenhuma menção fazem dessa viagem os Atos dos Apóstolos.
 Seja como for, foi por volta do ano 60 da nossa era que os cristãos começaram a desquitar-se da
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comunhão judaica, o que tantas encrencas e perseguições lhes custou de parte das sinagogas de Roma,
Grécia, Egito e Ásia. Acusaram-nos seus irmãos judeus de irreligiosidade, ateísmo e excomungavam-nos
três vezes nos dias de sabate. Mas Deus protegeu-os em meio ao alude das perseguições.
 Pouco a pouco proliferaram igrejas, e antes do fim do primeiro século ultimou-se o divórcio entre
judeus e cristãos. O governo romano ignorava essa separação. Nem o senado nem os imperadores tinham
olhos para as brigas de um partido insignificante que até então Deus conduzira na obscuridade e só
insensivelmente trazia à luz diurna.
 Balancemos o estado em que a esse tempo se achava a religião do império romano. Em quase toda a
terra gozavam de crédito os mistérios e as expiações. Imperadores, grandes e filósofos, é verdade, não
tinham a menor fé em tais mistérios. Mas o povo, que em matéria de religião dita a lei aos grandes,
impunha-lhes a necessidade de se conformarem aparentemente com seu culto. Cumpre, para encadeá-lo,
arrastar as mesmas cadeias que ele. O próprio Cícero iniciou-se nos mistérios de Eleusina. A concepção
monoteica era o principal dogma que se anunciava nessas festas misteriosas e magníficas. Não há negar
serem as orações e os hinos que desses mistérios nos restam o que de mais piedoso e admirável possui o
paganismo.
 O serem os cristãos também