DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
187 pág.

DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.825 seguidores
Pré-visualização50 páginas
os
corpos têm e comunicam movimento, e dizes força. Vês teu cão de caça aprender contigo teu ofício, e
crias instinto, alma sensitiva. Tens idéias combinadas, e dizes espírito.
 Mas que entendes tu por estas palavras? Aquela flor vegeta. Existirá porém um ser material -
vegetação? Aquele corpo impele outro. Porém encerra ele em si um ente distinto - força? Aquele cão
traz-te uma perdiz. Existirá porém um ser chamado instinto? Não te ririas de um raciocinador (teria sido
preceptor de Alexandre) que te dissesse Todos os animais vivem; logo, encerram uma forma substancial -
a vida?
 Se uma tulipa pudesse falar e dissesse: Minha vegetação e eu somos dois seres juntos formando um
só, não te ririas da tulipa?
 Vejamos primeiro o que sabes, e do que estás certo. Que andas com os pés. Que digeres com o
estômago. Que sentes com todo o corpo. Que pensas com a cabeça.
 Pois bem. Pode a tua razão só por só dar-te luzes suficientes para concluíres, sem um recurso
sobrenatural, que tens uma alma?
 Os primeiros filósofos, quer caldeus, quer egípcios, disseram: Forçoso é haver em nós algo que
produza o pensamento; esse algo deve ser extremamente sutil: sopro, fogo, éter, substrato, um tênue
simulacro, uma enteléquia, um número, uma harmonia. Finalmente, segundo o divino Platão, é um
composto do mesmo e do outro. São átomos que pensam em nós, disse Epicuro depois de Demócrito.
Mas, meu amigo, como pensa o átomo? Confessa que nem o imaginas.
 Aceita-se seja a alma um ser imaterial. Mas vós não concebeis o que seja esse ente imaterial.
 - Não, - respondem os sábios - porém conhecemos sua natureza: pensar.
 - Como o sabeis?
 - Porque ela pensa.
 - Oh sábios! Muito receio que sejais tão ignorantes quanto Epicuro. A natureza de uma pedra é cair
porque ela cai. Pergunto-vos: que a faz cair?
 - Sabemos que uma pedra não tem alma.
 - De acordo.
 - Sabemos que uma negação, uma afirmação não são divisíveis, não são partes da matéria.
 - Da mesma opinião. Mas a matéria, que aliás desconhecemos, tem qualidades não materiais, não
Dicionário Filosófico.
file:///C|/site/livros_gratis/dicionario_filosofico.htm (9 of 185) [19/06/2001 11:46:57]
divisíveis. Possui gravitação para um centro, que Deus lhe deu. Essa gravitação não é formada de partes,
não é divisível. A força motriz dos corpos não é ente composto de partes. A vegetação dos corpos
organizados, sua vida, seu instinto, não são seres à parte, seres divisíveis. Não podeis cortar em duas a
vegetação de uma rosa, a vida de um cavalo, o instinto de um cão, da mesma forma como não podeis
cindir em duas uma sensação, uma negação, uma afirmação. Portanto vosso grande argumento inferido
da indivisibilidade do pensamento absolutamente nada prova.
 Que chamais então vossa alma? Que idéia tendes dela? Por vós mesmos, sem revelação, não podeis
admitir em vós senão um poder de vós desconhecido de sentir, de pensar.
 Agora dizei-me sinceramente: é esse poder de sentir e pensar o mesmo que vos faz digerir e andar?
Confessais que não. Porque debalde ordenaria vosso entendimento a vosso estômago doente: Digere! Ele
não digeriria. Debalde vosso ser imaterial intimaria a vossos pés gotosos: Caminhem! Eles não
caminhariam.
 Com razão observaram os gregos não ter o pensamento quase nenhuma influência no funcionamento
dos órgãos. Admitiam para os órgãos uma alma animal. Para o pensamento uma alma mais tênue, mais
sutil: um nous.
 Mas eis a alma do pensamento que em milhares de ocasiões governa a alma animal. Ordena a alma
pensante às mães que apreendam: as mãos apreendem. Porém não pode ordenar ao coração que bata. Ao
sangue que circule. Que se forme o quilo. Tudo isso se faz independentemente dela. Aí estão as vossas
duas almas metidas em maus lençóis e feitas péssimas donas de casa.
 Claro que a primeira alma não existe. Não passa do movimento dos órgãos. Em guarda, homem! Tua
fraca razão não é capaz de provar a existência da outra também. Não podes concebê-la senão pela fé. Tu
Nasces. Vives. Ages. Pensas. Velas. Dormes. Sem saber como. Deus conferiu-te a faculdade de pensar
como tudo o mais. E se não viesse ensinar-te nas idades assinaladas pela sua providência que tens uma
alma imaterial e imortal, dela não terias prova alguma.
 Relanceemos os interessantes sistemas arquitetados pela tua filosofia em torno dessas almas.
 Um diz que a alma humana é parte da substância do próprio Deus. Outro que é parte do todo infinito.
Terceiro que foi criada ab eterno. Quarto que foi feita e não criada. Outros afirmam que Deus as fabrica à
proporção necessária, e que chegam no instante da cópula. Alojam-se nos animálculos seminais, exclama
este. Não, diz aquele, vão habitar as trompas de Fallopio. Todos vós estais errados, intervêm aqueloutro:
a alma espera seis semanas até que esteja formado o feto; então se acomoda na glândula pineal; se,
porém, encontra um germe maligno, volta, a espera de melhor ocasião. A última opinião é que sua
morada é no corpo caloso. É o local que lhe atribui La Peyronie. Era preciso ser primeiro cirurgião do rei
de França para dispor assim do alojamento da alma. Pena é que o corpo caloso do ar. La Peyronie não
tenha tido a mesma fortuna que o dono.
 Diz Santo Tomás (questão septuagésima quinta e subseqüentes) que a alma é uma forma subsistante
per se. Que está em todas as coisas. Que sua essência difere de sua potência. Que há três almas
vegetativas: nutritiva, aumentativa, generativa. Que a memória das coisas espirituais é espiritual. Que a
memória das coisas corporais é corporal. Que a alma racional é uma forma imaterial quanto às operações
Dicionário Filosófico.
file:///C|/site/livros_gratis/dicionario_filosofico.htm (10 of 185) [19/06/2001 11:46:57]
e material quanto ao ser. Sto. Tomás escreveu duas mil páginas dessa força e dessa clareza. É o pai da
escola.
 Não é menor o número de sistemas forjados sobre a maneira de sentir da alma depois de desertar do
corpo por meio de que sente. Como ouvirá sem ouvidos. Como olfatará sem nariz. Como tocará sem
mãos. Que corpo retomará de futuro: o que tinha aos doze ou aos oitenta anos? Como o eu, a identidade
da mesma pessoa subsistirá. Como a alma de um indivíduo tornado cretino à idade de quinze anos e que
cretino tenha morrido aos setenta anos retomará o fio das idéias interrompido na puberdade. Por que
milagre uma alma que haja perdido uma perna na Europa e um braço na América reencontrará essa perna
e esse braço. (Que, tendo se transformado em legumes, terão virado sangue de algum outro animal).
 Singular é não haver nas leis do povo de Deus palavra sequer a respeito da espiritualidade e
imortalidade da alma. Nem no Decálogo, nem no Levítico nem no Deuteronômio.
 Em passo algum - e sobre isto não paira a menor dúvida - Moisés promete aos judeus recompensas e
castigos em outra vida. Nem lhes fala da imortalidade da alma. Não lhes acena com céu nem os ameaça
com inferno. Tudo é temporal.
 Antes de morrer diz-lhes no Deuteronômio: "Se depois de terdes filhos e netos vós prevaricardes,
sereis exterminados no país e reduzidos a número ínfimo entre as nações.
 "Eu sou um deus cioso que pune a iniqüidade dos pais até terceira e quarta geração.
 "Honrai pai e mãe para que vivais longo tempo.
 "Nunca vos faltará o que comer.
 "Se seguirdes deuses estrangeiros sereis destruídos...
 "Se obedecerdes tereis chuva na primavera como no outono. Tereis frumento, óleo e vinho. Tereis
feno para os vossos animais. Para que comais e vos farteis.
 "Gravai estas palavras em vossos corações, em vossas mãos, aos vossos olhos. Escrevei-as em vossas
portas. Para que vossos dias se multipliquem.
 "Fazei o que vos ordeno sem tirar nem pôr.
 "Se se erguer um profeta e vos predisser causas prodigiosas; se a predição for verdadeira e se cumprir;
e se ele vos disser: Vamos! Sigamos deuses estrangeiros...- matai-o incontinenti. E que todo o povo vos
acompanhe.
 "Quando o Senhor vos