DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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monoteístas muito lhes facilitou a conversão dos gentios. Alguns
filósofos da seita de Platão bandearam para o cristianismo. Aí está por que foram platônicos todos os
padres da igreja dos três primeiros séculos.
 O zelo inconsiderado de alguns não conseguiu opor empeços às verdades fundamentais. Reprovou-se
a S. Justino, um dos primeiros padres, o haver dito em seu Comentário sobre Isaías que, em reinado de
mil anos sobre a terra, os santos gozariam de todos os bens sensuais. Reputou-se-lhe crime o dizer na
Apologia do Cristianismo que, tendo Deus criado a terra, deixou-a aos cuidados dos anjos, que,
enamorando-se das mulheres, lhes fizeram filhos, que são os demônios.
 Condenou-se a Lactâncio e outros padres o terem dado crédito aos oráculos das sibilas. Pretendia ele
haver a sibila Eritréia composto estes quatro versos gregos, que traduzo à cortiça da letra: - Com cinco
pães e dois peixes - ele alimentará cinco mil homens no deserto. - E, juntando os sobejos, - doze cestos
encherá.
 Acoimou-se outrossim aos primeiros cristãos a falsa alegação de certos versos acrósticos de uma
antiga sibila, os quais começavam todos pelas letras iniciais do nome de Jesus Cristo dispostas na mesma
ordem.
 Esses escrúpulos anticientíficos de alguns cristãos não impediram a igreja de realizar os progressos
que lhe reservava Deus. Primitivamente os cristãos celebravam seus mistérios em casas retiradas, em
subterrâneos, de noite. Daí, atesta Minútio Félix, lhes veio o apelido de lucifugaces. Fílon chamava-os
gesseanos. Nos quatro primeiros séculos foram mais comumente conhecidos por galileus e nazarenos.
Sobre todas essas denominações, todavia, prevaleceu a de cristãos.
 Nem a hierarquia nem as práticas foram estabelecidas de uma vez. Os tempos apostólicos foram
diferentes dos que se lhes seguiram. Ensina-nos S. Paulo (1a. Aos Coríntios) que estando os irmãos
retinidos - circuncisos ou não - só podiam falar dois ou três profetas, e se entrementes alguém tivesse
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uma revelação, o profeta que tomara a palavra era obrigado a calar-se.
 Sobre esse uso da igreja primitiva ainda hoje se fundam muitas comunhões cristãs, em cujas reuniões
não há hierarquia. Inicialmente qualquer pessoa tinha o direito de falar na igreja, tirante as mulheres. A
santa missa de hoje, que se celebra de manhã, primitivamente celebrava-se à tarde e era a ceia. Esses
costumes mudaram à proporção que a igreja se fortaleceu. Sociedade mais extensa exigia evidentemente
maior número de regulamentos, e a prudência dos pastores soube conformar-se às diferenças de tempo e
lugar.
 Abonam S. Jerônimo e Eusébio que, constituídas as igrejas, paulatinamente foram se distinguindo
cinco ordens eclesiásticas: os vigilantes. - episcopoi - de onde provêem os bispos; os antigos da
sociedade - presbyteroi - padres; os serventes ou diáconos - diaconoi; pistoi - crentes, iniciados, isto é, os
batizados, que participavam das ceias dos ágapes; finalmente os catecúmenos e energúmenos, candidatos
ao batismo. O hábito era o mesmo para as cinco ordens. Todas deviam manter o celibato, testemunham o
livro de Tertuliano dedicado a sua mulher e o exemplo dos apóstolos. Nos três primeiros séculos
nenhuma representação, pintada ou esculpida, presidia a suas reuniões. Os cristãos escondiam
cuidadosamente seus livros aos gentios, não os confiando senão aos iniciados. Nem aos catecúmenos era
permitido recitar a oração dominical.
 O que mais caracteristicamente distinguia os cristãos, e que veio até nossos dias, era o poder de
espantar os diabos com o sinal da cruz. Conta Orígenes no Tratado contra Celso, número 133, que
Antinous, divinizado pelo imperador Adriano, fazia milagres no Egito por força de encantamentos e
prestígios. Acrescenta, entretanto, bastar a simples pronunciação do nome de Jesus para os diabos
deixarem o corpo dos possessos. Tertuliano vai mais longe e dos fundos da África proclama: "Se
vossos deuses não confessarem ser diabos na presença de um vero cristão, de bom grado vos veria
derramar o sangue desse cristão". (Apologética, capítulo 23). Haverá coisa mais evidente?
 Efetivamente, Jesus Cristo enviou seus apóstolos a fim de correr os demônios. Dom de expulsá-los
tiveram também os judeus, porque, quando Jesus livrou possessos e espaventou os diabos no corpo de
uma vara de porcos e operou outras curas que tais, disseram os fariseus: expulsa os demônios pelo poder
de Belzebu. - Se é por Belzebu que eu os expulso - retrucou Jesus - por quem os expulsam vossos
filhos!" É incontestável que os judeus se gabavam desse poder. Tinham exorcistas e exorcismos.
Invocavam o nome do deus de Jacó e de Abraão. Introduziam ervas consagradas no nariz dos
demoníacos. (José relata parte dessas cerimônias). Esse poder sobre os diabos, que os judeus perderam,
transmitiu-se aos cristãos, que também parecem tê-lo perdido desde algum tempo.
 Compreendia o poder de expulsar os demônios também o de desfazer as operações da magia. Porque a
magia esteve em voga em todos os tempos e em todas as nações. Todos os padres da igreja a ela se
referem. Observa S. Justino (Apologética, livro 3) ser muito comum invocar-se a alma dos mortos,
tirando daí um argumento em favor da imortalidade da alma. Lactâncio (Instituições Divinas, livro 7) diz
que "Se ousásseis negar a subsistência da alma ao corpo, o mago vos convenceria do contrário fazendo-a
aparecer". Ireneu, Clemente Alexandrino, Tertuliano, o bispo Cipriano, todos afirmam a mesma coisa -
Verdade é que hoje tudo mudou e que já não existem magos nem endemoninhados. Mas certamente
voltarão à cena quando for da vontade de Deus.
 Quando as sociedades cristãs se tornaram mais ou menos numerosas e muitas se levantaram contra o
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culto do império romano, contra elas agiram rigorosamente os magistrados e sobretudo as perseguiu o
povo. Não se perseguia aos judeus, que gozavam de privilégios particulares e se encaramujavam em suas
sinagogas. Permitia-se-lhes o exercício de sua religião, como ainda o permite a Roma de hoje. Todos os
cultos do império eram tolerados, embora não os adotasse o senado.
 Tendo porém os cristãos se declarado inimigos de todos esses cultos, e sobretudo da religião do
império, expuseram-se muitas vezes a cruéis provações.
 Um dos primeiros e mais célebres mártires foi Inácio, bispo de Antióquia, condenado pelo próprio
imperador Trajano, então na Ásia, e por ordens suas transportado a Roma a fim de ser exposto às feras.
Isso num tempo em que ainda não era costume trucidar cristãos em Roma. Ignora-se de que tenha sido
acusado junto desse imperador, afamado pela demência. Necessário era que Inácio tivesse inimigos
figadais. De qualquer forma, conta a história de seu martírio haver-se encontrado em seu coração,
gravado em letras de ouro, o nome de Jesus Cristo. Daí apelidarem-se os cristãos em alguns lugares
teóforos, como a si próprio se chamava Inácio.
 Conserva-se uma carta sua em que pede aos bispos e aos cristãos não se oporem a seu martírio, fosse
porque já então eram os fiéis em número suficiente para impedi-lo, fosse porque os houvesse bastante
acreditados para obter-lhe a graça. Notável é ter-se consentido que, ao ser trazido a Roma, os cristãos
desta cidade fossem recebê-lo. O que prova que se punia nele a pessoa e não a seita.
 Não foram continuadas as perseguições. Escreve Orígenes (Tratado contra Celso, livro 3): "Poucos
foram os cristãos que morreram por sua religião. Só muito raramente se verificavam execuções dessa
natureza".
 Tantos carinhos dispensou Deus a sua igreja que, a despeito de seus desafetos, fez que tivesse cinco
concílios (congressos tolerados) no primeiro século, dezesseis no segundo e trinta no terceiro. Por vezes
tais congressos foram proibidos, quando a falsa prudência dos magistrados temia