DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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que degenerassem em
tumultos. Poucos são os processos verbais que nos restam de procônsules e pretores que condenaram
cristãos à morte. Só à vista desses documentos poderíamos julgar das acusações contra eles assacadas e
de seus suplícios.
 Temos um fragmento de Dinís de Alexandria, no qual se relata o extrato da chancelaria de um
procônsul do Egito sob o imperador Valeriano. Ei-lo:
 Introduzidos na sala de audiência Dinís, Fausto, Máximo, Marcelo e Queremão, disse-lhes o prefeito
Emiliano: "Tomastes conhecimento, pelas palestras que convosco tive e por tudo que a respeito tenho
escrito, quão bondosos têm sido nossos príncipes em relação a vós. Repito-o: a vós mesmos entregaram
vossa conservação e vossa saúde. Vosso destino está em vossas mãos. Uma única coisa vos pedem, coisa
que a razão exige a toda pessoa razoável: que adoreis os deuses protetores de seu império e renegueis a
esse culto contrário à natureza e ao bom senso".
 Respondeu Dinís: "Nem todos os homens têm os mesmos deuses. Cada um adora os que julga
verdadeiramente serem-no."
 Replicou o prefeito Emiliano: "Vejo que sois ingratos e que abusais da bondade dos imperadores. Pois
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bem: não continuareis nesta cidade. Mandá-los-ei para Cefro, nos confins da Líbia, conforme ordem que
recebí dos nossos imperadores. Não penseis reeditar lá vossas reuniões nem orar nesses lugares a que
chamais cemitérios: tal vos é terminantemente vedado, e não o permitirei a ninguém".
 Nada mais possivelmente verdadeiro que esse processo verbal. Evidencia-se que houve tempo em que
eram proibidas as reuniões dos cristãos, assim como entre nós se interdiz aos calvinistas congregarem-se
em Languedoc. Chegamos até, uma vez ou outra, a fazer enforcar e rodar ministros e pregadores que
promoveram congressos a despeito da lei. Na Inglaterra e Irlanda, igualmente, proíbem-se as reuniões de
católicos romanos, e ocasiões houve em que os delinqüentes foram condenados à morte.
 Mau grado essas interdições das leis romanas, Deus inspirou a muitos imperadores a indulgência para
com os cristãos. O próprio Diocleciano, que os ignorantes têm como perseguidor, Diocleciano, cujo
primeiro ano de reinado ainda se enevoa na idade dos mártires, foi durante muitos anos protetor
declarado do cristianismo, a ponto de numerosos cristãos deterem dos principais cargos ao pé de sua
pessoa. Chegou a tolerar que em Nicomedia, sua residência, se elevasse uma igreja defronte a seu
palácio.
 Infelizmente prevenido contra os cristãos, de quem temia viesse algum dia a se lamentar, o césar
Galério fez Diocleciano destruir a catedral de Nicomédia. Um cristão mais piedoso que reportado fez em
pedaços o édito do imperador, acendendo a famosa perseguição que condenou à morte mais de duzentas
pessoas em toda a extensão do império romano, sem contar as que, contra as formas jurídicas, sacrificou
a fúria do populacho, sempre fanático e sempre bárbaro.
 Tão copioso é o rol dos mártires que seria conveniente cuidar de não baralhar a história dos
verdadeiros confessores da nossa santa religião com o perigoso emaranhado de fábulas e falsos mártires.
 O beneditino dom Ruinart, por exemplo, homem aliás de tanta instrução quanto respeitável e zeloso,
devia ter escalrachado com mais discrição seus Atos Sinceros. Não é só escabichar um manuscrito em
meio à papelada do abade de Saint-Benoît-sur-Loire ou de um convento de celestinos de Paris, conforme
a um manuscrito dos fuldenses, e decretá-lo autêntico. É necessário que seja antigo, escrito por
contemporâneos e, sobretudo, que estampe o selo da verdade.
 Exemplo: o caso do jovem Romano, que a história situa no ano 303. Romano obtivera, em Antióquia,
o perdão de Diocleciano. Sentencia o sr. Ruinart, no entanto, ter sido ele condenado ao fogo pelo juiz
Asclepíades. Judeus presentes ao espetáculo haveriam mofado do jovem S. Romano, acoimando aos
cristãos o abandoná-los seu Deus à tortura do fogo, ele que salvara ao forno Sidraque, Misaque e
Abdenago. Presto se levantaria, no mais sereno do tempo, uma tempestade que apagaria o fogo. Então o
juiz teria ordenado que se cortasse a língua ao jovem Romano. Encontrando-se ali o primeiro médico do
imperador, oficiosamente desempenharia a função de algoz, cortando-lhe cerce a língua. De improviso o
jovem, que era tartamudo, começaria a parolar muito a prazer. Assombrando-se o imperador de que se
falasse tão bem sem língua, o médico, para reiterar a experiência, cortaria a língua ao primeiro passante
que visse, o qual morreria instantaneamente.
 Eusébio, de quem o beneditino Ruinart extraiu esse conto, devia respeitar um pouco mais os
verdadeiros milagres operados no Velho e Novo Testamento (que ninguém terá o desplante de pôr em
dúvida) e não enxertar-lhes histórias tão suspeitas, que podem escandalizar os simples.
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 Essa última perseguição não se estendeu a todo o império. Havia então na Inglaterra uns brotos de
cristianismo, os quais se eclipsaram incontinenti para logo pôr a cabecinha de fora sob os reis saxões.
Inçadas de cristãos estavam as Gálias meridionais e a Espanha. Muito os protegeu em todas essas
províncias o césar Constâncio Cloro. Teve até uma concubina cristã: a mãe de Constantino, conhecida
por Sta. Helena. Porque o fato é que nunca se provou que fossem casados, e efetivamente, ao esposar a
filha de Maximiano Hércules, em 292, Constâncio recambiou-a. Helena, contudo, conservara sobre ele
grande ascendência, inspirando-lhe profunda afeição a nossa santa religião.
 Preparou a divina Providência, por vias que mais parecem humanas que divinas, o triunfo de sua
igreja. Constâncio Cloro morreu no ano 306, em York, Inglaterra, quando os rebentos que tivera da filha
de um césar mal se haviam emancipado dos cueiros, não podendo portanto candidatar-se ao trono. Fez-se
Constantino eleger em York por cinco ou seis mil soldados, alemães, gauleses e ingleses na maior parte.
Nada augurava que semelhante eleição, realizada sem consentimento de Roma, do senado e dos
exércitos, pudesse prevalecer. Deus, não obstante, deu-lhe a vitória sobre Maxêncio, eleito em Roma, e
por fim desembaraçou-o de todos os rivais. De tudo isso depreende-se que não o tornara indigno dos
favores do céu o haver assassinado todos aqueles que dele se aproximaram, a própria mulher e o próprio
filho.
 Impossível duvidar do que a respeito relata Zósimo. Diz que, mordido de remorsos depois de tantos
crimes, Constantino perguntou aos pontífices do império se ainda havia expiação possível para ele, ao
que lhe responderam não conhecer. Verdade é que também não a houvera para Nero, que não ousara
assistir aos sacros mistérios na Grécia. Estavam em voga, entretanto, os taurobólios, e seria difícil crer
que um imperador que tudo podia não encontrasse um padre que lhe concedesse sacrifícios expiatórios.
Menos crível ainda será que, absorvido pela guerra, sua ambição, seus projetos e rodeado de bajuladores,
tivesse Constantino tempo para sentir remorsos. Acrescenta Zósimo que um padre egípcio vindo da
Espanha, que tinha acesso a sua porta, prometeu-lhe a expiação de todos os seus crimes dentro da
religião cristã. Desconfia-se tratar-se de Ózio, bispo de Córdova.
 Seja como for, Constantino comungou com os cristãos, se bem nunca tivesse sido catecúmeno, e
reservou o batismo para a hora da morte. Mandou construir a cidade de Constantinopla, que se tornou
centro do império e da religião cristã. Então a igreja tomou uma forma augusta.
 Note-se que desde o ano 314, antes de Constantino fixar residência em sua nova cidade, os que
haviam perseguido os cristãos foram por estes punidos de suas crueldades. Os cristãos lançaram a mulher
de Maximiano ao Oronte, degolaram todos os seus parentes e trucidaram no Egito e Palestina os
magistrados que mais abertamente tinham