DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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o gênio guardião de Heitor, é então obrigado a abandoná-lo(26). Não que
Homero não seja pródigo de idéias opostas, consoante o privilégio da antigüidade. Mas enfim é o
primeiro em que aparece a noção do destino. Devia estar, pois, muito em voga em seu tempo.
 Os fariseus, na pequena nação judaica, só conceberam o destino muitos séculos depois, porquanto,
embora tenham sido os primeiros judeus letrados, eram muito novos em relação aos gregos. Mesclaram
em Alexandria parte dos dogmas dos estóicos às antigas idéias judaicas. Chega a pretender S. Jerônimo
não ser sua seita muito anterior à nossa era. Os filósofos sempre prescindiram de Homero e dos
fariseus para se persuadirem de que tudo está sujeito a leis imutáveis, tudo está determinado, tudo é
efeito necessário.
 Ou o mundo subsiste pela própria natureza, pelas leis físicas, ou formou-o um Ser Supremo conforme
supremas leis. Num caso como noutro as leis são imutáveis e tudo é necessário. Os corpos graves tendem
para o centro da terra, não podendo tender a repousar no ar. Pereiras nunca poderiam dar ananases. O
instinto de um espanhol não pode ser o instinto de um austríaco Tudo se acha ordenado, engranzado e
limitado.
 Não pode o homem ter mais que certo número de dentes, cabelos e idéias. Tempo vem em que
inevitavelmente perde os dentes, os cabelos e as idéias
 Contraditório seria que ontem não fosse ontem e hoje não fosse hoje. Tão contraditório como se o que
há de ser pudesse deixar de sê-lo.
 Se pudesses torcer o destino de uma mosca, nada te impediria de traçar o destino de todas as outras
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moscas, de todos os outros animais, de todos os homens, de toda a natureza. Enfim, serias mais poderoso
que Deus.
 Dizem os cretinos: O médico arrancou minha tia aos braços da morte, fê-la viver dez anos mais do
que deveria viver. Outra modalidade de imbecis - os capazes, - sentenciam: O homem prudente forja o
próprio destino.
Nullum numen abest, si sit prudentia, sed te
nos facimus, fortuna, deam, coeloque locamus.
 Asseveram profundos políticos que se oito dias antes que se decapitasse Carlos I se tivessem
assassinado Cromwell, Ludlow, Ireton e uma dúzia de outros parlamentares, esse rei ainda podia ter
vivido e morrer no leito. Têm razão. E poderiam acrescentar que se o mar houvesse tragado toda a
Inglaterra esse monarca não teria morrido em um patíbulo junto a Whitehall, ou sala, branca. Porém as
coisas estavam dispostas de maneira que Carlos teria irrevogavelmente o pescoço cortado.
 Não resta dúvida que o cardeal de Ossat era mais prudente que um louco das Petites-Maisons. Mas
não é evidente que os órgãos do sábio de Ossat não eram os mesmos que os de um desmiolado, da
mesma forma como os de uma raposa diferem dos de um grou ou uma calhandra.
 O médico salvou tua tia. Mas não contradisse a natureza: obedeceu-lhe. Claro que tua tia não podia
deixar de nascer senão na cidade em que nasceu, em ocasião certa ter certa moléstia, que o médico não
podia estar alhures senão na cidade em que estava, que tua tia forçosamente o chamaria a ele, o qual
necessariamente lhe prescreveria os remédios que a curaram.
 Crê um camponês haver geado em seu campo por acaso. Mas um filósofo sabe que não existe acaso e
que era impossível, na constituição deste mundo, que precisamente naquele dia não geasse precisamente
naquele lugar.
 Há pessoas que, aterrorizadas ante essa verdade, só concordam pela metade, como devedores que
oferecem metade aos credores e pedem mora para a outra metade. Existem, dizem elas, acontecimentos
necessários e acontecimentos não necessários. Engraçado um mundo metade em ordem metade em
desordem. Que parte do que acontece precisava acontecer, outra não. Basta chegar-se-lhe um pouco mais
o nariz para ver ser absurda semelhante teoria. Mas há muitos indivíduos que nasceram para raciocinar
mal, outros para não raciocinar .e outros para perseguir os que raciocinam.
 Perguntareis:
 - E a liberdade?
 Não vos entendo. Não sei o que seja essa liberdade de que falais. Há tanto tempo discutis acerca de
sua natureza que seguramente não a conheceis. Se quiserdes, ou melhor, se puderdes examinar
calmamente comigo o que se deve entender por essa palavra, saltai à letra L.
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DEUS
 Imperante Arcádio, Logômacos, teologal de Constantinopla, empreendeu uma viagem à Cítia, e
deteve-se ao pé do Cáucaso, nos férteis plainos de Zefirim, nos términos da Cólchida. Estava o bom
velho Dondindaque em sua ampla sala baixa, entre seu grande aprisco e a vasta granja. Estava ajoelhado
em companhia da mulher, dos cinco filhos e cinco filhas, seus pais e seus criados, e cantavam os
louvores a Deus após ligeiro repasto.
 - Que fazes, idólatra? - perguntou-lhe Logômacos.
 - Não sou idólatra - retorquiu Dondindaque.
 - Claro que o és, pois és cita e não grego. Que cantavas em tua bárbara geringonça da Cítia I
 - Todas as línguas soam da mesma forma aos ouvidos de Deus. Cantávamo-lhe os louvores.
 - Eis uma coisa extraordinária! Uma família cita que ora a Deus sem ter sido instruída por nós!
 Seguiu-se um diálogo entre o grego Logômacos e o cita Dondindaque, pois o teologal sabia um pouco
de cita e o outro um pouco de grego. Encontrou-se esse diálogo num manuscrito conservado na
biblioteca de Constantinopla
Logômacos
 Vejamos se sabes teu catecismo. Por que oras a Deus?
Dondindaque
 Justo é que adoremos o Ser Supremo que tudo nos deu.
Logômacos
 Oh! Para um bárbaro não está mal. E que lhe pedes?
Dondindaque
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 Agradeço-lhe os bens de que gozo e os males com que lhe apraz provar-me. Abstenho-me porém de
pedir-lhe seja o que for. Melhor que nós sabe ele o que nos falta. Demais poderia dar-se que quando eu
pedisse bom tempo meu vizinho pedisse chuva.
Logômacos
 Ah! Logo vi que ia dizer alguma asneira. Passemos a plano mais elevado. Bárbaro, quem te disse que
Deus existe?
Dondindaque
 Toda a natureza.
Logômacos
 Não basta. Que idéia tens do Ser Supremo?
Dondindaque
 Que é o meu criador, meu soberano, que me recompensará quando praticar o bem e me castigará
quando cometer o mal.
Logômacos
 Que frioleiras! Vamos ao essencial - Deus é infinito secundum quid ou segundo a essência?
Dondindaque
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 Não vos entendo.
Logômacos
 Sujeito tapado! Deus está algures ou ao mesmo tempo em tudo e fora de tudo?
Dondindaque
 Não sei... Como quiserdes.
Logômacos
 Ignorante! Pode Deus demover o acontecido? Pode fazer que um bastão não tenha duas pontes? Como
verá o futuro: como futuro ou como presente? Como faz para tirar o ser do nada e para aniquilar o ser?
Dondindaque
 Tais coisas nunca me passaram pela cabeça.
Logômacos
 Que sujeito bronco! Bem, vejo que preciso baixar a trave. Dize-me, meu amigo, achas que a matéria
possa ser eterna?
Dondindaque
 Que me importa que seja eterna ou não? Eu, posso afirmar que não o sou. De qualquer forma, Deus é
o meu senhor. Deu-me a noção de justiça, devo segui-la. Não quero ser filósofo, quero ser homem.
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Logômacos
 São o diabo, essas cabeças duras! Vamos aos poucos: Que é Deus?
Dondindaque
 Meu soberano, meu juiz, meu pai.
Logômacos
 Não é isso o que pergunto. Qual é sua natureza?
Dondindaque
 Ser poderoso e bom.
Logômacos
 Mas é corporal ou espiritual?
Dondindaque
 Como quereis que o saiba?
Logômacos
 Arre! Não sabes o que é um espírito?
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